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terça-feira, 10 de agosto de 2010

A ORGANIZAÇÃO FRACTAL DO FUTEBOL NOS SEUS CONFRONTOS

“As boas equipas, marcam muitos golos em transição, mas também em organização ofensiva e bolas paradas, portanto, o número de golos, deve estar distribuído de forma equilibrada.”

José Guilherme Oliveira
2006
A proposta de organização fractal do jogo de futebol que é colocada por diversos autores que falam sobre a periodização tática me parece ser fundamental, para o entendimento da não separação de forma "valorizada" das dimensões do jogo nos treinamentos.

Para mim o entendimento de fractal, e consequentemente fragmentação, vai ao encontro da manutenção da complexidade da tomada de decisão. Sendo o futebol um jogo de tomadas de decisão constantes, dentro de diversas dimensões organizacionais ( Individual, Setorial, Intersetorial e Coletiva) não podemos em nenhum treino, excluir por completo a tomada de decisão, devemos sim apenas regular a propensão em que ela irá ocorrer, dentro da complexidade dos princípios e seus sub comportamentos.

O futebol pode ser interpretado de forma fractal, o jogo em sí representa de formas diferentes, em diferentes ângulos a representação do jogo total

Os confrontos que ocorrem no jogo podem ser vistos em diversos tamanhos e números, sendo assim uma constante relação micromacro de jogo. A riqueza do treino deve estar exatamente na inter-relação entre as decisões. Não consigo velorizar um treino em que só exista a organização ofensiva, ou apenas a organização defensiva desconectada das transições. Separar estes momentos é o mesmo que desconectar as fases do jogo e o resultado disso é uma diminuição drástica da velocidade de tomada de decisão perante os acontecimentos do jogo.

O treino nunca pode valorizar a desconexão dos momentos, quebrar essa lógica interfere diretamente na velocidade coletiva da equipe.

Vou exemplificar aqui uma sessão de treino que pode privilegiar diversas formas de fragmentação do jogo, pretendendo nunca emprobecer o mesmo com situações inexpecíficas a determinado tipo de jogo.

FRAGMENTAÇÃO INICIAL - VALORIZAÇÃO INDIVIDUAL
MICRO-PRINCÍPIOS

Aquecimento técnico, com condução e muitos toques na bola, a princípio com muito pouca  complexidade e com liberdade de movimentos e ações, dentro de uma propensão. Estabeleci 3 circúitos diferentes em que queria uma preocupação grande com a condução e dribles, e seus detalhes mais técnicos.

Valorização da técnica individual como ativação

Após cerca de 3 Minutos, alongamos e contínuamos por mais 3 minutos. A preocupação foi totalmente individual, com o gesto motor e a eficiência na execução dos fundamentos propostos.

PEQUENA FRAGMENTAÇÃO
MICRO-PRINCÍPIOS

MICRO-CONFRONTOS

Após o aquecimento, passamos para uma preocupação um pouco maior, e realizamos um exercício em pequenos campos em que havia o confronto 1x1, com a utilização de apoios, para a realização de passes verticais.


1 contra 1 com apoios

SITUAÇÃO DE JOGO

Confronto 1 contra 1 - Qualidade Individual


PEQUENA FRAGMENTAÇÃO
SUB-PRINCÍPIOS

MICRO-CONFRONTOS

Dentro de uma sequência de complexidade seguimos para um exercício em que a participação de 2 jogadores com mais dois apoios aumenta a complexidade das ações. Mais possibilidades de escolha aparecem e o jogador neste momento passa a ter muitas possibilidades. Neste momento o modelo de jogo específico passa a dominar as ações e exclui / inclui ações.

2 contra 2 com apoios laterais

SITUAÇÃO DE JOGO


 
2 contra 2 - Qualidade individual e Coletiva


MICRO-CONFRONTOS

MÉDIA FRAGMENTAÇÃO
SUB-PRINCÍPIOS E PRINCÍPIOS

Seguindo uma progressão de complexidade vamos a um exercíício com maior valorização das combinações ofensivas em circulação, ainda de forma aposicional,  porém visando uma determinada estrutura organizacional. A partir daqui a preocupação se torma mais coletiva e a complexidade aumenta.



4 contra 4 com 8 apoios

SITUAÇÃO DE JOGO





TRANSIÇÃO OFENSIVA

Criar situações em que exista a valorização da posse e situações em que exista o aproveitamento da desorganização do adversário na transição ofensiva.

MICRO-CONFRONTOS

MÉDIA FRAGMENTAÇÃO
SUB-PRINCÍPIOS E PRINCÍPIOS

Exercício com preocupações estruturais específicas, relacionadas as funções ofensivas e defensivas da estrutura e do modelo. Maior complexidade pois aumentam as preocupações com a densidade de princípios e tomada de decisão.
 
 
5 contra 5 em estrutura posicional

SITUAÇÃO DE JOGO




GRANDE CONFRONTO
PRINCÍPIOS

Exercício final com grande propensão a grandes princípios, sem fragmentação, o jogo em só acontece de forma adaptada com os componentes originais, formatados a propensão que o espaço delimitado irá gerar.
 

11 x 11 + 11 (Em casos de grupos pequenos pode ser apenas 11x11)
É importante salientar que 11x11 com determinados objetivos relacionados ao modelo de jogo é diferente do antigo Coletivo, não tem nada a ver um com outro, a não ser a utilização de 11 jogadores contra 11.

SITUAÇÃO DE JOGO


11 contra 11 - Organização coletiva geral


Dentro destes exercícios podemos valorizar diversas dimensões da fragmentação do jogo. Temos a possibilidade de, em cada sessão inserir determinada propensão de algo, como por exemplo, exercícios setoriais, e variar situações em cima deste fragmento, ou também é possível realizar uma progressão no próprio treino, iniciando em uma situação individual e terminando em uma situação coletiva complexa.

Como os exercícios citados, tem possibilidade de participação em diversos dias da semana, o tempo de exercítação irá ser maior em exercícios que estiverem melhor inseridos no dia, por exemplo, na quinta-feira o exercício mais valorizado em termos de tempo de exercítação poderá ser o exercício 11x11, na quarta-feira poderá ser o exercício 4x4 + 8...etc.

Grande abraço
Luis Esteves

quinta-feira, 11 de março de 2010

MONTAGEM DA SEMANA DE TREINOS - Parte 1

"Todo o organismo é movido por uma tendência inerente a desenvolver todas as suas potencialidades e a desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e enriquecimento. (...) A tendência atualizante não visa somente (...) a manutenção das condições elementares de subsistência como as necessidades de ar, alimentação, etc. Ela preside, igualmente, atividades mais complexas e mais evoluídas tais como a diferenciação crescente dos órgãos e funções; a revalorização do ser por meio de aprendizagens de ordem intelectual, social, prática..."


(Rogers, 1977).



Já fiz um post parecido com este.


Bom, vamos a montagem de uma semana de treinos, dentro de uma perspectiva do que eu considero Periodização Tática e do que normalmente faço no dia á dia mesmo, é a teoria da prática.


Montar uma semana, ou periodizar, ou planejar, ou pensar, seja lá como chame, é muito complexo, porquê depende de algumas variáveis, dentre elas o modelo de jogo. Algumas pessoas podem ler isto, e copiar, o que eu não acho errado, pois eu copio muitas coisas também, porém sempre colocando minha contribuição junto, já que como diria o Mourinho, " a cópia nunca é tão boa quanto a original", portanto, melhor que copiar, é entender, pensar e produzir. Mas vamos lá.


Para tentar programar esta semana, vamos seguir os seguintes passos (este post será longo hehehe):


- Definição de um modelo de jogo

- Exemplo de um jogo

- Exemplo de planejamento de treinos da semana, conforme um morfociclo de 1 jogo


Sendo para isso, preciso definir um modelo de jogo, vamos a ele então, de forma simplificada, tentando definir nos momentos os princípios e sub-princípios.


MODELO DE JOGO


Definindo modelo de jogo: Modelo de jogo pode ser considerado como conjunto de comportamentos idealizados por nós que desejamos ver nossa equipe realizar durante o jogo, dentro de todas as dimensões que o futebol apresenta, sendo elas tática, técnica, psicológica, física dentre outras que também podem ser inseridas nestas, ou podem ser valorizadas tanto quanto estas, a exemplo das dimensões afetiva, e social.



"Entendendo Modelo de Jogo como uma ideia / conjectura de jogo constituída por princípios, sub-princípios, sub-princípios dos sub-princípios..., representativos dos diferentes momentos / fases do jogo, que se articulam entre si, manifestando uma organização funcional própria, ou seja, uma identidade. Esse Modelo, como Modelo que é, assume-se sempre como uma conjectura e está permanentemente aberto aos acrescentos individuais e colectivos, por isso, em contínua construção, nunca é, nem será, um dado adquirido. O Modelo final é sempre inatingível, porque está sempre em reconstrução, em constante evolução. "

José Guilherme Oliveira


É importante definir que, todo e qualquer treinador tem um modelo de jogo, mesmo que não saiba que tenha, pois qualquer comportamento apresentado por uma equipe leva a um modelo, existem modelos mais e menos evoluídos, dentro de uma filosofia de qualidade, mas não sei se pode-se definir uma escala, o mais evoluído de hoje, pode não ser o de amanhã, hoje posso citar como modelo de jogo evoluidíssimo, o do FC Barcelona.


ORGANIZAÇÃO OFENSIVA





Acredito que hoje, este é o futebol mais evoluído, dentro da minha filosofia de jogo de futebol.


Bom, para entender como se monta um modelo de jogo, você tem que entender que, para facilitar a análise do jogo de futebol, alguns pensadores do jogo nos proporcionaram uma boa ideia, dividiram o jogo em MOMENTOS. Estes momentos são:


- Organização Ofensiva

- Transição Defensiva ou Ataque/Defesa

- Organização Defensiva

- Transição Ofensiva ou Defesa/Ataque


Estes momentos acontecem a todo momento no futebol, as vezes de forma cíclica, as vezes não, por exemplo:


Sua equipe tem a posse de bola em uma zona de ataque, ela esta em ORGANIZAÇÃO OFENSIVA, porém ela circula e em determinado momento perde a posse, neste momento ela entra em TRANSIÇÃO DEFENSIVA, após isso ela reage de determinada forma a esta transição e de algum modo rouba novamente a bola, ela acaba de entrar em TRANSIÇÃO OFENSIVA, a partir daí ela terá um comportamento que irá acarretar na ORGANIZAÇÃO OFENSIVA novamente.


Também vale citar um ponto colocado pelo José Guilherme, quanto as possibilidades de fragmentação dos momentos entre:


- individual;

- sectorial (ou grupal);

- intersectorial;

- colectiva.

Então partindo destes momentos, iremos estabelecer o comportamento que queremos para a equipe, mas antes deve-se levar em conta os seguintes critérios para a definição de um modelo:


- Estrutura do clube ou local

- Histórico do clube ou local

- Objetivos do clube

- Grupo de jogadores

- Comissão técnica

- Competições

- Categoria


Porquê é importante levar isso em consideração, por que muitos ao assumir um time pequeno assistem a jogos da Uefa Champions League e querem reproduzir o mesmo modelo de jogo (um modelo de jogo similar, pois o mesmo nunca será possível) não levando em consideração que esta batendo de frente com estes critérios de escolha de modelo, o que acaba levando ao fracasso e a uma frustração muito grande, e o pior, as vezes levando a demissão.


Bom, vou definir um modelo básico, e muitas vezes o básico é o melhor para o entendimento dos jogadores, é natural reações emocionais dos jogadores quando se trabalha nessa perspectiva, muitos não assimilam, não entendem e isso gera emoções negativas, e reações agressivas, portanto deve-se levar isso em consideração até mesmo como prevenção de possíveis problemas relacionais, mas este é outro assunto.


Vamos ao modelo :


Vou pegar o exemplo do meu time do ano passado.


Estrutura do clube:


A estrutura do clube era precária, tínhamos um campo de treino, ao qual utilizávamos pela parte da manhã, alguns treinos eram a tarde no próprio clube.

Histórico do clube:


O clube se encontra na 2ª divisão do estado, e no ano anterior havia sido vice-campeão gaúcho júnior, o que aumentou bastante a responsabilidade do grupo, e da comissão, entrei apenas ao término da primeira fase , onde surpreendentemente o clube acabou em 1º lugar, deixando clubes mais estruturados atrás.


Objetivos do clube:

Ser campeão gaúcho junior.
Vender jogadores jovens.
Grupo de Jogadores:


Era um time de boa qualidade, tinha uma mescla boa de técnica e pegada.

também tinha a característica da união, cobrança positiva e da auto-motivação.

Tinha cerca de 33 Jogadores, 3 por posição.


Portanto a escolha dos atletas dentro das limitações é muito importante e tem que ser congruente a uma filosofia, eu por exemplo queria uma equipe com posse de bola, com circulação, com amplitude e profundidade, com mobilidade ofensiva, com pressão,


Comissão Técnica:


Tínhamos uma comissão técnica composta por:


Treinador

Preparador Físico

Preparador de Goleiros


Competições:


Campeonato Gaúcho Júnior


Baseado nesta ideia montamos um modelo de jogo bem comum, e bem utilizado hoje:


OBSERVAÇÂO: O modelo segue uma organização fractal de princípios, hierarquizados de forma a levar em consideração a importância do comportamento. A palavra fractal tem o significado de Fragmento, portanto o modelo de jogo é fragmentado em ordem, posteriormente para poder ser treinado de forma contextualizada, só assim não é mais abstrato como normalmente se é em outras definições.
É IMPORTANTE SALIENTAR QUE, QUANDO SE MONTA DETERMINADO MODELO DE JOGO, DEVE-SE SEGUIR UMA LINHA ÚNICA, SEM PRINCÍPIOS QUE BATAM CONTRA OUTROS PRINCÍPIOS, ISSO GERA UM PROBLEMA GRANDE DE ASSIMILAÇÃO!
ORGANIZAÇÃO OFENSIVA:


Princípio: Posse e circulação de bola

Sub-Princípio: Equilíbrio Posicional = Amplitude e profundidade

Sub-Princípio de Sub-Princípio: Antecipação do pensamento pelo mapeamento tático da equipe = VELOCIDADE COLETIVA

Sub-Princípio: Técnica do passe e domínio.



Princípio: Mobilidade Ofensiva

Sub-Princípio: Zonas de Criação

Sub-Princípio de Sub-princípio: Utilização do espaço entre as linhas adversárias.


Princípio: Preparação para a Finalização

Sub-princípio: Momentos da finalização

Sub-princípio de Sub-princípio:

1- Abertura de espaços

2- Visualização dos espaços

3- Utilização dos espaços / passe

4- Finalização


TRANSIÇÃO DEFENSIVA:


Princípio: Pressão imediata a perda da posse

Sub-Princípio: Direcionamento da bola para a zona mais adequada a pressão.

Sub-princípio de Sub-princípio: Movimentação Diagonal



ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA:


Princípio: Compactação

Sub-Princípio: Fechamento de linhas e definição de bloco de pressão.

Sub-princípio de Sub-princípios: Aproximação e Equilíbrio entre as linhas


Princípio: Pressão

Sub-Princípio: Pressão zonal

Sub-princípio de sub-princípio: Definição do tipo de pressão nos 3 ou 4 setores do campo.

Sub-Princípio: Desarme

Sub-princípio de sub-princípio: Técnica do desarme.



TRANSIÇÃO OFENSIVA:


Princípio: Valorização da posse da bola e retirada da zona de pressão.

Sub-princípio: Mecanismos de saída

Sub-princípio de sub-princípio: Articulação intersetorial entre defesa e meio ou defesa e ataque.


A partir daí se repetem os momentos.



Bom, encerro aqui esta primeira parte, no próximo post coloco uma simulação de problemas apresentados no jogo, e um exemplo de morfociclo.



Abraço.

Luis Esteves



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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


OLIVEIRA, José Guilherme; Organização do jogo de uma equipa de Futebol. Aspectos metodológicos na abordagem da sua organização estrutural e funcional. PDF. 23 Páginas. Sem data.