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domingo, 5 de agosto de 2012

A DIVISÃO DOS MOMENTOS DO JOGO



Certa vez perguntei ao Matias Manna como o Guardiola dividia o jogo de futebol:

5. Luis Esteves: Quais são os princípios do FC Barcelona nos quatro momentos do jogo?
Matías Manna: Te cambio La pregunta. Que es jugar bien? Que El arquero se La pasa AL defensa, El defensa AL médio, El médio AL ataque, siempre com circulación y ritmo alto Del balón mediante pases generando superioridades em líneas posteriores.
Mediante esa idea, se entiende AL equipo de Guardiola. Y no hay momentos autônomos, defensa y ataque. Si atacamos bien, defenderemos mejor. Guardiola entiende El juego de uma manera global, como um todo.

Bom, a partir daí passei a refletir sobre isso e percebi que a divisão do jogo em momentos gera alguns problemas que prejudicam a qualidade do jogo, principalmente no que diz respeito a tomada de decisão, tornando-as mais lentas.

Lentas pois seguimos o princípio de que a passagem de um momento para o outro exige uma transição. Por mais rápida que seja essa transição, ela ainda assim será um momento, e por existir acarretará em uma tomada de tempo.

Ou seja, saio de 1 pra dois, de 2 pra três, de 3 pra 4 e finalmente de 4 pra 1 novamente. Isso deixa o jogo mais lento, e a velocidade é fundamental no futebol, quanto maior o nível, maior é a exigência da velocidade. Uma tomada de decisão, independente do tipo, precisa ser rápida. Por exemplo, mesmo que um jogador decida ficar parado, ele precisa perceber isso rapidamente.


LÓGICA DA DIVISÃO EM MOMENTOS


PRINCÍPIOS NORMALMENTE UTILIZADOS

Seguimos uma lógica de distribuição de critérios em cada momento, e a partir daí provocamos uma mesma sintonia de ações, etc, porém isso me parece ainda gerar um ruido na organização da equipe.
Quando entramos em um momento e jogamos conforme um princípio, perdemos um pouco de articulação de sentido. Ou seja, entramos demais no princípio, e esquecemos do equilíbrio dinâmico que a equipe deve ter ao atacar e defender. As transições estão entre esses dois momentos, as transições são as passagens de um para o outro, e podem admitir formas diferentes, há quem faça transições de uma forma, há quem faça de outra. vale lembrar que isso não é a mudança entre setores do campo, mas sim entre ter ou não a bola.
Vou dar um exemplo: Uma equipe com a bola quer posse. Um critério fundamental para ter posse e a abertura dos espaços, e isso é feito através da abertura de campo. Abre-se toda a equipe, assim facilmente os jogadores abertos entram nos espaços interiores do campo, cria-e espaço para os jogadores de meio jogarem com menos pressão, porém muitas vezes essa abertura é excessiva.

Ela não pensa na transição em sí, ou pensa pouco, ou seja, por estarem abertos demais, de forma relativamente igual ( jogadores de extremidade abertos, jogadores de profundidade abertos, jogadores de meio abertos em relação aos outros jogadores de meio) acabam tendo uma dificuldade grande no momento que perdem a bola. Por estarem vivendo demais a abertura de campo, acabam esquecendo que a bola pode ser perdida e se a abertura for excessiva, não irão conseguir fechar os espaços próximos para recuperar a bola novamente, mesmo que no momento da perda tenham uma atitude forte para tentar recuperar a bola.

É uma articulação de sentido muito sutil, em que a importância de abrir o campo, é igual a importância de onde abrir, quem irá abrir, como recuperaremos a bola se a perdermos, quem estará onde e quando. Embora numa escala de organização possamos criar uma cascata de acontecimentos, a importãncia de todos é a mesma, aproveito para citar uma frase do Jorge Maciel citando Henry Laborit - 1971: “a morte do organismo implica a do órgão, mas o mais vulgar é a morte do órgão implicar a morte do organismo.”

LÓGICA COMUM - PEDAGÓGICA - DO JOGO DE MUITAS EQUIPES


"¿Qué es jugar bien? El arquero se la pasa al defensa,
el defensa al mediocampo, el medio a los delanteros.
Todo con buen ritmo de circulación de balón
y encontrando superioridades en las líneas posteriores.
 Eso es jugar bien. Sin más. No hay secretos."
MATÍAS MANNA
UMA ORGANIZAÇÃO MAIS CAÓTICA

Embora a utilização de imagens seja nociva ate certo ponto, acho a ilustração válida. É uma necessidade humana definir, conceitualizar para poder entender e prever acontecimentos.

Por isso acredito que de uma forma geral a busca pelo jogar bem ocorre sim na escolha de que princípios iremos escolher para gerar uma determinada forma de jogar. Estes inavitavelmente serão modelados e irão causar modelação aos principios maiores. Ainda estou refletindo sobre isso mas acredito que tudo parte de como queremos ter a bola. A partir daí, geramos uma serie de acontecimentos prováveis, porém não de uma forma linear, ou previsível numericamente. Por exemplo, se queremos ter posse, controlar o jogo, se queremos o protagonismo do jogo, teremos que ter determinados critérios, e estes irão ter sub-critérios, ou sub-princípios, e assim por diante em escalas cada vez menores. Já se queremos ter a bola, mas não com tanta posse, teremos outras coisa, e se não quisermos ter a bola quase nunca, teremos outras. Logicamente que isso em interação  com outros elementos fundamentais, como competição, adversários, torcida, mídia, etc..


Em resumo acredito que a passagem entre momentos retira da equipe alguns preciosos segundos. Em alguns contextos estes segundos representam a diferença entre o primeiro e o segundo colocado.

Grande abraço a todos
Luis Esteves

sábado, 7 de abril de 2012

EXERCÍCIOS

" Quando eu tinha dezessete anos lembro de ter lido algo como:
"Se você vive cada dia como se fosse o último,
um dia você acerta"
Isto me impressionou.
E desde então ao passar de trinta e três anos,
eu olhei no espelho toda manhâ me perguntando:

Se esse fosse o meu último dia de vida,
eu desejaria fazer o que farei hoje?
Quando a resposta foi não por dias demais,
eu soube que precisava mudar algo."

Discurso de Steve Jobs  para a turma de formandos de 2005 da Stanford University.
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Peço desculpas pelas poucas postagens, mas ultimamente tenho tido menos tempo para elas, porém este blog continuará sempre em atualização mais ou menos regular, não buscando a quantidade, mas sim a qualidade em termos de postagem. Agradeço a todos os que continuam acompanhando este blog.

EXERCÍCIOS

Vou postar três exercícios interessantes que utilizamos nos últimos tempos aqui no EC Pelotas. Créditos ao professor Martinho Inácio (Preparador Físico do EC Pelotas) pela realização dos exercícios, ao qual na verdade se não estão ai da forma original, sofreram pequenas adaptações apenas.

EXERCÍCIO 1

Situação de finalização:

Exercício simples de finalização, em situações diversas. Basicamente três filas de jogadores, cerca de 3 ou 4 por fila, dependendo da recuperação desejada, onde cada fila possui um número, e cada número poe dentro do campo determinada equipe, que podem variar diversos confrontos, dentre eles 1x1, 2x2, 3x3, 2x1, 2x2, 3x2, 3x3, 3x1.



Este exercício exige grande concentração, pois o que define a situação é o comando de voz do treinador. Ao dizer uma sequência de números, determinado grupo de jogadores irá sair e jogar.

Por exemplo: O treinador fala 1, 2, 4, e 6, então estes jogadores saem e jogam.  (Neste caso citado, seria uma situação 3 contra 1).

Bom, vamos ao exemplo do gráfico acima:

No caso ocorreu uma situação de 3 contra 2, onde o time azul possui a superioridade Não considerando o goleiro), desta forma deve atacar a goleira grande. A equipe verde, em inferioridade deve ao recuperar a bola e rapidamente procurar sair da pressão azul buscando uma das goleiras pequenas.

Porém, quando o treinador usar a palavra TODOS, ou até mesmo citar todos os números, ou quando citar sequências em que haja igualdade numérica, como 1x1, 2x2, as duas equipes devem finalizar na goleira grande. No caso de 2x2, ou 3x3 pode-se colocar um número de passes mínimos como 1 ou 2 passes antes de finalizar para haver alguma circulação, ou até mesmo deixar livre para finalizar assim que recuperar a posse da bola.


EXERCÍCIO 2

Retirada da Pressão:

Exercício interessante para buscar uma transição ofensiva rápida e objetiva. Dois grandes grupos com uma goleira no centro do campo, o objetivo é finalizar, porém não antes de uma retirada da zona de pressão no jogador coringa do outro lado, após isso a equipe pode finalizar normalmente.



Exemplo: Acima o grupo verde tem a bola, e neste espaço de campo, a superioridade do coringa (jogador vermelho) é desta equipe, cabendo a estes buscar o gol. Já a equipe amarela deve tentar recuperar a bola e buscar o jogador coringa que esta isolado do outro lado do campo, e a partir dai buscar finalizar ao gol, cabendo ao verde ir recuperar a bola imediatamente.

para haver uma aleatoriedade na disposição dos campos de ataque das equipe, deve-se, a cada finalização, manter a bola com a equipe que finalizou, porém, sempre no outro lado do campo, dessa forma as equipes sempre estarão atacando em campos diferentes, evitando a fixação do campo de ataque e defesa. 


EXERCÍCIO 3

Bobinhos com alternância de campo:

Exercício em que dois, três ou até mesmo quatro campos são colocados em distâncias que podem variar de 10 a 20 metros, até mais dependendo dos objetivos do treino.


Exemplo acima: São neste caso 3 campos, onde jogam 8 jogadores, sendo 3 por fora e 2 por dentro. O objetivo de cada equipe que esta por fora, em cada campo é trocar determinado número de passes, ou simplesmente fazer um passe por dentro da dupla que está no meio, fica a critério do treinador, pois o número de passes estimulará mais a circulação, já a passagem da bola pelo meio, estimulará mais o fechamento de espaços da dupla que defende.

Se algum jogador que esta por fora, errar o passe, imediatamente ele e o jogador ao lado direito devem se deslocar para o campo seguinte, sendo a partir daí a dupla de meio deste campo. Caso o grupo que esta por fora com 6 jogadores consiga o seu objetivo, a dupla que esta no meio deve seguir para o próximo campo e continuar no meio como bobo.

Pode acontecer em alguns momentos uma dupla chegar e outra ainda estar no campo, nesse caso, uma alternativa é um comando de voz da dupla que esta chegando, fazendo imediatamente a dupla que esta dentro, caso ainda não tenha atingido seu objetivo, saia e passe para o outro campo.

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LIVRO


Com enorme satisfação que publico aqui o livro do professor Bruno Pivetti, direcionado especificamente a Periodização Tática. Merece destaque pela qualidade. Já publiquei aqui em 2010 um relatório do próprio Bruno, no qual ele descreve o estágio que fez no FC do Porto com o então treinador e professor José Guilherme Oliveira.


Este relatório pode ser visto em:


Inclusive aproveito para anunciar que em breve estarei publicando uma entrevista com o próprio Bruno Pivetti, relacionada a Periodização Tática e outros assuntos do contexto do futebol.

O livro pode ser adquirido em:


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TREINADOR DESTAQUE


Gostaria de aproveitar e parabenizar a campanha que o professor Fabiano Daitx vem fazendo no Guarany, clube de Camaquã, pela segunda divisão do estado, onde com uma grande campanha vem liderando seu grupo, a frente de clubes maiores, com mais tradição e investimento que o Guarany. Parabéns Fabiano e a comissão técnica do Guarany, bem como o grupo de jogadores.





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Um grande abraço
Feliz páscoa a todos.

Luis Esteves

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ESPIRAL DE AUTO-RENOVAÇÃO E LEI DE ROUX - UMA PERSPECTIVA DIFERENTE

Estou publicando com prazer e com autorização do professor Jorge Maciel o texto abaixo, que diz respeito a alguns assuntos relacionados ao treino, aquisição e recuperação, de uma forma coerente. O texto segue uma lógica de análise sobre um outro texto, com a contextualização simultânea ao futebol e ao treino.Vale a pena ler e refletir.
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Espiral de AutoRenovação e Lei de Roux – Uma Perspectiva Diferente

Jorge Maciel
Março de 2011

A ideia de auto renovação vai de encontro à essência da evolução dos sistemas complexos, os quais somente quando se encontram a funcionar na fronteira do caos podem fazer emergir novas ordens de complexidade, o que nos remete para conceitos importante das ciências da complexidade como, AutoEcoOrganização, estruturas dissipativas e a emergência de novos níveis de organização dentro de um determinado padrão, no caso um padrão funcional que revela incrementos de complexidade a nível biológico.


Tal como tudo na Vida, aliás como sugere o texto é essa a definição de Vida), também a Biologia Humana (entidade viva feita de vidas) não busca a permanência e a estagnação, trata-se portanto de uma realidade dinâmica e plástica que necessita de renovação permanente e de estímulos adequados para revelar potencialidades emergentes, mas por isso mesmo também latentes. Sendo ainda importante salientar que tal reestruturação orgânica se verifica rapidamente (Torbellino metabólico –turbilhão metabólico).


Além disso, e não menos importante como adverte o texto é fundamental a Especificidade do estímulo que desencadeia o acto motor e a reestruturação ou reorganização orgânica, aspecto muitíssimo pertinente e que sustenta de forma inequívoca a Especificidade como uma necessidade no processo de treino. Substitui o conceito de carga pelo de estimulo propositadamente, sendo importante ter consciência que se trata não de um pormenor linguístico, mas na verdade de um conceito cuja substância difere da que convencionalmente se entende quando se utiliza o termo carga (conotado com a norma do treinar).



Até aqui o texto salienta a técnica dos Átomos marcados, uma técnica utilizada para perceber o tipo de mutações e nalguns casos degenerações registadas nas células quando submetidas a um estímulo. Penso ser pertinente, sabendo o que se sabe hoje, ponderar e especular até que ponto este processo biológico explicado no texto não poderá estar subjacente aos fenómenos Epigeneticos e Ecogeneticos, levando-nos ainda a ter de considerar a relevância da dupla função do ATP aquando da vivenciação de tais reestruturações celulares. Devendo também ter-se sempre em consideração o termo psicossomático, e como tal contemplar os efeitos múltiplos e sob as múltiplas estruturas que as adaptações orgânicas poderão implicar. Aspectos todos eles muito relevantes no sentido de evidenciar a possibilidade do treino agir sobre a plasticidade humana.


Um aspecto importante para o que se pretende referir e indo de encontro ao referido no excerto de cima, é não ignorar que os gastos energéticos elevados estão associados à actividade global do organismo. Não podemos por isso ter uma visão redutora, centrada exclusivamente nos aspectos ditos físicos, entendendo-se desse modo a fadiga como uma realidade multidimensional tanto nas suas formas de manifestação como também naquilo que as provoca. Sendo o Futebol uma modalidade colectiva, que para se expressar com qualidade se deve suportar numa determinada organização intencionalizada, partilhada e que implica toda a corporalidade do ser que joga, depreende-se que o desgaste subjacente é substancial, assumindo-se a gestão e contemplação deste como um dos aspectos mais relevantes no treino de Futebol. Torna-se assim um imperativo este reconhecimento assim como a necessidade de o minimizar. Se é verdade que o Corpo despende energia para a gestualidade implicada no Jogo, também a requisita para a manifestação inteligente e criativa de um jogar.


Não é só o músculo que consome energia, sabe-se hoje que o cérebro (um tecido glucodependente) é um dos principais consumidores de energia do organismo humano. E sabe-se também, conforme já aludi, que o ATP desempenha um papel muito relevante como transmissor de informação, isto é como informador acerca dos múltiplos estados que o Corpo vivencia em diferentes instantes, sendo por isso uma molécula determinante para a proprioceptividade e como tal para assegurar a funcionalidade conforme e criteriosa dos milhões de cérebros que nos compõem. Se este elemento estiver deplecionado depreende-se que a funcionalidade do sistema (no caso um sistema em interacção) fica condicionada, pois a informação por ele veiculada não será a mais condizente com a desejada, e por conseguinte vai induzir uma estimulação dominante das vias metabólicas que não se ajustam ao jogar desejado. Este elemento quando em menor quantidade no interior das células, vai estimular as vias metabólicas ditas de menor potência, pois são aquelas que requisitam menor quantidade de aporte de ATP por unidade de tempo, logo se há pouco, gasta menos, economiza recorrendo a metabolismos de mais baixo consumo por unidade de tempo.


Este ponto do texto refere aspectos determinantes para um correcto entendimento acerca do modo como as diferentes vias metabólicas interactuam, salientando ainda a sua interdependência sem que deixe de ser simultaneamente uma interindependência, tornando ainda evidente a importância do repouso para a possibilidade de alcançar novos (maximizados como seguidamente se verá) estados de reestruturação metabólica (estrutura dissipativa). Estes aspectos são de grande importância para uma conveniente operacionalização do processo de treino, tenha ele uma dominância aquisitiva ou de recuperação. Desde logo desmitifica a ideia que para recuperar se deve actuar fundamentalmente sob a via oxidativa, mostrando que independentemente da via metabólica dominantemente utilizada e responsável pela fadiga todas requisitam a oxigenação das células para funções de realimentação, de remoção de metabolitos e de restabelecimento dos valores basais do organismo, no entanto, isto só se torna possível quando os tempos de repouso são devidamente respeitados. No que diz respeito ao futebol este facto tem repercussões muito relevantes para a forma de operacionalizar a recuperação (após competição e no próprio treino). Após competição fica evidente que é actuando sob a mesma matriz de esforço registada em competição que a recuperação se faz mais eficazmente e melhor respeitando a especificidade da modalidade praticada e de modo particular da Especificidade de um jogar. Para tal importa ter em consideração que o “repouso” não é um estado de paralisação metabólica ou orgânica, muito pelo contrário é ele o responsável pela reestruturação do sistema, ou seja é ele que permite novos formas de ordem a partir da desordem circunstancial, mas que respeita uma determinada padronização (a estimulação subjacente a um jogar). Uma padronização que para ser respeitada deve respeitar com critério os tempos de exercitação, e não menos importante os tempos de repouso. Ou seja, apesar de dominantemente as análises quantitativas ao tipo de esforço registado no futebol (estudos Time Motion) salientarem a dominância (temporal – quantitativa) das vias aeróbias, aqui tendo por base uma análise qualitativa do padrão de esforço subjacente à prática de futebol, conclui-se que as acções (na verdade são interacções) mais relevantes e preponderantes são levadas a efeito tendo como base dominante as vias anaeróbias alácticas. Parte-se assim do reconhecimento, que o futebol sendo uma modalidade intermitente que contempla a solicitação das várias vias metabólicas, são as de mais de alta intensidade a nível fisiológico (metabolismo anaeróbio aláctico) que se assumem como determinantes na generalidade das acções relevantes, sendo por isso mesmo sobre estas que dominantemente o treino (tenha ele mais cariz de recuperação ou aquisitivo) deverá incidir, uma vez que a sua finalidade será induzir nos organismos uma adaptabilidade tal que lhes permita dar resposta e possibilidade de lidar eficazmente com uma elevada, isto é, muito frequente estimulação destas vias metabólicas, sendo isto possível através de uma adaptabilidade que permita a diminuição (importa relativizar) dos tempos de repouso entre estimulações. Trata-se portanto, de em termos biológicos conferir ao organismo uma maior eficácia a qual lhe permite após ser submetido a um estímulo intenso restabelecer os seus índices basais mais rapidamente, o que por conseguinte possibilita que o organismo consiga suportar esforços às expensas das vias metabólicas anaeróbias alácticas com muito maior densidade e sem que tal seja acoplado, ou exclusivamente sustentado noutras vias metabólicas (ainda que paradoxalmente elas não funcionem em separado) devido à fadiga induzida e não respeito pelos devidos tempos de repouso. Este é aliás um dos maiores problemas que parece verificar-se na generalidade dos processos de treino, treinar cansado por não se respeitarem convenientemente os tempos de repouso, uma vez que é tal não contemplação que origina adaptabilidades metabólicas contraproducentes relativamente à que se deseja. Isto é, se o período de repouso não for o suficiente para restabelecer os valores basais de fosfocreatina e ATP, quando submetido a um estímulo o organismo (o jogador) não deixará de responder, no entanto, fá-lo-á socorrendo-se das vias metabólicas não desejadas, visto que como foi referido o ATP será recrutado e estará implicado na concretização do movimento de outro modo que não o desejável para a concretização de um jogar de qualidade. Quando tal sucede com regularidade estabelece-se como adaptação e o que se verifica é uma adaptabilidade contraproducente que se reflecte por querer mas não poder, fica um jogar sem a variabilidade e disponibilidade de andamentos ou ritmos desejados. É um processo semelhante ao que se observa nos automóveis quando por norma funcionam com baixas rotações independentemente das velocidades que estejam engrenadas, quando estimulados no sentido de funcionarem com uma rotatividade maior revelam muitas dificuldades, porque o motor criou uma adaptabilidade, pelo fazer, que não vai de encontro àquela solicitação. Importa realçar a este respeito que associada a uma solicitação fisiológica “de baixa rotação” em treino, por norma se encontra associada uma outra adaptabilidade que se revela contraproducente relativamente à manifestação de um jogar de qualidade, e cujas implicações se repercutem no padrão motor manifesto. Aquilo a que me refiro é, que associada a estas implicações metabólicas está a solicitação de uma determinada gestualidade corporal. A gestualidade requisitada pelo corpo quando tem de dar resposta a solicitações dominantemente aeróbias ou anaeróbias lácticas difere substancialmente (nas amplitudes de movimento dos segmentos, nas velocidades, durações e tensões musculares requeridas aquando da contracção e ainda no modo como é levado a efeito o encadeamento de acções) das que se verificam quando o organismo é obrigado, por vezes como no caso do futebol, a funcionar em alta rotação. A gestualidade implicada num jogar de qualidade implica uma grande versatilidade, fluidez e disponibilidade corpórea, o que geralmente não acontece. Por este motivo as equipas além de revelarem baixa rotatividade, independentemente de poderem ter carros de alta cilindrada, jogam também pelas adaptações biomecânicas associadas, com o travão de mão puxado, uma vez que a manifestação e vivenciação (em treino e competição) de um jogar em baixa rotação tem subjacente um padrão gestual contraproducente, robotizado, sem variabilidade de ritmos, de velocidades e de padrão gestual e por isso mesmo torna-se mais previsível, hipotecando assim a interacção bem sucedida da tríade EstéticaEficáciaEficiência. Sendo isto generalizado nas equipas assume-se como o padrão de desempenho dominante no futebol actual, um padrão claramente distinto do requisitado para a manifestação de jogares de qualidade. Face ao exposto, parecendo mais um detalhe no processo de treino, revela-se de facto um pormaior a devida contemplação dos tempos de repouso, visto que a exercitação continuada de um jogar sob fadiga acentuada tem implicações metabólicas e induz na gestualidade do corpo uma adaptabilidade postiça relativamente àquela que vai ser requisitada em jogo. E claro, não nos devemos esquecer que associado a estes aspectos há toda uma predisposição mental que não é a mais desejada. O Corpo além de não estar devidamente implicado na vivenciação de um jogar (não respeito pelo padrão metabólico e gestual) também não estará totalmente implicado nessa vivenciação. Será um Corpo tipo zombie que vive o jogar sem emotividade e ainda mais sem o sentir, um organismo desalmado (sem alma), letárgico, reactivo, anestesiado pela dinâmica (sem dinamismo) do processo de treinocompetição. Voltando à metáfora do carro, será um carro a funcionar ao relanti. Trata-se portanto de um conjunto de aspectos que induzem uma determinada (in)adaptabilidade que leva o carro a funcionar em baixa rotação, de travão de mão puxado e ao relanti. Como resultado final temos um veiculo para provas de enduro com “vontade” de ficar na garagem, quando aquilo que deveríamos ter era um formula 1 afinado para os circuitos mais sinuosos (variabilidade de trajectórias, ritmos e velocidades). Face a isto verifica-se por conseguinte também uma maior propensão para lesões e um Corpo a sentir-se (paradoxalmente sem sentir) estranho na tentativa de dar resposta a um jogar e às implicações do Jogo. Penso que isto apenas não é mais evidente, porque a generalidade das equipas se encontram no mesmo patamar, geralmente muito fatigadas e preparadas para “corridas” de longa duração.

Importa salvaguardar que apesar da ênfase colocada anteriormente nas vias anaeróbias e de modo mais relevante nos fosfagénios, não se quer passar a mensagem que a via aeróbia é irrelevante numa modalidade como o futebol, muito pelo contrário. Aliás a advertência que se faz quando se realça a importância do repouso salienta a necessidade do metabolismo aeróbio actuar em tais períodos de forma dominante para que a conveniente reorganização (autoorganização / autopoiese) do organismo se observe. O que se pode depreender do texto é que por muito paradoxal que possa parecer a estimulação das vias anaeróbias tem subjacente uma estimulação muito significativa das vias aeróbias quando os períodos de repouso são devidamente assegurados, arrisco a dizer que mais significativa do que a verificada numa estimulação aeróbia convencional. Deste modo, a periodização convencional encontra aqui mais um ponto de refutação, uma vez que como mostra este texto não é necessário seguir uma lógica sequencial em termos de metodologia, que determina primeiro o desenvolvimento da dita capacidade aeróbia (volume) para gradualmente sair desta e incidir sobre as capacidades anaeróbias (convencionalmente conotadas com a intensidade). Uma das principais conclusões que se deve reter do que foi referido anteriormente é que a sobrestimulação das vias aeróbias em detrimento das anaeróbias, e mais precisamente no caso do futebol das anaeróbias alácticas, poderá pela adaptabilidade Biológica criada (desde os níveis mais micro: a nível da massa mitocondrial; a nível celular – níveis intermédios/meso: diferentes órgão e sistemas implicados no controlo, comando e efectivação do movimento - até níveis mais macro: alterações na gestualidade dos segmentos corporais e consequentemente na relação/ralação extremamente sensível entre estes, contribuindo tudo isto para um funcionamento exclusivamente em “baixa rotação”, com o travão de mão puxado e ao relanti) hipotecar a possibilidade dos mecanismos associados à solicitação dos fosfagénios se manifestarem eficazmente.

O que foi até aqui referido tem implicações também no treino dominantemente aquisitivo. Os tempos de repouso são igualmente determinantes para aquisição da complexidade vivenciada no processo de treino. Os períodos de repouso são determinantes para a estabilização das aprendizagens efectuadas, pois são esses períodos que permitem que a reorganização neuronal e dos circuitos neurais se verifique e deste modo se observe a verdadeiro InCoporAcção do jogar vivenciado. A este respeito importa referir uma frase à qual recorre por vezes o Professor Vítor Frade, “aprende-se a nadar no Inverno”, a qual contempla a necessidade de estabilização de uma nova aquisição. Claro que no treino os espaços de tempo serão mais reduzidos, até pela habituação ao próprio processo de treino, no entanto, não deixa de ser relevante salientar que um aspecto a ter em conta na mais ou menos rápida estabilização das aprendizagens são a maior ou menor precocidade do processo e a maior ou menor identificação dos jogadores com o que se pretende. Daí que se trate de uma progressão que por não ser linear deverá ter estes aspectos em consideração, e é por isso mesmo que se diz complexa.

Tendo em consideração o que tem vindo a ser referido tanto a nível aquisitivo como de recuperação, a correcta contemplação dos períodos de exercitação e de repouso assume-se como determinante para que se observe uma conveniente InCorporAcção do jogar e para que se estabeleçam de forma continua condições favoráveis a tal fenómenos de Adaptabilidade Orgânica. Só através desta articulação, que faz sentido, entre aquisição e recuperação permite que o jogar seja devidamente sentido e a sê-lo em Especificidade, ter um determinado Sentido, evidenciando assim de forma mais vincada ainda que de facto se trata de duas dimensões da mesma face da moeda. Procura-se deste modo que os jogadores e como tal as equipas, manifestem e adquiram um jogar em treino e em competição com o mínimo de fadiga possível. Como é que isso se torna possível? Respeitando o Princípio Metodológico da Alternância Horizontal em especificidade, ou seja, distribuindo ao longo de um Morfociclo a vivenciação dos diferentes níveis de complexidade de um jogar (escalas do jogar vivenciado, concentração subjacente a essa vivenciação, padrão de contracção muscular dominante, padrão metabólico dominante…) salvaguardando a frescura da equipa. Este Princípio Metodológico contempla a não massificação dos mesmos elementos responsáveis implicados na (inter)Acção e na gestualidade associada à concretização de um jogar, sem que observe perda da Especificidade Biológica requisitada por esse jogar. É este Princípio Metodológico que permite também que a Adaptabilidade Orgânica desejada e relativa a um jogar se estabeleça nos jogadores, uma vez que é ele que permite, não a individualização do treino, mas a Corporalização individualizada de um jogar fazendo-o tendo por finalidade a emergência de uma Corporalidade Colectiva intencionalizada. São as várias corporalidades intencionalizadas (especificidades) que permitem a edificação e manifestação regular de uma Corporalidade Colectiva partilhada e intencionalidade, um grau de mestria e harmonia que ao assumir-se como regularidade é identificador de um fenómeno altamente dinâmico e complexo de ressonância empática. Penso que a este nível de desempenho nem todas as equipas ascendem, é o patamar da excelência, o TOP, mas mesmo assim deveria ser o patamar a que todas deveriam aspirar. Quando tais desempenhos se verificam o que se observa é uma fusão intencional e funcional entre os vários Eus (especificidades) que compõem a equipa e que se concretiza pela fluidez e harmonia com que o todo (Especificidade), o jogar da equipa, se expressa. Trata-se portanto de um fenómeno de AutoEcoHeteroEngendração, no qual partes e todo se harmonizam engrandecendo-se mutuamente, é sem duvida a concretização sublime, num domínio concreto e específico do Principio Hologramático. Um estado de complexidade supra, que requisita não somente uma conveniente opção a nível de concepção de jogo, mas também uma conveniente opção, e ainda mais concretização/operacionalização no domínio metodológico. Tal só é possível se a engendração entre os Princípios Metodológicos se fizer correctamente aquando da operacionalização do processo. O que passa pela necessidade de reconhecer a importância de incidir sobre o plano individual (a vários níveis: metabólico, muscular, biomecânico, decisonal) e as implicações que os vários níveis que o compõem têm no jogar e no treinar. Através do Princípio da Alternância Horizontal em especificidade, e da relação deste com os demais Princípios Metodológicos, pretende-se precisamente isso, ou seja, agir sobre a singularidade, ainda que em contextos, em termos dominantes, não exclusivamente individualizados e tendo como referência um todo que dá sentido a essa corporalidade. Contrariamente ao que convencionalmente concebe a norma do treinar, é a partir do todo (o jogar, um referencial colectivo) que se dão alterações na parte (jogador) que o suportam, uma engendração complexa que ao consumar-se faz emergir algo mais complexo (Especificidade) que a aquilo que resulta da soma das partes (especificidade). A especificidade (nível micro da Especificidade) refere-se aos não somente às particularidades de cada ser que joga (Eu) e que contribui de forma única para o jogar. É também o conjunto de especificidades relativas às múltiplas escalas do jogar vivenciadas ao longo morfociclo e que conjuntamente com as especificidades relativas aos vários Eus, e também às do contexto, farão emergir uma realidade global bem mais complexa que ao manifestar-se em termos probabilísticos com regularidade se pode designar de Especificidade. Conclui-se assim que a Especificidade mais não é que a emergência decorrente da engendração das várias especificidades, as especificidades da corporalidade singular de cada ser que joga, que são induzidas pelas especificidades metabólicas, contrácteis, das diferentes escalas do jogar vivenciadas ao longo do processo. Justifica-se deste modo que o Princípio da Alternância Horizontal em especificidade seja redigido deste modo (especificidade e não Especificidade), uma vez que o que se vivencia ao longo de tal alternância são escalas micro da Especificidade. Pode também referir-se, por preciosismo, que a redigir-se Especificidade em vez de especificidade aquando da designação deste Princípio Metodológico, deixaria de fazer sentido falar em alternância.

Relativamente a este Princípio Metodológico parecem já bastante abordadas as nuances verificadas ao longo da semana no que diz respeito, às diferentes escalas do jogar (níveis de organização da concepção de jogo), à Intensidade (concentração) implicada na vivenciação dessas escalas e ainda no que se refere ao padrão de contracção dominante a levar a efeito nas várias sessões que compõem o Morfociclo. No entanto, o mesmo não se verifica com o padrão metabólico dominante a respeitar nos diferentes dias. Independentemente deste se concretizar associado aos aspectos anteriormente mencionados e se concretizar se esses forem devidamente operaconalizados, a verdade é que parece existir alguma desinformação a este nível. Por este motivo penso ser pertinente que se esclareça o modo como o padrão metabólico deverá ser nuanciado de um Morfociclo, de modo a evitar o que por norma se verifica, o não cumprimento dos tempos de repouso e exercitação que motivam uma (in)adaptabilidade que leva as equipas a treinarem e competirem permanentemente em “baixa rotação”, com índices de fadiga acumulada consideráveis e em casos extremos sobretreino.

Antes de caracterizar o modo como as vias metabólicas se expressam em cada um dos dias que compõe o Morfociclo, importa salientar a importância da fraccionação do treino. A fraccionação das sessões de treino, é uma consequência inevitável e necessária para que a relação desempenho recuperação se faça convenientemente, isto é, respeitando os períodos de repouso para que o jogar seja vivenciado, conforme já foi referido, com uma intensidade (fisiológica) elevada. Apesar de aparentemente paradoxal tal como na manifestação de um jogar de qualidade também no processo de aquisição que lhe está subjacente, a pausa se assume como um elemento fundamental para que haja elevada Intensidade e Velocidade.

Na caracterização dos diferentes dias recorrerei ao termo densidade para me referir à relação proporcional entre o tempo de exercitação e o respectivo repouso. Por exemplo 1/3, sugere que a cada tempo de exercitação correspondem 3 de repouso. Importa advertir que a densidade sugerida serve exclusivamente como um referencial geral que visa padronizar as dominâncias metabólicas requeridas e que faz sentido se a Intensidade de treino se revelar de facto como tal, não devendo ser encarada de forma estanque e deverá ter em consideração muitos aspectos como a maior ou menor precocidade e habituação a um processo de treino ou até a própria configuração dos exercícios.

Terça-feira: conforme já sugerido anteriormente, os estímulos devem ser curtos e de “elevada” intensidade, solicitando fundamentalmente o metabolismo anaeróbio aláctico e proporcionando períodos de recuperação largos para que o metabolismo aeróbio possa proceder à regeneração, reorganização e realimentação do organismo. Sessão de treino bastante descontinua. Densidade: 1/8 – 1/9

Quarta-feira: pelo tipo de configuração que os exercícios apresentam neste dia, os estímulos deverão ser igualmente curtos, ainda que menos que no dia anterior, solicitando o metabolismo anaeróbio aláctico, podendo entrar pela duração dos estímulos nas franjas abrangidas pelo metabolismo aeróbio láctico, mas sem que haja prolongamento dos desempenhos à custa desta via metabólica. Importa que a acidose metabólica não se instale, trata-se portanto de uma estimulação que podendo socorrer-se do metabolismo láctico, não deixa de ser um láctico residual, quando entra nesse limiar é o momento de parar. Deverá ser o mais fraccionado de todos os treinos que compõem o Morfociclo. Densidade: 1/4.

Quinta-feira: nesta sessão de treino os estímulos em termos metabólicos são muito semelhantes aos que se verificam em competição, devido aos mais largos tempos de exercitação o organismo socorre em função das circunstâncias às diferentes vias aeróbias implicadas na manifestação de um jogar, devendo no entanto não se ignorar o que foi dito anteriormente acerca da análise qualitativa dos desempenhos dos jogadores de futebol. Tendo em consideração o que foi referido anteriormente acerca da importância do repouso para a aquisição de um jogar e para o proporcionar de condições favoráveis para essa aquisição, sendo este treino o mais contínuo dos treinos deverá, contudo, ser o mais descontinuo possível, para que se observem momentos de estabilização das aprendizagens, de reflexão e momentos de repouso aproveitados também para afinar porcas e parafusos. Densidade: 3/1 – 4/ 1

Sexta-feira: sessão de treino que com o intuito de respeitar a alternância horizontal e o evitar do acentuar de fadiga à medida que a competição se aproxima, se caracteriza por estímulos de curta duração com elevada intensidade do ponto de vista locomotor, obrigando assim a um descanso significativo entre acções, ainda que a complexidade que lhes está associada seja menor, mas sempre sobredeterminada por um jogar. Trata-se de um treino bastante fraccionado, embora menos que o de quarta-feira. Do ponto de vista metabólico as (Inter)Acções requeridas nesta sessão deverão ser asseguradas pelas vias anaeróbias alácticas, motivo pelo qual conforme sugere o Professor Vítor Frade, “a densidade deste padrão de esforçar tem de ser menor”. Densidade: 1/8 – 1/9

Sábado: pela proximidade ao momento de competição este treino deverá ter como principais propósitos dar continuidade à necessidade de recuperar e predispor os jogadores para a competição (aspecto que mais abaixo será aflorado). Deste modo o tipo de solicitações visam activar sem cansar, devendo para isso assumir uma configuração em que as (Inter)Acções deverão caracterizar-se por reduzida duração, elevada velocidade de execução, estimulando deste modo as vias anaeróbias alácticas, devendo verificar-se uma muito reduzida densidade. Densidade 1/10. Procura-se dar uma configuração ao treino que permita criar nos jogadores a ilusão que treinaram, mas na verdade nada de significativo fizeram em termos de desgaste.

Foi sugerido que é pela fraccionação do treino que a alternância se consuma e se estabelece a adequada relação desempenho recuperação sem perda de Intensidade, no entanto, esta por si só não explica as diferenças que se devem verificar ao longo do Morfociclo, até porque como se observa há dias que são bastante próximos do ponto de vista da solicitação metabólica dominante. Assim, importa ainda ter em conta a configuração dos contextos de exercitação, o que leva à abordagem do Princípio Metodológico das Propensões e sua relação como o Princípio Metodológico da Alternância Horizontal em especificidade. O que foi referido atrás relativamente à configuração metabólica é, não obstante, um outro nível de expressão do Princípio Metodológico das Propensões, propensão para uma determinada solicitação metabólica cuja alternância respeita e contribui para a conveniente operacionalização do Princípio Metodológico da Alternância Horizontal, que por ser uma solicitação metabólica implicada na vivenciação de um jogar, se faz em especificidade, para alcançar a Especificidade.

O Princípio Metodológico das Propensões permite conferir uma configuração aos contextos de exercitação que possibilita aos jogadores uma estimulação padronizada relativa a um jogar (Morfociclo Padrão), que respeita a Adaptabilidade (a todos os níveis) desejada, isto é, a que está subjacente a um jogar e não a que torna contraproducente a concretização desse mesmo jogar. O Princípio Metodológico das Propensões tem como propósito criar contextos de vivenciação ricos, que possibilitem o emergir com elevada densidade as diferentes dimensões (concepção de jogo e suas diferentes escalas, Intensidade, padrão de contracção muscular, padrão metabólico…), tendo estas as configurações acontecimentais que vão mais de encontro às necessidades momentâneas da equipa e assim determinadas / hierarquizadas pelo treinador. O qual tendo como preocupação a InCorporAcção de uma forma de jogar criará configurações, ou contextos de exercitação que façam emergir determinados desempenhos, determinadas InterAcções e determinadas dinâmicas de DesempenhoRecuperação. A criação desses contextos aquisitivos e intencionalizados que obedece a uma lógica aquisitiva (Morfociclo Padrão – Matriz Processual que respeita os Princípios Metodológicos), que está sobredeterminada por uma determinada concepção de jogo (Matriz Conceptual – Intenção Prévia). Aqui entronca o conceito de caos determinístico, visto que é a Intenção Prévia e a configuração conforme dos contextos de treino que sobrederteminam o processo sem que este perca a sua configuração ou forma Macro (daí Morfociclo), nem a sua essência não linear, aberta e dinâmica. Porque o Processo tem estas particularidades, e porque tem implicadas entidades altamente complexas desenvolve-se na fronteira do caos. O treino de Futebol é uma problemática que se centra na mais complexa realidade conhecida, o Corpo Humano. Um Corpo extremamente complexo e por isso mesmo extremamente sensível às condições iniciais, facto exponenciado por se tratar de uma problemática em que o Corpo além de buscar o rendimento o faz em InterAcção (num casos cooperante e noutros numa dinâmica de confronto) com outros Corpos, sem ficar imune a tudo o que envolve as circunstâncias em que procura manifestar a sua excelência. A problemática altamente complexa do treino de futebol preocupando-se com o rendimento e a sua maximização, não poderá ignorar os condicionalismos inculcados pela dimensão antropológica do ser que joga, e para tal terá necessariamente que respeitar, ainda que o desafiando, o Ser que joga. O Corpo necessita para evoluir, de alternar estados de superação com estados de reestruturação, daí que no processo de treino se deva ter especiais preocupações com a fadiga e com a necessidade de recuperar. A fenomenologia do treinar, enquanto realidade dinâmica caracteriza-se pela causalidade não linear, tal como a culinária, e também como nesta actividade também o problema das dosagens é determinante. É um fenómeno de MetaModelização em que o acto de Modelação, um misto de Arte e Ciência se vai fazendo e dando contornos ao Modelo, fazendo-o progredir e por vezes regredir. A fenomenótécnica do treinar exige muito saber e rigor cientifico, mas também, por não ser linear muita sensibilidade e intuição. É por este motivo que a operacionalização conveniente do processo de treino se faz não somente pela conveniente operacionalização dos contornos formais dos Princípios Metodológicos, mas também pelo modo como eles são geridos e articulados no confronto e interacção permanente com a realidade que envolve o processo. Ou seja, a dimensão ou plano científico do processo tem de contemplar o Sentido da Divina Proporção, que ao nos remeter para o plano da arte, para o plano menos cientificável da gestão do processo justifica a denominação de MetaPrincípio.

A ênfase deste texto leva a que se reforce a necessidade de neste misto de Ciência e Arte, se respeitarem as necessidades metabólicas do organismo que joga e a possibilidade de exercitação conforme de uma actividade, que ao ser levada a efeito em Especificidade, fazendo-o com um Corpo fresquinho o torna mais propenso ao entranhar dessa Especificidade. A vivenciação de um jogar em tais condições, permite ainda a maximização do organismo no desempenho de um jogar, através de um processo (Treino) que na realidade se manifesta como uma espécie de Resiliência Metabólica ou Orgânica continuada, que no entanto, requer a devida alternância, para que se assegure a não massificação dos mesmos sistemas ao longo do Morfociclo sem perda da Especificidade Biológica implicada num jogar e para que a adaptabilidade individual subjacente a esses jogar se consume, como já salientei.


Como se pode ler no excerto de cima, há de facto no organismo uma espécie de Resiliência Metabólica ou Orgânica, decorrente dos estímulos de treino. Poderá ser mais uma aplicação do conceito originário da Física dos Materiais e que a Psicologia adoptou, podendo ser considerado como a capacidade de recuperar de eventos traumáticos. Podendo assumir diferentes definições, pode considerar-se como a capacidade revelada pelos sujeitos, de se restabelecerem após situações adversas, superando o seu estado inicial, sem que tal implique a perda de um funcionamento normativo. Daí que me pareça um conceito perfeitamente aplicável ao fenómeno descrito no excerto anterior e no que se segue.


Este excerto salienta as alterações (aumento dos gradientes musculares de glicogénio, fosfocreatina, albumina nitrogenada e ATP) pós estimulação induzidas no organismo se devidamente salvaguardado o repouso. O incremento verificado na sequência da estimulação leva-me a reflectir sobre aspectos muito pertinentes. Desde logo, faz pensar sobre a importância e pertinência da pré activação dos jogadores, vulgo aquecimento, tanto em treino como em competição. Como parece ser evidente a estimulação prévia dos jogadores, levada a efeito em Especificidade (já foi salientado antes que a Especificidade do estímulo é determinante), sem indução de fadiga predispõem o organismo para uma melhor, mais capaz e mais eficaz funcionalidade quando posteriormente o jogador tiver que dar resposta às exigências circunstanciais em treino ou competição. Este aspecto reforça ainda a importância do treino que antecede o jogo ter como principais propósitos os referidos anteriormente e assumir a configuração sugerida.

Motivo pelo qual a pré activação deva ter uma configuração próxima das referida acima para a sessão de treino que antecede o jogo (Sábado), ainda que como é obvio com duração mais reduzida.

Com base numa perspectiva holística do organismo humano, este ponto do texto lava-me a pensar no conceito, potencial de acção motriz, que se refere ao momento em que se observa no cérebro, um aumento significativo ao nível da estimulação neuronal, o qual precede a sensação de decidir e a execução do movimento propriamente dito. O Professor Paulo Cunha e Silva refere relativamente a este conceito o seguinte:

“Como vemos, a percepção é já, de certa forma, acção, porque o corpo se encontra comprometido com o mundo quando percepciona: como que o antecipa (…) antes de fazermos já estamos a fazer. No momento em que se percebe, já se começa a agir, antes de se agir de facto (…) E portanto, o normal é que primeiro exista a vontade da pessoa se mexer e depois a pessoa se mexa (…) Há dados estranhíssimos que revelam que o segundo neurónio se pode estimular antes do primeiro. Portanto como se a acção fosse anterior ao pensamento da acção e à vontade da acção (…) uma espécie de antecipação da acção por parte dos músculos”. Um entendimento que como salienta, inverte todos os paradigmas da Neurofisiologia e que implica uma nova noção de cognição, percepção e de acção, revertendo deste modo, a linearidade convencional e o princípio de causalidade entre percepção e acção que requisita uma mudança de paradigma proclamada por Berthoz & Petit. Uma mudança que conforme salientam resulta da urgência de reinventar uma nova “fenomenologia e fisiologia da acção”. Curiosamente esta nova “fenomenologia e fisiologia da acção” tem nos possibilitado dados recentes muito interessantes. Hoje sabe-se que o ATP além da função primeiramente conhecida, enquanto molécula fundamental para a contractilidade muscular, desempenha funções de informador do Corpo, assumindo-se como um agente determinante na proprioceptividade, e por que não na antecipação dos estados do Corpo. Uma antecipação que poderá ser o motivo pelo qual se observa a nível muscular incrementos dos elementos metabólicos (ATP incluído) implicados na acção humana. Essa antecipação, digo eu, que deduzo poder ser descrita no excerto anterior, pode revelar-se como uma pré activação de mais larga escala (temporal), que difere da que se observa em fracções de segundo quando se despoleta aquando do potencial de acção motriz. São portanto para mim fenómenos possivelmente análogos ainda que com escalas temporais distintas.

Pode concluir-se que o nosso Corpo revela desse modo uma capacidade para antecipar o mundo que percepciona, como sugere o Professor Paulo Cunha e Silva. No caso parece-me que o Corpo revela a capacidade de antecipar o mundo que advinha, reforçando assim a ideia que também para o Corpo o futuro se assume como elemento causal. Nos excertos que se encontram em cima, assim como os que se seguem, procuram descrever o fenómeno da autorenovação, e aquilo que convencionalmente é designado por efeito retardado das cargas. Face à minha interpretação, e cortando com a terminologia conotada com a norma do treinar, sugiro que o que se verifica de facto pode ser designado de Efeito Antecipado dos Desempenhos. Uma antecipação que resulta da habituação a uma Especificidade levada a efeito por um processo que tendo por base a potencialidade Inteligente do Corpo assume o futuro como uma emergência e como elemento causal do processo. É por tudo isto que a Periodização Táctica se revela transgressora, uma vez que desde da década de 1970, ainda que não nos moldes actuais (a nível de pormenor), coloca o enfoque na operacionalização desta fenomenologia inerente à Acção Humana (InterAcção no caso do Futebol), e na necessidade de entender os órgãos efectores do movimento e o que os sistemas que os sustentam como estruturas Inteligentes e plásticas que carecem de ser intencionalizadas tendo por base um referencial Colectivo.


Este excerto além de ir de encontro ao anterior, reforça a importância de muito do que já foi referido, nomeadamente, a conveniente operacionalização do Morfociclo, o que passa pela correcta contemplação e articulação dos Princípios Metodológicos, para que não se observe a massificação das mesmas estruturas e sistemas metabólicos implicados e para que essa vivenciação permita que a nível individual se verifiquem alterações e uma adaptabilidade a nível individual que possibilita a concretização desse jogar, através do devido fraccionamento e doseamento do treino de modo a que o repouso se verifique e consequentemente os necessários fenómenos de biosintese. Só deste modo se cumpre devidamente o tal fenómeno de Resiliência Orgânica designado de Ciclo de Auto-Renovação. Um ciclo que pela natureza acíclica (ainda que referenciada a um padrão), devido à constante emergência de novos estados de ordem e à sua natureza complexa e não linear, é na verdade uma Espiral de AutoRenovação, uma Espiral de AutoEcoEngendração.


Trocando trabalho e carga respectivamente por treino e desempenho ou estímulo faz igualmente sentido o que se refere nesta parte do texto. Por um lado adverte para a necessidade de explorar a tal Resiliência Metabólica ou Orgânica de forma continuada, claro está salvaguardando o repouso. Reforçando também por isso a necessidade do Morfociclo se estabelecer como a unidade basilar. É o núcleo duro do Processo de Treino, a Matriz Metodológico que sobredetermina, se suportada numa intencionalidade prévia, o processo e que como tal se revela pela repetitividade temporal (em termos de lógica, ainda que com variações a nível micro na forma) como a invariância fundamental, capaz de possibilitar uma progressão paradoxalmente apoiada na estabilização e na regularidade de desempenhos. Sendo também esta que possibilita o emergir, pela continuidade do fazer, de uma determinada Adaptabilidade que se perpetua e se vai aprimorando, como se pode ler de seguida.


No fundo encontra-se descrita acima, ainda que não com os conceitos mais ajustados, a essência do treino, um processo de ensinoaprendizagem que visa induzir no organismo uma determinada Adaptabilidade, tendo como meio a aplicação intencional e intencionalizante de determinados estímulos que vão actuar sobre a plasticidade de quem joga, modelando-a. No entanto, conforme se tona evidente no excerto de cima isso só é possível, se no processo de treino for devidamente contemplado o repouso, que deste modo se assume, conjuntamente com a Especificidade do estímulo, como o responsável pelo direccionamento da Adaptabilidade. No caso uma Adaptabilidade que é colectiva por respeitar no modo como é levada a efeito a essência da modalidade, que é Especifica porque na sua aquisição se pretende dar vida a um determinado jogar, uma Organização Colectiva Intencionalizada, sem que com isto deixe de respeitar a Individualidade ou Singularidade do ser que joga. Uma vez que induz em cada jogador uma Adaptabilidade que respeitando a essência da modalidade e a matriz de um jogar, encontra na plasticidade de cada individuo uma forma única de Adaptabilidade que respeita e aproveita as singularidades de cada organismo. Por isso se diz que a Periodização Táctica, não se preocupando com a individualização do treino é a mais Individualizante de todas as metodologias.


O ciclo de autorenovação (Espiral de AutoRenovação / AutoHeteroEngendração) encontra-se descrito e esquematizado em cima. Uma explicação que substituindo os conceitos sustenta muito do que foi referido até aqui. A fase de exaltação é descrita como uma espécie de “período fértil” ou “janela de oportunidade”, que contudo tem de ser aproveitada antes sem que se instale fadiga, dando ainda mais sustentabilidade à ideia já defendida que treinar cansado não é rentável em termos aquisitivo e tem associadas alterações biomecânicas e metabólicas indesejáveis.


Apesar de esquematizar o que sucede, ou se deseja que suceda no processo de treino a verdade é bem menos linear, motivo pelo qual deverá ser interpretado com relativas salvaguardas, pois conforme referi trata-se de uma Progressão complexa.



Precisamente a Lei de Roux torna evidente a complexidade a que me referia. Adverte para o complexo problema do ajustamento e dos timings de estimulação, ainda que socorrendo-se de conceitos diferentes. A calibragem dos estímulos (ajustamento, doseamento e timings) são tarefas fundamentais na actividade de um treinador, e que devendo nortear-se pelos Princípios Metodológicos requisitam igualmente a aplicação do MetaPrincípio que é a Divina Proporção. A natureza altamente sensível do fenómeno e a necessidade gestão dinâmica de todo este processo de causalidade não linear, torna a ArteCiência do treino próxima da ArteCiência da culinária. Tal como na cozinha um dos grandes problemas que se coloca no treino de futebol é o doseamento e a necessidade de o ajustar em função da interacção dinâmica de tudo o que envolve o processo. Por esse motivo para treinar havendo referenciais gerais que se devem assumir como invariantes (Matriz Metodológica – Princípios Metodológicos), em cada processo há necessidade de recriar a receita e de cozinheiros para o fazer. No reino da não linearidade ao dobro de elementos em interacção não correspondem necessariamente o dobro dos procedimentos a serem levados a efeito, pois dele emergem variáveis que importa reconhecer para dosear convenientemente, na Divina Proporção.



Este esquema retrata, de uma forma geral, o que se verifica quando os períodos de repouso não são respeitados. Observa-se que a constante solicitação das mesmas vias metabólicas, ignorando o devido repouso tem como consequência uma diminuição da capacidade de metabólica para sustentar os desempenhos, o que se reflecte consequentemente na diminuição significativa dos desempenhos. Este parece ser o perfil “regressor” de progressão que se observa na generalidade dos jogadores e equipas, consequência da ênfase colocada na quantidade de treino em detrimento da qualidade, o que leva treinar muito e sem se reconhecer a importância do repouso e da reestruturação orgânica, que conforme foi suficiente referido é determinante para o emergir de novos patamares de desempenhos.

O perpetuar desta sucessiva estimulação sob estado de fadiga acumulado consideráveis motiva estados de sobretreino, e levam-me também a especular sobre a possibilidade de tal justificar o aspecto aparentemente envelhecido dos jogadores de futebol quando terminam as suas carreiras. Parece evidente que a generalidade dos jogadores de futebol, assim como outros desportistas, apresentam um aparente envelhecimento precoce. Sabe-se que os radicais livres estão associados ao envelhecimento e que estes se produzem a nível celular, de modo especialmente intenso quando organismo é estimulado para além dos índices normais. Assim, pode deduzir-se que o não cumprimento dos períodos de repouso em treino e a impossibilidade de descansar e de recuperar significativamente entre treinos e entre treinos e competições, hipotecam a possibilidade destes metabolistos serem neutralizados tornando propensa a degeneração celular. Penso que a lógica dominante no treino de futebol, norteada pelo embuste do muito trabalho, não permite a devida regeneração e ressíntese metabólica e orgânica, contribuindo deste modo para o aspecto envelhecido dos futebolistas. Se assim é por fora imagine-se por dentro?!

Termino este texto com o aspecto que mais importa reter relativamente ao que foi referido, ou seja, é fundamental reconhecer a importância de perceber o Ser que joga. E desde logo, reconhecer aquele que é talvez o aspecto mais significativo da Humanidade, a variabilidade, e por arrasto o que poderá estar na origem desta, a Plasticidade. É por via desta permeabilidade à variabilidade dentro das franjas fluidas de um padrão que se torna possível através da estimulação (treino por exemplo) modelar um Corpo. Elege-se por isso a Plasticidade como uma problemática central no treino, o qual enquanto processo de EnsinoAprendizagem visa induzir, InCorporar alterações duradouras nos organismos. Como? Agindo sobre as suas plasticidades. Mas que tipo de plasticidade?! Depende da forma como concebemos o estímulo. Se for carga, a adaptabilidade terá o viés para a exaltação da dita dimensão física, não apelando à inteligência e por isso mesmo fazendo sentido a terminologia (carga) associada a animais de trabalho, ou ainda a burros (analogia: no caso do futebol, um futebol de coices praticado por atletas, com um critério de realização semelhante ao dos burros).

Mas poderá ser outro tipo de plasticidade?! Pode aspirar-se a uma PlastEspecifidade se desta resultar uma Adaptabilidade induzida pela vivenciação intencionalizada de determinados referenciais colectivos organizativos, que na sua manifestação vão permitir o emergir de uma identidade colectiva sem hipotecar a identidade de cada um. Mas será isto por si só suficiente?! A dimensão relativa à concepção de jogo, ou seja, a intenção prévia, a esfera dos Princípios de Jogo sendo relevante não é suficiente para que a intencionalidade se expresse como Especificidade. Para que a modelação do jogar desejado se processe importa que o processo que leva à InCorporação seja operacionalizado tendo em consideração os Princípios Metodológicos da Periodização Táctica (Princípio da Progressão Complexa, Princípio da Alternância Horizontal em especificidade, Princípio das Propensões) os quais para um devido entendimento e manuseamento requisitam do reconhecimento da não linearidade que envolve tão complexo processo (feito de progressos e retrocessos) e ter consciência que o modelo é um impossível necessário. O modelo como refere o Professor Vítor Frade é “qualquer coisa que não existe, mas que todavia se pretende encontrar”, devendo ser alimentado e realimentado com recurso ao Princípio da Divina Proporção (MetaPrincípio). Se assim for a plasticidade que daí emergirá será, de facto, uma PlastEspecifidade.
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Grande abraço
Luis Esteves

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CONVERSAS SOBRE FUTEBOL - JORGE MACIEL - 3ª PARTE

3ª e última parte da entrevista com o professor Jorge Maciel.

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36. Luis Esteves: Como o professor vê a questão da comunicação no dias da semana, faz sentido comunicarmos com os atletas de forma diferente a cada dia, por exemplo, terça-feira intervenções mais relacionadas a correções individuais, gestuais, quarta-feira ( em exercícios de maior choque como 3x3 , 4x4) intervenções mais agressivas etc..

Jorge Maciel: Isso vai de encontro a uma das questões anteriores. E eu respondo que a forma de comunicar também faz parte da arte. No entanto, compreendo a pergunta, pois poderá haver alguns aspectos que devo ter em consideração, mas muito pouco ao nível da forma e muito mais ao nível do conteúdo. Isto é, em função das prioridades que estabeleço para a sessão de treino a minha intervenção deverá, lá está, ao nível do conteúdo incidir dominantemente nesses aspectos sem que eu perca a sensibilidade para intervir em função do que está acontecer e como tal se assim se justificar intervir em função de aspectos que à partida não havia ponderado, mas que aconteceram e mereceram essa atenção e intervenção da minha parte. Como o faço, isso não acho muito relevante, sobretudo, não acho relevante que a forma de comunicar seja estabelecida á partida. Isso leva a uma teatralização e snobismo que são bem visíveis no modo de intervenção de alguns treinadores, torna a coisa pouco espontânea, muito forçada e para mim a intervenção no treino tem de ser algo natural, até porque eu nunca sei o que o processo no aqui e agora vai requerer de mim. Acho muita piada por vezes quando observo alguns treinos ver o modo como alguns treinadores teatralizam os seus gestos, as suas expressões, o modo como comunicam e as expressões verbais que usam. Muitas vezes é notória a necessidade de agradar, de treinar para a bancada. Há, quanto a mim uma confusão, torna-se o essencial acessório e vice-versa, pois mais do que passar a mensagem para os jogadores, o que de facto passa a ser relevante é passar uma imagem e uma mensagem aos adeptos e directores. E também acho curioso porque empiricamente noto que isso se reflecte no modo como as equipas se revelam em jogo, no caso dos treinadores espontâneos na intervenção há tendência para uma manifestação mais genuína, natural e espontânea dos desempenhos, é tudo muito menos forçado e postiço.

Quanto á variação da comunicação nos diferentes dias que compõem o Morfociclo, acho fundamental que o treinador tenha também ele um padrão na sua intervenção e conduta perante os jogadores. A identidade do treinador deverá também espelhar estabilidade no modo de intervir, ainda que aceite que possa e inclusive deva, ter nuances na forma de intervir nas diferentes unidades de treino e inclusive dentro de uma mesma unidade de treino se assim se justificar, pois sendo o contágio emocional uma parte relevante do processo o treinador não deverá ter uma postura neutra, pelo contrário deverá com a sua emotividade e sentimentalidade funcionar como um catalisador do que deseja.

Por isso, embora possa reconhecer que da configuração dos diferentes dias emergem diferentes interacções entre os jogadores, e consequentemente emergem deles também necessidades de intervenção diferentes ao nível da forma em termos de pormenor, o que de facto é relevante é saber gerir isso com sensibilidade de modo a que a forma de intervir seja condizente com aquilo que é o treinador, a realidade em que se encontra e fundamentalmente com as pretensões desejadas. Há aqui também, face á configuração de cada dia, uma espécie de propensão ao nível da tipologia da intervenção ou da forma de comunicar. Como é óbvio, se o exercício é mais individual não vai haver uma intervenção colectiva, o que não quer dizer que não haja advertências para as repercussões que aquilo pode ter a nível sectorial ou colectivo. A configuração padrão de cada dia potenciará, ou terá maior probabilidade para desencadear mais determinado tipo de intervenção, e o contrário também deverá suceder. Ou seja, a forma de comunicar e intervir deverá catalisar e criar uma determinada propensão para que a dinâmica desejada se verifique. Conforme é referido na pergunta a unidade de treino de quarta-feira contempla um conjunto de situações em que de facto o estorvo, o confronto, as disputas… estão mais implicadas. Mas pela própria configuração dos exercícios isso já vai, à partida acontecer e se eu conferir ao processo um carácter altamente competitivo ainda mais provavél é que assim seja. Por isso, se acontecer eu tenho é que não incendiar, se não acontecer aí sim incendeio, e para isso posso de facto ter uma postura, tom de voz, vocabulário mais agressivo ou qualquer outra coisa que eu ache que vai permitir fazer com que o que não está a acontecer, aconteça de facto. Há bocado dizia que não há receitas e aqui isso faz também todo o sentido. Ao reconhecermos que a realidade em questão é imprevisível, a nível micro, devemos reconhecer que esta é também uma dimensão que deve estar presente na sua treinabilidade, na gestão e na forma de comunicar em tal processo. Penso que isso, será inclusivamente potenciador da possibilidade de emergência da criatividade. Considero que quanto mais intuitiva a intervenção do treinador, mais ele estará receptivo ao que o processo lhe dá e mais rico e dinâmico o processo se tornará. Importa notar, que quando digo intuitiva tenho em consideração que essa intuição é balizada por uma Especificidade, e que é algo que pode ser aculturado tendo subjacente um conjunto de pilares coerentes dos quais emerge um padrão de intervenção e de comunicação igualmente coerente e congruente com a intencionalidade implicada no processo. Se estereotiparmos um conjunto de coisas previamente, tanto ao nível do que queremos em termos de aquisição como inclusive ao nível das estratégias de intervenção e comunicação, sobretudo se estas forem da esfera do plano mais detalhado - mais micro - não vamos estar receptivos a coisas novas que podem emergir, recusámo-las e aí a tendência para cristalizar é enorme. Aspecto exacerbado pelo facto de nos querermos impor, ou de impor a nossa ideia, aos jogadores, não partirmos dos jogadores na modelação do processo, adoptando uma postura autista partindo exclusivamente da nossa perspectiva, porque queremos o jogo e o processo que idealizamos sem ruídos nem estorvos, mesmo que esses aspectos, por vezes façam soar muito melhor a nossa música e a vão alimentando continuamente. O papel do treinador passa também por aí, identificar e perceber se as emergências de pormenor do processo são compatíveis e catalisadoras ou não do que deseja. Mas identificar e perceber também que por si só não chega, é fundamental intervir e comunicar em conformidade, como e com que meios?! Não sei, depende, e depende de muitas coisas. Isto é que se constitui de facto como a Fenomenotécnica do treinar.

37. Luis Esteves: Como o professor explica as intenções em ato e as intenções prévias?

Jorge Maciel: As intenções prévias têm a ver com o critério, com o que deve sobredertimar a interacção, portanto tem a ver precisamente com o plano intencional, tem portanto a ver com a representatividade daquilo que eu faço, é a dimensão simbólica que me leva a agir de determinado modo. As intenções em acto têm a ver com o plano da concretização, é o que se manifesta no fazer. Para tornar mais perceptível para a generalidade das pessoas, relembro a história do carro novo do meu amigo e vou acrescentar um exemplo que poderá tornar mais acessível a apreensão destes dois conceitos. Eu quando como, faço-o com a boca fechada e uso talheres para me alimentar, isto é o que eu manifesto quando estou numa refeição, é a intenção em acto. No entanto, eu só o faço porque a configuração axiológica em que cresci e a cultura em que me desenvolvi assim o sugere, e assim valora o acto de estar à mesa numa refeição. Mas eu quando nasci não o fazia, mamava, pegava nas coisas à mão, eram na altura as minhas intenções em acto, coisas que se fizesse agora publicamente motivavam que as pessoas olhassem para mim com estranheza e rejeição, porque a representatividade normalizada do acto de comer não tem a ver com esse tipo de atitudes, a intenção prévia generalizada não é essa. O que se verificou é que fruto de um processo de aculturação eu passei a comer de determinada forma, condizente com o contexto que me envolvia e envolve. E isso só foi possível porque me levaram a fazê-lo, me foram dando referenciais sobre como o fazer e porque eu observava os outros fazer. Curiosamente, no início o conflito é grande, sabemos que não devemos comer de determinada forma mas acabamos por o fazer, nessa altura experimentamos o período do estranhar, paulatinamente o conflito vai diminuindo e aquilo que quero fazer tem cada vez mais a ver com o que faço, até que depois o faço espontaneamente, como hábito. Aí já se entranhou, o mesmo é dizer, já se instalou a relação mente-hábito.

Isto para mim tem tudo a ver com treino, e muito precisamente com a questão colocada. Porquê?! Aquelas que eram inicialmente as minhas atitudes manifestas, intenções em acto, foram se alterando em conformidade com o quadro de valores que me envolvia. Eu fui contactando e indo modelá-lo em função dessa cultura, dessa intencionalidade colectiva partilhada, e que aqueles que me educaram tinham como intenção prévia para a minha educação. O treino visa precisamente fazer com que diferentes intenções prévias (as que cada jogador tem como suas), diferentes formas de viver e de sentir o jogo se tornem congruentes com uma única, que deve ser a do treinador (intenção prévia do treinador é a sua Ideia de Jogo). Ainda que a deste deva respeitar ou pelo menos ponderar aquele que é o património intencional, digamos assim, de cada jogador. O que se persegue no treino é tornar possível o emergir de uma intencionalidade comum, para que no fazer haja sintonia, complexificada pela necessidade de interacção, e da qual resulta a possibilidade de um número considerável de jogadores pensar em função da mesma coisa ao mesmo tempo. Tal estado de desempenho é possível quando se instala no organismo uma adaptabilidade que permite a manifestação concomitante da intenção prévia com a intenção em acto. Nesta espécie de fusão, aquilo que inicialmente era uma impostura passa a ser de facto uma postura, foi Incorporado. Isso é que é o desenvolvimento e no caso concretização de um saber fazer concomitantemente com um saber sobre esse saber fazer. O qual ao se manifestar, manifesta critério e sintonia colectiva, expressa-se sob a forma de ressonância empática partilhada e intencionalizada, que mais não é do que a manifestação sublime de um jogar de qualidade, sobretudo se esta fusão for manifestada com base em desempenhos de elevada qualidade e variabilidade de execução.

38. Luis Esteves: Como o professor gere a densidade de repetições na unidade de treino? Existe uma preocupação com isso na sua visão?

Jorge Maciel: Claro que isso deverá ser uma preocupação e vai de encontro à necessidade de recuperar e de respeitar os tempos de repouso de modo a que os jogadores possam continuadamente vivenciar o jogar, em treino e competição, sem índices de fadiga acentuada. Só deste modo os seus desempenhos poderão ser suportados predominantemente nos sistemas metabólicos que eu pretendo, nomeadamente com base no metabolismo anaeróbico aláctico, e consequentemente instalar pela incidência a esse nível, uma adaptabilidade condizente. Importa realçar que o termo repetições pode induzir algumas confusões que importa esclarecer. Desde logo pode levar as pessoas a pensarem na quantificação do dito volume de treino, e na Periodização Táctica isso não é relevante, porque o que nos interessa é um volume de intensidades, ou melhor dizendo um volume de Intencionalidades, portanto um volume de qualidade. Mas se mesmo assim, numa perspectiva mais quantificadora do treino quisermos determinar a densidade de repetições, pode fazer-se o seguinte raciocínio. O nosso treino não tem mais que 90 minutos, por isso em função do padrão da unidade de treino em questão estabelece-se uma determinada densidade subjacente àquele padrão de esforçar-recuperar que preencha esses 90 minutos, tendo em conta a maior ou menor continuidade ou descontinuidade do treino, o grau de assimilação do que se está a abordar e claro o grau de familiarização e de habituação da equipa ao jogar e ao processo. Temos de ter em consideração que a densidade não é sempre a mesma, porque se digo que adquirir passa por criar condições para adquirir então tudo isso pesa na gestão que faço da relação entre os desempenhos e a recuperação dos mesmos. Uma gestão que volto a frisar não é linear, e daí que respeite também a necessidade de Progressão Complexa.

Outro aspecto relativo à noção de repetição que importa esclarecer prende-se com o facto de que o que se repete, são configurações ou propensões para que surjam determinadas interacções que impliquem a manifestação dos critérios que queremos que suportem o nosso jogar, e não um conjunto de acções previamente determinados e fechados passiveis de mensuração. Trata-se portanto de uma repetição não fechada, mecanismos não mecânicos, que contempla variabilidade e imprevisibilidade na concretização e no que a motiva em termos de pormenor, apesar de paradoxalmente essa variabilidade estar suportada e balizada por uma regularidade que lhe dá sentido, o nosso sentido. Esta noção de repetição do que acontece é probabilística, e deverá tender para o que pretendemos, isto é para interacções que tornem mais provável a ocorrência de determinadas acções ou interacções. Não são portanto repetições no sentido convencional do termo e como tal não haverá, na concretização, duas acções ou interacções iguais, ainda que o critério das mesmas deva ser semelhante e estar sobredeterminado por aquilo que é a nossa intencionalidade colectiva.

39. Luis Esteves: O professor Frade diz que o treino é como uma Moeda, tem o lado da aquisição e o lado da recuperação. Como ter o feeling de estar em recuperação e estar em aquisição no treino?

Jorge Maciel: Não diz isso, diz algo mais profundo que isso. A metáfora da moeda vai além disso, o professor diz que são duas dimensões da mesma face da moeda, ou seja elas têm uma implicação recíproca e como tal têm de ser equacionadas e operacionalizadas conjuntamente, e portanto estabelecer desde logo esse dualismo “estar em recuperação e estar em aquisição” deixa de fazer sentido. Penso que a dificuldade das pessoas perceberem o que acabei de dizer resulta de um problema de categorização, diria sem categoria, porque é redutora. Passo a explicar, geralmente para as pessoas só há preto ou branco nunca cinzento. E isto resulta das pessoas colocarem as coisas em lugares estanques, o que as leva a pensar que ou se está em recuperação ou em aquisição, e na Periodização Táctica não é nada disso, porque se o problema é complexo eu tenho de o equacionar de forma complexa o que passa por necessariamente perceber a relação entre as coisas, e levá-las a efeito de forma conexa. E de facto tenho notado que o grande desafio da complexidade passa precisamente pelo que referi, por as pessoas categorizarem de forma diferente a realidade, percebendo que a interacção é possível e necessária entre realidades aparentemente, ou culturalmente assumidas como opostas. Um passo importante passa portanto por uma concepção mais flexível do modo como categorizamos as coisas, só assim faz sentido falar em inteireza inquebrantável. E isto vale para o modo como concebo o meu jogar mas também para o modo como concebo o processo de treino e o operacionalizo. A categorização deve ser entendida a quatro dimensões, porque a dimensão temporal assume muita relevância. Vamos a um exemplo muito concreto e fácil de perceber. Para mim a categorização tem a ver com isto; pede-se às pessoas que perante um conjunto de músicas façam duas playlists (no fundo duas categorias), uma com as músicas preferidas e outra com as que não gostam. Isto vai criar desde logo uma dificuldade que passa por onde meter músicas que eu até gosto mas não o suficiente para serem as minhas preferidas e onde colocar aquelas que não gostando até tolero e admiro (aquelas que nunca compraria, mas que se estiverem a passar na rádio eu ouço)?! Esse é o problema do branco e do preto sem existência de cinzento. Mas há outro problema e que tem a ver com a temporalidade, passados alguns anos relembram-nos da seriação que fizemos, e damos por nós a pensar, «como é possível, eu gostava daquela música pirosa, era a minha preferida» ou então, «como é que eu dizia que isto não prestava?!». Quero com isto salientar que o processo de categorização é altamente dinâmico, requisitando por isso de articulação na relação entre as diferentes categorias e uma percepção dinâmica do modo como essa relação se processa no tempo. Além disso devemos ter consciência que determinada coisa pode estar implicada em mais que uma categoria, e isso é muito relevante no modo como concebemos o jogo e o sistematizamos, porque passa por reconhecer que determinados princípios são relevantes num determinado momento, mas também o são noutros, ou que um subprincípio ou subsub pode alimentar mais que um princípio de determinado momento. Portanto é fundamental, para se entender a Periodização Táctica que se perceba a profundidade da conexão entre as coisas e não estabelecer compartimento rígidos entre o que constitui a realidade.

É partindo desse pressuposto que faz sentido dizer que o treino e recuperação não são duas faces da mesma moeda, mas antes como afirma o Professor Vítor Frade, que são duas dimensões da mesma face da moeda. Não se está em recuperação ou aquisição. Há um termo que quando utilizado pode parecer um preciosismo linguista, mas na verdade não é. Trata-se da utilização da palavra dominantemente. Quando falamos em realidades padronizáveis e só assim passiveis de serem quantificáveis, o uso desta palavra é fundamental. Muitas das vezes quando há referência à dinâmica implicada em cada dia do Morfociclo devemos ter esse cuidado, ou seja, a tendência é para que a contracção muscular tenha uma maior propensão para determinada configuração, o que não quer dizer que as outras dimensões que caracterizam a contracção muscular não estejam a acontecer em simultâneo. Estão mas de forma menos relevante, ou até residual, ou seja de modo não dominante relativamente ao padrão de contracção muscular mais implicado em determinado dia. E este mesmo pensamento se aplica à questão colocada, isto é, dominantemente estamos num treino de recuperação ou de aquisição, mas não exclusivamente num ou noutro, porque todos os dias são dias de recuperação e de aquisição. Não podemos absolutizar, embora tenhamos que saber que a predominância nuns dias recai mais sobre a aquisição e noutros na recuperação. Em suma, inclusive nos treinos de aquisição tenho preocupação em recuperar, por isso a descontinuidade é uma determinada em função do padrão de desempenho dominante e por isso estou sempre a “afinar porcas e parafusos” como diz o professor Frade. Do mesmo modo, inclusive nos treinos de recuperação, ou seja, em que a enfâse tem tal propósito eu não deixo de actuar no sentido de induzir consistência ao que tem vindo a ser adquirido, porque inclusive defende-se que para recuperar devo estimular o que me levou a fatigar, como tal estou a incidir sobre o meu jogar, ainda que o faça em níveis de complexidade reduzidos, e quanto mais não seja, estou a garantir que pelo que faço estou a criar condições para adquirir.

Depois relativamente ao modo de gerir isso e de o operacionalizar, é de facto muitas vezes um feeling. A dosagem do processo e o estabelecimento das prioridades emergentes a cada instante têm de ser equacionadas com muita intuição. Aí entra a Arte dos treinadores, é um dos modos de expressão ou não, do Sentido da Divina Proporção. Eu devo reconhecer que há indicadores indirectos, detectáveis a olhómetro, que me permitem perceber os estados de fadiga da equipa ou dos jogadores, nomeadamente o maior número de desacertos, maior desconcentração, lentidão a decidir e descoordenação a executar, falta de mobilidade dos jogadores sem bola, jogadores que se escondem, retardamento no timing de execução, reactividade no que fazem, a impossibilidade de antecipar e não menos relevante os próprios comentários e as expressões que manifestam indicam muito sobre o modo como se sentem. Tudo isto, e não só, são aspectos que permitem detectar o estado de fadiga ou de frescura apresentado pela equipa, ou nalguns casos por alguns jogadores, e isso também é muito importante, perceber que nem todos reagem de igual modo à fadiga por exemplo devido às diferenças de idades, pelo historial de treino, por possíveis paragens que possam ter tido recentemente… E quando detectamos que a equipa ou alguns jogadores se encontram num estado que não permite condições para adquirir, aí a prioridade passa a ser criar condições para adquirir, isto é, passa a ser recuperar. Claro, como dominância.

40. Luis Esteves: Alguns jogadores tem a habituação do treino analítico como guia na metodologia do treino, principalmente com treinos especificamente físicos com baixa relação com o jogo, como “convencer” estes jogadores que esta não é a melhor forma para ter seu melhor rendimento?

Jorge Maciel: Essa é uma questão muito pertinente, e do modo como eu lhe respondo perante um contexto habituado a metodologias convencionais pode ser determinante para o meu sucesso nessa realidade. Trata-se de uma questão muito sensível que requer da parte do treinador muita sensibilidade e muita convicção na sua forma de treinar, porque se vacila e não tem consistência no que faz a tendência é para seguir o instituído, ou não seguindo, fazer uma mistura e acaba nem por seguir coerentemente uma forma de treinar nem outra. Perante um possível cenário como o evidenciado na questão o treinador tem de perceber que os jogadores são pessoas, e como tal têm uma história que pela continuidade com que foi sendo marcada, foi incorporada e como tal exerce um peso enorme sobre aquilo que as pessoas são, pensam e fazem. O Professor Vítor Frade nestas situações usa de forma feliz a metáfora do café com leite. O objectivo é salientar que sendo a nossa pretensão colocar os jogadores a beberem leite (representa a Periodização Táctica), sem que a motivação deles vá nesse sentido, porque querem e estão habituados a café (metodologia convencional), a passagem do café definitivamente para o leite deve fazer-se de forma gradual. Isto é, sabendo que o leite tem pouca aceitação, fruto da habituação e da crença generalizada relativamente ao café, o treinador sente necessidade de atender a isso sem deixar de ter a pretensão de os habituar ao leite, mas ao mesmo tempo tendo a sensibilidade para que a passagem não se faça de forma conflituosa pela não habituação. Este é um aspecto muito importante, uma vez que tudo que implica alteração de hábitos cria em nós desconforto, desconfiança, estranheza e inicialmente até mau estar, por isso é que o treinador deve ponderar até que ponto faz sentido passar do café para o leite, sem que haja uma espécie de desmame. Se ele tem consciência disso, e se sabe que o estatuto que ostenta, porque ainda não ganhou nada significativo por exemplo, não lhe permite romper de forma inequívoca e passar directamente para o leite, é uma atitude reveladora de inteligência ir paulatinamente adicionando ao café um pouquinho de leite, e pouco a pouco cada vez mais leite, mas estando sempre atento á reacção que a mistura desperta nos jogadores. Tem de perceber como se processa a aceitação. Esta metáfora do café com leite, no fundo tenta de forma disfarçada retratar aquilo que se constitui como um processo de desmame, ou seja de desabituação. Tenho referido que que na aquisição de um jogar, o treinador deve partir dos jogadores para que estes assimilem as suas ideias, o mesmo é válido para nestas situações em que querem mudar, não a nível da concepção de jogo, mas a nível metodológico. Ou seja, tenho de perceber o que eles têm, para que assim possa perceber como os trazer para o que desejo em termos de operacionalização do processo. No entanto, importa realçar que esse desmame, essa passagem do café para o leite, deve fazer-se já tendo em consideração a lógica metodológica que pretendo implementar, ainda que por vezes com conteúdos marcadamente mais ligados com o café do que com o leite. Ou seja, a lógica metodológica deve obedecer aos pilares do leite, o modo como a levo a efeito, disfarçadamente, é que pode contemplar conteúdos mais analíticos. Conteúdos que devo saber misturar com o leite, mas lá está, sem misturar a lógica metodológica, e que devem ser irrelevantes ao nível da adaptabilidade que poderão induzir nos jogadores, para que não se constitua como estorvo àquilo que considero essencial. É uma gestão difícil de facto, mas necessária.

Passando a um exemplo hipotético, imagine-se que chegamos a um clube onde o culto do fisicismo está muito presente e até com alguns resultados. Nesse caso o que é que se pode fazer?! Desde logo estar sensível para perceber isso. Mas como operacionalizar o processo sem fugir do que desejamos, em termos de lógica, e sem conflituar com o que naquele contexto é cultural?! Podemos por exemplo durante a sessão de treino levar a efeito algumas coisas de que eles pensam sentir necessidade, mas com dosagens muito insignificantes. Por exemplo, faço uma situação jogada, e depois de recuperarem fazem umas corridinhas. Ou então por exemplo, num treino típico de quarta-feira, levo a efeito situações de jogo que cumpram com o que pretendo em termos de jogo, e no aquecimento, ou entre exercícios ou no final realizo algumas situações mais analíticas onde a dominância ao nível do aumento de tensão da contracção muscular esteja presente. Eu tenho que ser é inteligente e criativo para lhes dar o que eles ainda necessitam, e ao mesmo tempo criar pelo fazer uma habituação ao processo o mais condizente possível com a que desejo. É um desafio muito engraçado, porque nos obriga a engendrar formas de o fazer, mas ao mesmo tempo pode ser um processo que nos torna mais próximos dos jogadores, porque nos obriga a percebê-los. E além disso, muitas vezes para os percebermos comunicamos com eles e tomamos consciência do motivo pelo qual aquilo para eles faz sentido. E claro em função disso, tentamos desmontar tal necessidade, conversando com eles, dando-lhes a conhecer uma realidade que desconhecem e sempre que possível servindo-nos de exemplos que vão acontecendo e que lhes são próximos. Esse é um aspecto muito importante. Por exemplo, imagine-se que temos um jogador na equipa com habituação ao treino convencional, e que tem contacto regular com outros jogadores, nas selecções por exemplo, que já treinaram segundo a Periodização Táctica, poderá ser pertinente incitá-lo a falar com esses jogadores no sentido de desmontar a sua crença.

Em suma, penso que esta questão requer da parte dos treinadores muita sensibilidade, criatividade, e fundamentalmente muita competência e não menos importante, resultados. Os resultados são determinantes para a adesão. Por exemplo na última experiência que tivemos na Líbia, foi também muito relevante a este nível. A equipa estava habituada a uma metodologia de treino convencional e culturalmente, por influência de treinadores egípcios e brasileiros fundamentalmente, o treino dito físico está muito enraizado na generalidade das equipas e inclusive nos comentários dos adeptos. Quando lá chegamos só ouvíamos dizer que a equipa estava mal fisicamente, que tínhamos que “treinar o físico”, porque um dos problemas da equipa era determinados jogadores não conseguirem fazer um jogo completo, e um dos mais acérrimos defensores desta ideia era o nosso tradutor. E no fundo espelhava o que pensava a generalidade das pessoas. Mas nós não demos ouvidos ao que se ia dizendo e desde sempre treinamos como desejávamos, embora respeitássemos algumas coisinhas sempre que os jogadores solicitavam. Por exemplo, no final do treino havia um jogador ganês que não estava a jogar quando chegamos e que me pedia para dar umas corridinhas ou para fazer com ele algumas acções explosivas, e eu ficava com ele. Fazíamos coisas com pouca densidade e enquanto recuperava aproveitava para conversar com ele e explicar-lhe que se treinasse bem, não tinha necessidade de o fazer. Fazia-lhe perceber que onde ele tinha de correr é nos exercícios de treino e não no final e que se o fizesse, fazia-o de forma muito mais condizente com que o jogo requisita. Passado pouco tempo deixou de o fazer e reconhecia que estava melhor do que nunca. Portanto, apesar de termos sensibilidade para estes pormenores, e tentarmos a partir deles sensibilizá-los para a não necessidade dos mesmos, desde o início treinamos como pensávamos que devíamos. Tínhamos conversas entre nós, equipa técnica, onde comentávamos o quanto os jogadores estranhavam sair do treino sem estarem a morrer, e no dia seguinte estarem bem para voltar a treinar. Para o jogador sentir-se assim é estranho, e acredito que para muitos desconfortável, por norma o jogador tem de sair do treino morto, para sentir que treinou. Isto tem um peso incrível. Não raras vezes no início do treino falávamos com eles para tentar perceber como estava a ser a adesão a esta forma de trabalhar e como eles se sentiam. Era curioso reparar que inicialmente os jogadores diziam que estavam bem e gostavam, mas nós sentíamos que dizendo-o com sinceridade, evidenciavam muita estranheza e desconfiança. Felizmente podíamos usar um argumento válido, ou talvez o mais válido, é que o Baltemar Brito, ainda que como adjunto, já tinha ganho muitas coisas a treinar desse modo, e dizia-lhes precisamente isso. Isto pode parecer um pormenor, mas não é, a adesão é muito mais fácil quando se chega a um lugar com uma história de vitórias. Se quando nos contratam, os jogadores nos olham e dizem «com este eu vou ganhar», eu praticamente posso passar do café para o leite. Mas voltando à Líbia, depois de lá estarmos dois meses, estávamos já em primeiro lugar com vantagem considerável para o segundo, tendo uma densidade competitiva muito maior que as outras equipas, sem ter qualquer derrota, com os jogadores que não aguentavam um jogo completo a jogarem noventa minutos, e jogando bem… em mais uma conversa com os jogadores onde abordamos o como se sentiam, voltaram a referir que estavam muito bem, mas receavam que o facto de treinar desta forma e de treinarem pouco, segundo eles, lhes poderia ser prejudicial no futuro. Receavam não aguentar o mesmo nível ao longo da época. Estavam naquela situação em que se costuma dizer que «quando a esmola é grande o santo ou pobre desconfiam». Mas este episódio é, pelo menos para mim, muito relevante e identificador do quanto estas coisas pesam nos jogadores e no quanto é difícil desconstruir tais crenças, o que consequentemente requisita da nossa parte de grande sensibilidade.

41. Luis Esteves: O professor Frade diz que a Periodização Tática pode ser aplicada a “70%, 80% 90%”. É adaptável as situações contextuais, o que o professor acha disso?

Jorge Maciel: É preciso perceber bem o que se quer dizer com isso. Na questão anterior torna-se evidente que muitas vezes nos confrontamos com realidades que se afastam daquela que é a realidade ideal para desenvolver o processo do modo como entendemos ser mais ajustado. E essas questões, habituação dos jogadores, a história do clube associada a vitórias treinando de determinada forma, ou até a cultura de treino de um país, assume um peso enorme sobre o modo como se vai concretizar o processo e deverão ser aspectos que eu terei que ponderar com sensibilidade. Se não atender a esses condicionalismos contextuais poderei não estar a ser muito inteligente e inclusive poderei estar a dar tiros nos pés. Daí que eu possa ter necessidade de disfarçar o processo com algumas coisas, que poderão de uma forma superficial e perspectivadas de fora, parecer mais conotadas com o treino mais analítico. Que de facto talvez me afastem dos 100%, mas no entanto, para mim que estou por dentro do processo sei que se trata de uma opção deliberada para poder ganhar espaço entre, os jogadores, direcção, adeptos, e no caso de ser adjunto ganhar espaço relativamente ao treinador, para que depois sim, estando consolidado esse espaço eu possa estar nos 100%. Muitas vezes as pessoas esquecem-se que também esta conquista de espaço digamos assim, ou de aceitação relativamente a uma realidade transgressora, se constitui como um processo que como tal é levado a efeito num contexto que sobre ele exerce muita preponderância. À medida que a aceitação vai crescendo eu vou puxando a realidade para o que desejo, tal como sucede na aquisição de um jogar, isto é, parto com a minha ideia, mas parto da realidade para a concretizar e paulatinamente vou tentado-a aproximar àquilo que eu acho que deve ser a realidade. Mas há nesta estratégia metodológica alguns aspectos muito relevantes, daí que tenha advertido para o facto de ser necessário perceber a profundidade das palavras do Professor quando afirma que a Periodização Táctica pode ser operacionalizada a 70, 80… 100%. Desde logo importa ter em consideração que o que direcciona o processo é o que se faz dominantemente, por isso, o que se faz em termos de disfarce, isto é aquilo que aparentemente é mais convencional, deve ser o suficiente para parecer ilusório, mas simultaneamente suficientemente insignificante para que não se constitua como relevante. Ou seja, o grosso do processo deve ter o viés que queremos dar ao processo, pois é em função disso que a adaptabilidade se instala. Por outro lado, e não menos importante temos de reconhecer que independentemente do grau, para que seja de facto Periodização Táctica, não podemos esquecer que o processo deve respeitar uma determinada matriz metodológica, a da Periodização Táctica e que é composta por Princípios Metodológicos únicos. Depreende-se assim que a lógica processual deve estar a 100%, o modo como é operacionalizada é que pode ter maior ou menor necessidade de conteúdos à partida desnecessários, mas que o contexto requisita e justifica, ou ainda por insuficiência do treinador ao nível da concretização do processo. Claro que quanto mais próximo dos 100% for o modo de a operacionalizar melhor e também mais rapidamente se conseguem os intentos desejados, mas por vezes é preciso contornar muitas coisas com sensibilidade e com o cuidado de aquilo que é potencialmente “ruído”, e nos afasta dos 100%, não interfira negativamente no que se considera essencial, por isso é que o Modelo é tudo. Muitas vezes as pessoas vão ver treinos e dizem que afinal é tudo a mesma coisa, quando na verdade não é, mas dizem-no porque não ponderam o porquê das coisas, nem tão pouco o teor do que se fez e muito menos o que o envolve. Vêem fotos e fazem um filme descontextualizado, sem necessariamente contemplarem a temporalidade implicada naquele processo, por isso não perspectivam o que está antes e o que se perspectiva vir a estar depois para que o presente tenha aquele sentido.

O que importa perceber é que independentemente da percentagem é fundamental que a lógica, que a matriz metodológica seja cumprida a 100%, o modo como é levada a efeito é que poderá ser mais ou menos adequada, mas aí também depende da arte ou criatividade dos treinadores para criarem exercícios que visem os propósitos desejados respeitando as subdinâmicas implicadas em cada dia de treino. Para que se perceba, quando me refiro ao modo, quero salientar que podendo ser mais jogada ou não, com maior ou menor complexidade intrínseca, a matriz metodológica deverá estar sempre presente, senão não é Periodização Táctica. Costumo dizer, e espero não ser mal interpretado, que para aqueles que estão a 100% na Periodização Táctica ou próximos disso, a quarta-feira é dia dos sub e subsubprincípios em regime de dominância de contracção muscular em tensão, a quinta-feira é dia dos grandes princípios em regime de dominância de contracção muscular em resistência e a sexta-feira é dia dos sub e subsubprincípios em regime de dominância de contracção muscular em velocidade. Enquanto que para os que estão em percentuais mais abaixo esses dias são muito mais dias de tensão, de duração e de velocidade.

42. Luis Esteves: Como o professor entende na formação a hierarquia de valores, o que deve-se ter como preocupações no processo formativo dos clubes?

Jorge Maciel: Penso que a prioridade nos processos de formação deverá ser criar jogadores que possam servir à primeira equipa. O problema é que não raras vezes a prioridade passa por criar equipas, para ganhar competições durante os anos de formação. Eu penso que não será impossível conciliar ganhar com criar jogadores de qualidade, acho até mesmo que essa deve ser uma pretensão. Por isso quando me refiro a criar jogadores, é tentar fazê-lo em contextos colectivos de qualidade, o que requer uma concepção de jogo de qualidade, qualidade de treino e como tal bons treinadores. Há um pormenor muito interessante que quanto a mim reflecte o modo como os clubes pensam, ou melhor não pensam a formação e a relação que esta deve ter com a realidade sénior. O pormenor passa por a generalidade dos clubes terem os chamados departamentos de formação, sem estarem englobados no dito departamento de futebol, é um pormenor, mas muito revelador da separação existente entre estas duas realidades que deviam ter um fio condutor único, e verificável a nível da concepção de jogo e também a nível da metodologia de treino. Mas infelizmente são muito poucos os casos em que tal se verifica, mesmo que alguns dos poucos sejam casos de sucesso. A generalidade dos clubes prefere investir continuadamente em jogadores que não sentem, nem estão aculturados á realidade dos clubes, em vez de criar condições e proporcionarem aos jovens da formação condições para integrarem com sucesso a equipa principal. Parece que a formação existe apenas para não parecer mal não ter, e para justificar a utilidade e vertente social dos clubes, muitas vezes mascarada pelo desejo de usufruir de verbas extra a investir, de forma desviada, na equipa sénior. Penso que é um contra senso pensar-se que se assim for os benefícios, mesmo os financeiros são maiores. No imediato talvez, e talvez alimente a ânsia de dinheiro de muita mais gente, mas a médio ou longo prazo não penso que seja assim, porque o investimento elevado na formação, acima de tudo depende de qualidade de ideias e da qualidade das pessoas para o levar as efeito, e o retorno poderá ser muito grande. Porque o clube se tornará auto sustentável e poderá inclusive rentabilizar essa concepção de formação com a venda e constante valorização de jogadores provenientes de tais processos.

Penso que paradoxalmente a enfâse nos processos de formação deve centrar-se nos jogadores, e mais concretamente se possível em conformidade com o tipo de jogadores que queremos formar, o que implica que os clubes definam o que pretendem em termos de jogadores para as diferentes posições. É importante definir perfis padronizados de jogador para as várias posições, e fazê-lo tendo subjacente uma determinada intencionalidade relativamente à forma de jogar, para que os perfis sejam condizentes com o que o jogar implica. E os perfis não podem ser considerados como imposições, nem como verdades absolutas, porque se o talento tem, como acho que tem, muitas formas de se manifestar a padronização nunca poderá estar fechada à possibilidade de contemplar jogadores que fugindo dos perfis à partida estabelecidos se evidenciem de facto como mais-valias. Os perfis são referenciais gerais, que devem ter significado para quem treina na formação e não menos importante para quem detecta talentos. No meu entendimento para se formar jogadores de qualidade importa reconhecer como essa qualidade se pode manifestar e reconhecer que a variabilidade como se poderá expressar implica que tenhamos uma visão abrangente daquilo que é um talento. Infelizmente penso que os olhos com que se vêm o talento nem sempre são os melhores, nota-se claramente, pelo menos em Portugal, que nos escalões de formação há uma predominância para a selecção se fazer com base em critérios morfológicos e nos desempenhos físicos dos jogadores, em detrimento de aspectos que de facto a Top fazem a diferença, como a inteligência, a qualidade posicional, a capacidade para antecipar, o modo de interagir o critério com bola e sem bola, a relação com o jogo e com a bola… Claro que isto é mais exigente do ponto de vista de quem detecta talentos e de quem os treina, não há nada que permita quantificar a não ser o olhometro e a sensibilidade de cada um. Mas infelizmente os talentos são não raras vezes seleccionados a metro e a quilo, os jovens mais avançados maturacionalmente têm grandes vantagens ao nível das oportunidades que lhes são conferidas, porque os treinadores apenas contemplam o que cada um revela no imediato e não o que poderá vir a revelar futuramente. Não entendem que o talento é uma realidade em potencial, por isso optam por dar primazia nas escolhas a jovens que são mais corpulentos, por serem mais eficazes no imediato. Estes jovens acabam também por ser prejudicados, pois muitos deles tendo potencial para muito mais, habituam-se desde muito cedo a viciar o seu jogo, suportando-o quase exclusivamente nas suas vantagens morfológicas e físicas, não desenvolvendo por isso outras formas de dar respostas ao que o jogo coloca. Não admira por isso que muitos destes jovens, que se destacam até por volta dos juvenis depois percam a sua relevância, dando lugar a jovens até então preteridos, porque as vantagens maturacionais que até então apresentavam e que lhes permitiam ser mais eficazes deixaram de existir, e face à dependência que criaram devido ao suporte de um registo de jogo assente no fisicismo, não conseguem desenvolver nem evidenciar outros atributos. Perdendo assim espaço para os demais, que inicialmente em desvantagem por serem morfologicamente e do ponto de vista físico mais débeis, passam esbatidas as diferenças maturacionais a ser os melhores sucedidos por apresentarem soluções de outra ordem, são mais perspicazes e apresentam maior variabilidade nos seus desempenhos. Infelizmente, nem sempre estes acabam por sobressair, em muito devido à exacerbação da dimensão física nas concepções de jogo da generalidade das equipas, e também na contemplação disso como dominante nos processos de selecção de jogadores e nos processos de treino. Nesse caso sobressaem os guerreiros, os abnegados perpetuando desse modo o mito dos atletas, e não necessariamente os futebolistas de qualidade, os talentos inteligentes. Acho incrível como é que no futebol um dos critérios de selecção na formação possa ser o tamanho. Um critério de selecção que é simultaneamente de exclusão. Dói pensar quantos possíveis talentos, não o chegaram a ser por causa desse disparate. E é mesmo um disparate, porque se olharmos para a história do futebol mundial, há de tudo mas curiosamente muito poucos são os que pertencendo a essa elite perfazem o perfil morfológico que muitos procuram. Além disso penso que se pedirmos aos jogadores de Top do futebol mundial do presente e do passado que se reportem às respectivas infâncias, e reconheçam aspectos que os fizeram ser os jogadores que foram ou são, verificamos que o que faziam tinha fundamentalmente a ver com jogar futebol e muito pouco com o que se faz em muitos clubes, e que se faz claramente do espírito e dos conteúdos que se viviam no futebol de rua.

Portanto em síntese penso que o essencial na formação passa por cada clube assumir para si o compromisso de formar para si, mas para tirar proveito, depois terá de perceber o que quer e treinar em função disso, reconhecendo que se aprende a jogar jogando e se possível ganhando para que o habito de vitória esteja presente e se instale como cultura. E essa aspiração penso será tanto mais possível quanto melhor identificados forem os talentos, e quanto mais a evolução destes se verificar em contextos colectivos de qualidade pois é isso que potencía simultaneamente jogares e jogadores.

43. Luis Esteves: O que é jogar bem na sua concepção?

Jorge Maciel: O que é jogar bem, aí está algo com uma polissemia muito grande. O que torna ainda mais pertinente a questão e fundamentalmente cada um, face à pluralidade que tal pode representar, ter bem presente o que é para si um jogar de qualidade. E para mim há pressupostos básicos na identificação ou construção de um jogar de qualidade. Desde logo tenho de reconhecer que o futebol é uma modalidade colectiva, e como tal toda a dinâmica deve assentar na interacção colectiva, de forma organizada e coerente para que a funcionalidade manifesta seja de facto suportada por referenciais colectivos e se manifeste de forma fluída e harmoniosa. Depois não me posso esquecer que o futebol tem um objectivo muito claro, que é ganhar, e para ganhar eu tenho de marcar mais golos que o adversário, por isso o jogar bem tem como pretensão o desejo de atacar. Mas como, atacar por atacar?! Claro que não, para atacar com qualidade eu tenho de manifestar uma dinâmica colectiva que me permita fazê-lo tendo em consideração a existência dos diferentes momentos de jogo. Ou seja, apesar da intenção ser atacar com qualidade a equipa deve estar organizada nos diferentes momentos, para que esse desejo esteja sempre presente, e para que ao acontecer eu tenha em consideração o jogo todo, isto é possibilidade de estando com bola a perder, a possibilidade de quando a perder ou ganhar perceber o que o jogo exige e ainda quando sem bola defender tendo em vista a possibilidade de atacar. Portanto sendo o objectivo claro vencer, e com um futebol dominantemente de ataque, é fundamental que a equipa revele uma identidade colectiva que manifeste organização e congruência com os meus intentos. Além disso, esta identidade colectiva, não deve ser castradora, por isso deve permitir que cada singularidade que para ela contribui se expresse como um acrescento qualitativo ao todo, e simultaneamente se potencíe como parte nesse mesmo todo organizado. Isso, tal como nos diz a teoria da complexidade só é possível se o todo for organizado, o todo organizado é mais que a soma das partes.

O Professor Vítor Frade refere-se ao trinómio Estética Eficácia e Eficiência como o cerne do jogar de qualidade. E de facto assim é, a articulação bem conseguida entre estes três aspectos é determinante, é da melhor ou pior consecução do mesmo que emerge respectivamente um jogar de maior ou menor qualidade. Conforme referi, no futebol há claramente um objectivo claro, vencer, ser eficaz portanto, mas perseguir esse intento deve despertar em quem joga e em quem vê jogar um determinado impacto e essa é a dimensão estética que o jogar deve contemplar. Além disso todos estes aspectos devem ser alcançados tendo por base uma identidade própria, a dimensão da eficiência tem a ver com esse apego a uma intencionalidade capaz de se manifestar regularmente e de forma a dar resposta satisfatória aos problemas colocados pelo jogo. A concretização deste trinómio é bastante complexa e difícil também, porque por vezes a interferência sobre uma das dimensões poderá ter implicações muito significativas nas demais. E uma vez mais, a calibragem de tudo isso faz parte da mestria do treinador. Não obstante da necessidade de pontualmente o treinador ter de aferir para tornar bem sucedida esta relação, penso que o jogar de qualidade se expressa pela seguinte máxima do Professor Vitor Frade e resulta do equilíbrio, feito nos limites entre “máxima redundância (a nível macro – Princípios de Jogo) e máxima variabilidade (a nível micro – plano dos detalhes) ”. Conseguir isto é aspirar à concretização do futebol elevado á sublimidade, mas implica um equilíbrio altamente dinâmico entre atacar defender e passar de um para o outro, fazendo-o na fronteira do caos tanto a nível colectivo como individual, pois é isso que me vai permitir não perda de identidade pela “máxima redundância” e não perda de criatividade pela “máxima variabilidade” de manifestação e de concretização ao nível das diferentes escalas que compõem a equipa aquando da tentativa de materializar tal identidade. Se assim for, e não é nada fácil, as equipas serão dominadoras e controladores, e fundamentalmente organizadas, capazes de entusiasmar multidões e de vencer com maior regularidade. No entanto, tudo isto é muito fácil, ou relativamente fácil de dizer, o pior é como, isto é, com que identificação a suportar esse jogar bem. O que é que eu reconheço como jogar bem e de que modo eu detecto o que num jogar bem é de facto relevante. Por exemplo, posso dizer que gosto do Barcelona a jogar, mas saberei o que o torna único?! Para uns o que o torna diferente é a qualidade individual dos seus jogadores, são os dribles do Messi, as chuteiras da marca x…, para outros, sendo isso relevante, só é possível ou melhor só é potenciado, pelo facto da equipa apresentar uma identidade colectiva única, da qual emerge uma dinâmica determinada assente em referenciais colectivos que potenciam a identidade colectiva e manifestação de cada jogador. Depois e não menos importante, além da necessidade de identificação com o que se constitui como fundamental no rendimento de uma equipa, e no caso aquilo que lhe permite estar e manter-se a TOP, há que saber como parir isso, como conseguir levar isso a efeito e como treinar para o conseguir fazer. Esse é sem dúvida o maior desafio do treino, é mesmo a sua essência.

44. Luis Esteves: Todos queremos ganhar, mas para o professor o processo inicia aonde? Jogar bem ou ganhar?

Jorge Maciel: Quando se está a um determinado nível, ou se calhar independentemente do nível a que se está, vencer é uma prioridade, quando se contrata um treinador o propósito é óbvio, «estás aqui para ganhar, se não ganhas… vida difícil». O treinador lida permanentemente com este desafio, ganhar sempre e mais que os outros. Depois, do mesmo modo que há muitas formas de treinar, haverá também muitas formas de ganhar, apesar de eu ser mais adepto de umas do que de outras. O que me intriga é ver que esta dicotomização, “ganhar ou jogar bem”, se perpetua e influencia as pessoas. Trata-se de um reforçador cultural que pesa muito negativamente na cabeça dos adeptos, dos treinadores, dos directores e dos jogadores, e que faz transparecer a ideia que conciliar jogar bem com ganhar é impossível. E isso é uma estupidez, temos provas mais do que evidentes de que assim é de facto. Veja-se por exemplo os recentes exemplos da Espanha e do Barcelona, vencem e não o fazem a jogar bem fazem-no a jogar muito bem, superiorizando-se de forma categórica e regularmente à generalidade das equipas. O facto de as pessoas não ponderarem esses dados tão evidentes, assim como o facto de não ponderarem que a generalidade das equipas joga mal, logo ser desse grupo que saem os vencedores, reforça a ideia de que para ganhar é preciso jogar mal. Mas não é preciso, como mostram os exemplos da Espanha e do Barcelona, ou até mesmo dos vencedores mais recentes do campeonato português, o Benfica venceu na época anterior a jogar bem, e o FC Porto este ano ganhou a jogar muito bem, por isso superiorizou-se em Portugal e na Europa. Importa desmontar a ideia que jogar mal compensa. O processo inicia por aí, e continua com a necessidade de se ter uma ideia sobre como queremos jogar, para jogar bem e vencer.

Agora indo de encontro ao que referi em cima, aquilo que persigo é tornar exequível o trinómio Estética Eficácia e Eficiência, mas claro que isso tem de ter em consideração o meu contexto. Por isso quando chego a um determinado contexto eu tenho de perceber muito bem onde estou e até onde posso ir, para em função disso estabelecer as minhas prioridades imediatas e a mais longo prazo. Portanto a hierarquização também passa por saber onde estou e qual a minha margem, e isso pode pesar no modo como eu articulo ou dinamizo o trinómio Estética Eficácia Eficiência, podendo face às necessidade circunstanciais valorizar mais uma (ou umas) dimensão em detrimento de outra ou outras. Por exemplo, se chegar a uma equipa que tem de ganhar no imediato para concretizar os seus objectivos – títulos ou manutenção - e se sei que a minha continuidade no meio e o prestígio dependem fundamentalmente de eu ganhar naquele período as minhas preocupações serão determinadas mais no sentido da eficácia. Mas se por outro lado sinto que tenho margem, preocupo-me em criar um jogar mais complexo que me leva mais tempo a construir, mas que eleva de forma mais graciosa o trinómio. O fim é sempre o mesmo, pelo menos para mim, e passa por querer jogar bem para ganhar, mas eu tenho que perceber que em alguns contextos, seja pela necessidade de pontuar, seja pela necessidade de desabituar os jogadores a uma forma de treinar e ou de jogar, para jogar bem eu primeiro e de forma imperativa eu tenho de ganhar. Porque quando se ganha tudo fica mais fácil, ganhamos tempos, ganhamos margem para transmitir as nossas ideias, ganhamos aceitação, e fundamentalmente a crença generaliza-se e a nossa empatia e sintonização com quem treinamos diariamente cresce de forma incrível. Concluindo, penso que não é impossível ganhar e jogar bem, assim como considero desejável ganhar para jogar cada vez melhor.

45. Luis Esteves: Gostaria que o professor referisse os conceitos de: “Arte das trajetórias” e “ Teoria dos alvos” que muitas vezes são citados em monografias orientadas pelo professor Frade.

Jorge Maciel: São dois conceitos que representam duas formas antagónicas de conceber o processo de treino. A arte das trajectórias tem a ver com uma forma de conceber o treino respeitando a não linearidade que o processo deve contemplar. Por outro lado a teoria dos alvos reporta-se a uma visão linear do processo de treino, e representa aquilo a que por vezes se diz ser o “treinar sobre carris” ou conceber o treino e o que nele se faz como mecanismos mecânicos. A Periodização Táctica pretende ser muito mais a arte das trajectórias que a teoria dos alvos, desse modo a dominância do processo deve conter como exercícios, contextos que se constituam como servomecanismos ou cerebromecanismos e não mecanismos mecânicos. Os dois conceitos são, face à sua designação, relativamente fáceis de apreender. A teoria dos alvos remete-nos para uma realidade fixa, portanto imutável, fechada, ou seja com pouca ou nenhuma imprevisibilidade intrínseca. A arte das trajectórias pelo contrário apela à necessidade de escolha de entre várias hipóteses. A noção de trajectórias reforça a ideia de variabilidade de percursos, ainda que volte a frisar, que independentemente do percurso a finalidade é chegar a um destino determinado, daí que as trajectórias, emergentes dos contextos de treino, devam fazer emergir com propensão predominante os trajectos que caracterizam o sentido da nossa caminhada, isto é do nosso jogar. É de facto uma arte, porque implica que cada um tenha autonomia, alicerçada num referencial colectivo, para eleger qual a trajectória mais ajustada. Tenho salientado que a Periodização Táctica tem como grande pretensão o desenvolvimento e concretização de um saber fazer em concomitância com um saber sobre esse saber fazer, por isso mesmo, é que esta forma de conceber o treino tem de ser fundamentalmente uma arte das trajectórias. Deste modo, os jogadores vêm-se obrigados a interagir de forma autónoma e encontram-se permanentemente implicados, sendo assim parte activa, criativa e inteligente no modo como solucionam os constantes e sucessivos problemas que o jogo coloca. No futebol os jogadores têm de estar constantemente a tomar decisões, no entanto o grande problema que se coloca aos jogadores é o problema das escolhas. Isto é, perante a variabilidade de “trajectórias” decidir qual a que deve eleger face às circunstâncias. Ou seja, o problema das escolhas tem de ser o cerne do treino, o treino tem de potenciar a possibilidade do jogador, suportado em referenciais colectivos, eleger convenientemente o que fazer a cada momento. O problema das escolhas vai por isso, para além da profundidade do problema da tomada de decisão, porque se reporta à necessidade de critério na tomada de decisão, de critério no modo como se dá a interacção no aqui e agora. A maximização do critério só se consegue com base na arte das trajectórias. As neurociências assim o sugerem, quando reforçam a importância dos padrões de reconhecimento na acção humana. Por esse motivo o treino não deve proporcionar o apontar para alvos, mas antes, permitir que as configurações sendo variáveis em termos de pormenor, tenham subjacente uma determinada padronização, que necessariamente temos de vivenciar para que em contextos análogos possamos expressar desempenhos condizentes e de qualidade.

Até aqui referi-me a estes dois conceitos apontando para a perspectiva dos jogadores, no entanto, e está relacionado, ele deverá ser igualmente perspectivado do ponto de vista dos treiandores. O treinador, conforme já referi, tem de estar consciente das suas insuficiências para controlar tudo o que envolve o processo de treino, e não pode fazer disso um drama. Por isso, tem de entender o jogo e o treino como uma arte das trajéctorias, o qual requisitando de regularidades (metodológicas e conceptuais) contempla a aleatoriedade, requisitando por conseguinte o Sentido da Divina Proporção, porque também o treinador se debate com o problema das escolhas. E tal como os jogadores de escolhas em contexto de elevada caosplexidade. Se pelo contrário quer tudo controlado, cai na vertigem da catalogação, e aí só poderá aspirar a um jogar e um treinar sobre carris, onde à configuração x corresponde a acção y. Daí emerge muito possivelmente um processo e o que dele resulta metaforizados pela teoria dos alvos.

46. Luis Esteves: Para o professor, o que tem José Mourinho que o faz vencer tanto?

Jorge Maciel: Essa é uma pergunta muito engraçada, e não é a primeira vez que ma fazem. Geralmente respondo sempre do mesmo modo e com uma analogia, que é a seguinte, todos nós aprendemos a escrever, mas depois alguns são escritores e outros não, e dentro dos escritores há uns melhores que outros, e há alguns que estando ao mesmo nível são de estilos literários diferentes. O que quero com isto dizer é que a dimensão formal ou teórica da Periodização Táctica é passível de compreensão da generalidade das pessoas, no entanto, a sua concretização conforme só está ao alcance de alguns. O que determina verdadeiramente o sucesso é a operacionalização do processo, que no caso de José Mourinho tem o suporte metodológico ou científico da Periodização Táctica, mas ao qual ele acrescenta o seu cunho pessoal. Treinar tem muito de Ciência, mas não menos de Arte, e é a articulação bem conseguida entre estes dois planos que permite o sucesso. Muito possivelmente haverá pessoas com igual ou superior apreensão formal daquilo que é a Periodização Táctica quando comparadas com José Mourinho, mas o que as distingue e que tornam de facto Mourinho diferente é o Sentido da Divina Proporção, um MetaPrincípio que tem a ver com a Arte de gerir com Ciência uma realidade altamente complexa e dinâmica, o que pressupõem muito saber, reflexão e intuição.

Cada processo é singular em parte, ou grande parte porque cada líder e cada contexto são singulares, e o modo único como o líder gere isso determina o seu sucesso, e isto é válido e para qualquer orientação metodológica, não só para a Periodização Táctica, e para qualquer estilo de liderança. Por isso digo que dentro dos bons escritores há uns que são romancistas, outros poetas e por aí fora. Também aqui não há receitas, não duvido que num cenário hipotético em que pudéssemos ter José Mourinho e outro treinador numa mesma realidade, a treinar do mesmo modo, com os mesmos conteúdos de treino os resultados seriam bastante diferentes. Mourinho estaria próximo de vencer e o outro de ser rebaixado. Porquê? Porque tem coisas da esfera do indizível e do invisível que os outros não têm, é mestre no Sentido da Divina Proporção.

47. Luis Esteves: Como vê o fenômeno FC Barcelona?

Jorge Maciel: Com enorme satisfação. Porque além de jogar de uma forma única representa uma personificação colectiva daquilo que é a antítese do que normalmente se diz que o jogo de qualidade deve ter. Inegavelmente contraria e refuta a generalidade dos mitos instalados no futebol. Mostra que ganhar e jogar bem são aspirações compatíveis, mostra que a aposta na formação tendo por base uma cultura comum faz sentido, é a prova que pode haver simultaneamente ordem e criatividade, é a prova que a necessidade de acelerar contempla necessariamente a pausa e mostra que o talento não se mede nem se pesa a metro e a quilo. Em suma, é tudo e tem tudo, o que dizem que o jogar de qualidade não deve ter. É uma equipa muito inteligente que pela sua forma de jogar sobredetermina os adversários, lá está porque reconhece uma verdade muito simples, mas muitas vezes ignorada, é que do mesmo modo que não há natação sem água, também não há futebol sem bola, e quem a tem e a gere com qualidade manda no jogo e condiciona-o, dentro dos possíveis.

Penso que o sucesso recente do Barcelona pode ser muito benéfico para o futebol em geral, porque geralmente os referenciais que se adoptam são os dos vencedores, e o Barça ganha como nunca, fazendo-o de uma forma sublime. Oxalá contagie.

48. Luis Esteves: Acredita ser válido a outras equipes “copiar” no bom sentido o FC Barcelona e o seu Modelo de ver o futebol, de forma mais plástica?

Jorge Maciel: Acredito, mas não por geração espontânea. É preciso um strip tease epistemológico que nos dispa e nos leve a ter necessidade de uma realidade futebolística superior como o caso do Barcelona. No entanto, apercebo-me que nem toda a gente tem pelo Barcelona apreço, há mesmo quem ache que o tipo de futebol que praticam é fastidioso, e este é um peso cultural enorme, com grande inércia, mas que importa travar. Temos de ter consciência que para despoletar tal mudança o tempo necessário pode ser mínimo, pois aí referimo-nos ao plano ideológico, mas o tempo necessário para efectivar e concretizar tal mudança é consideravelmente maior. Mas sem dúvida penso que seja possível “copiar” o exemplo do Barcelona, acho até que além de possível é desejável, visto que os referenciais para qualquer processo de treino a mais curto ou longo prazo devem ser os de top e se possível vencedores. E o Barcelona é tudo isso, é TOPTOPTOP e ganha desmistificando a ideia que é incompatível vencer e jogar bem.

O Barcelona é a prova que é possível mudar, há menos de 20 anos a fúria espanhola reinava e o Barcelona não fugia dessa tendência e conseguiu fugir disso porque alguém, Cruyff, lhes mostrou algo que desconheciam. E como ninguém tem necessidade daquilo que desconhece e muito menos do que ignora importa que exemplos de qualidade sejam cada vez mais dados a conhecer às pessoas. Só deste modo podemos evoluir e sair da cegueira que nos afecta. Geralmente as mudanças de paradigma fazem-se por minorias transgressoras, e de certa forma podemos dizer que a nivél conceptual o Barcelona é uma transgressão, do mesmo modo que o é a Periodização Táctica a nível metodológico, e no entanto têm sobrevivido a muita contestação, escárnio por vezes e até inveja. Mas o que se verifica é que são realidades cada vez mais consistentes e cada vez são minorias maiores os que as seguem. Não é uma mudança rápida, muito menos simples e fácil, mas é esse precisamente o desafio que a complexidade nos coloca. E como diria Gaston Berger “quanto mais uma árvore demora a crescer, menos se deve esperar para a plantar”.

49. Luis Esteves: O professor acaba de lançar um livro, gostaria que nos falasse sobre o mesmo e as formas de adquiri-lo aqui no Brasil.

Jorge Maciel: Curiosamente o livro responde muito bem e de forma muito profunda a aspectos relevantes da questão anterior. Resulta da realização da minha monografia de final de licenciatura, que tive que apresentar em 2008 na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Penso que há no Brasil quem já tenha lido a minha monografia, e de uma forma geral o livro contempla tudo o que nela consta, contando contudo com alguns acrescentos e esclarecimentos que entretanto sentimos serem necessários.

De forma resumida apresenta cinco grandes blocos, no primeiro o Futebol é apresentado como um Fenómeno Social Total, no segundo sugere-se que ele é mais que isso, é um Fenómeno Antropossocialtotal, porque requisita na sua manifestação o Homem em toda a sua dimensão. Depois sugere-se que apesar de se tratar de um Fenómeno Antropossociatotal, ele é simultaneamente aparentemente ContraNatura, uma vez que requisita uma destreza ao nível do trem inferior muito desenvolvida, quando o que sucedeu ao nível da filogénese humana foi o ganho de destreza e sensibilidade ao nível das mãos em contraste com a tendência verificada ao nível dos pés. Ou seja, neste ponto realça-se que a evolução da espécie humana induziu em nós um conjunto de alterações estruturais e funcionais que tornaram a prática do futebol ContraNatura, no entanto, é apenas aparentemente ContraNatura, pois uma das características mais significativas da evolução humana é a sua evolução ao nivel da dimensão social, um aspecto também ele caracterizador da essência do futebol. No ponto seguinte do livro faz-se um levantamento de muitas das brincadeiras de jogadores de top e ex jogadores, que depois de devidamente reflectidas servem de orientação para o que em nosso entender deve ser o processo de treino nas idades mais jovens. No ponto seguinte fundamentam-se todas essas sugestões cientificamente, recorrendo fundamentalmente a estudos recentes nas áreas da Plasticidade, da Neurociência, da Epigenética, da Ecogenética, que não sendo destinados ao futebol foram por nós entendidos como muito úteis e com grande aplicabilidade para o futebol. De uma forma geral, trata-se de uma história bastante profunda em torno da necessidade de tomar as rédeas da formação e de racionalizar os processos de treino de jovens com o intuito de aumentar a qualidade dos mesmos e consequentemente permitir que mais talentos floresçam.

Relativamente ao modo de o adquirirem no Brasil, a editora não tem de momento prevista a sua internacionalização, mas quem desejar ter o livro pode contactar-me eu encarrego-me de o enviar sem qualquer problema, aliás já o fiz.

50. Luis Esteves: Que literaturas recomenda para o estudo da Periodização Tática?

Jorge Maciel: A Periodização Táctica, também a este nível pauta pela qualidade e não pela quantidade. Não é muita a bibliografia disponível, pelo menos a directamente relacionada com a Periodização Táctica, ainda que como é visível nas obras conotadas com a Periodização Táctica esta se sirva de fontes provenientes de diferentes áreas científicas ou não. Quanto a livros que retratam a Periodização Táctica recomendo o da Marisa Gomes ou Marisa Silva “O desenvolvimento de um jogar, segundo a Periodização Táctica”, o do Carlos Campos “A justificação da Periodização Táctica como uma Fenomenotécnica”, o livro “Mourinho – Porquê tantas vitórias?”, o meu livro “Não o deixes matar O bom Futebol e quem o joga Pelo Futebol adentro não é perda de tempo!”, o livro do Xavier Tamarit “Que es la Periodization Tatica”. Depois há todo um conjunto de Monografias muito boas orientadas pelo Professor Vítor Frade e algumas também orientadas pelo Professor José Guilherme. Além disso há os apontamentos que o Professor Vítor Frade disponibiliza com alguma regularidade depois de devidamente lidos, anotados e sublinhados.

Aproveito esta pergunta para lançar um aviso às pessoas, no sentido de as alertar para o facto de que a maioria dos documentos que circulam na internet sobre Periodização Táctica deturpam-na, abordam-na superficial e erroneamente, e nalguns casos pode mesmo dizer-se que são verdadeiras aberrações. Temos notado que é cada vez mais frequente algumas pessoas se colarem a algumas frases do Professor Vítor Frade, sem nunca terem falado com ele sobre a Periodização Táctica, e as usarem como slogans para promoção pessoal. É óptimo verificarmos que há cada vez mais interesse na Periodização Táctica, mas é péssimo sentir que tal pode ser pernicioso, há quem tenha conhecimento superficial de algumas coisas, mas queira fazer passar a imagem que sabe tudo sobre Periodização Táctica, e quando se generaliza o que ela não é de facto, acaba por ser dada a conhecer uma versão deturpada e nada condizente com o que ela é. Há quem pense que basta dominar a terminologia para dominar o que de facto é a Periodização Táctica, e como são bem-falantes e poucos dominam o que de facto ela é, acabam por ser tidos como defensores da Periodização Táctica. Como se tal não bastasse, há ainda o oportunismo de algumas pessoas que se servem da prostituição intelectual e de um atrevimento parasitáritário para se promoverem, por vezes inclusive, intrometendo-se, desrespeitando e pondo em causa pessoas que no terreno levam a efeito esta forma de treinar. O Professor Vítor Frade diz várias vezes que “o atrevimento é o maior sintoma de ignorância”. Sabemos de alguns casos, e pessoas até com responsabilidades académicas, que num determinado contexto, como por exemplo a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto se dizem contrários à Periodização Táctica, mas que quando lhes convém, em contextos diferentes se servem dela como um exemplo, se dizem seguidores e nalguns casos até mesmo mentores. Na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, para que as pessoas saibam, só existem duas pessoas verdadeiramente identificadas com a Periodização Táctica, o Professor Vítor Frade e o Professor José Guilherme. Percebo que as pessoas se seduzem facilmente pela Periodização Táctica, e como tal há necessidade de lhes dar a conhecer o que ela é de facto. Mas infelizmente, o atrevimento que por vezes domina nas diferentes áreas, e o treino não é excepção, acaba por não permitir que a Periodização Táctica seja dada a conhecer como deveria.

Luis Esteves: Professor, mais uma vez gostaria de agradecer pela disponibilidade em compartilhar seu conhecimento conosco, muito obrigado.