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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CONVERSAS SOBRE FUTEBOL - JORGE MACIEL - 3ª PARTE

3ª e última parte da entrevista com o professor Jorge Maciel.

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36. Luis Esteves: Como o professor vê a questão da comunicação no dias da semana, faz sentido comunicarmos com os atletas de forma diferente a cada dia, por exemplo, terça-feira intervenções mais relacionadas a correções individuais, gestuais, quarta-feira ( em exercícios de maior choque como 3x3 , 4x4) intervenções mais agressivas etc..

Jorge Maciel: Isso vai de encontro a uma das questões anteriores. E eu respondo que a forma de comunicar também faz parte da arte. No entanto, compreendo a pergunta, pois poderá haver alguns aspectos que devo ter em consideração, mas muito pouco ao nível da forma e muito mais ao nível do conteúdo. Isto é, em função das prioridades que estabeleço para a sessão de treino a minha intervenção deverá, lá está, ao nível do conteúdo incidir dominantemente nesses aspectos sem que eu perca a sensibilidade para intervir em função do que está acontecer e como tal se assim se justificar intervir em função de aspectos que à partida não havia ponderado, mas que aconteceram e mereceram essa atenção e intervenção da minha parte. Como o faço, isso não acho muito relevante, sobretudo, não acho relevante que a forma de comunicar seja estabelecida á partida. Isso leva a uma teatralização e snobismo que são bem visíveis no modo de intervenção de alguns treinadores, torna a coisa pouco espontânea, muito forçada e para mim a intervenção no treino tem de ser algo natural, até porque eu nunca sei o que o processo no aqui e agora vai requerer de mim. Acho muita piada por vezes quando observo alguns treinos ver o modo como alguns treinadores teatralizam os seus gestos, as suas expressões, o modo como comunicam e as expressões verbais que usam. Muitas vezes é notória a necessidade de agradar, de treinar para a bancada. Há, quanto a mim uma confusão, torna-se o essencial acessório e vice-versa, pois mais do que passar a mensagem para os jogadores, o que de facto passa a ser relevante é passar uma imagem e uma mensagem aos adeptos e directores. E também acho curioso porque empiricamente noto que isso se reflecte no modo como as equipas se revelam em jogo, no caso dos treinadores espontâneos na intervenção há tendência para uma manifestação mais genuína, natural e espontânea dos desempenhos, é tudo muito menos forçado e postiço.

Quanto á variação da comunicação nos diferentes dias que compõem o Morfociclo, acho fundamental que o treinador tenha também ele um padrão na sua intervenção e conduta perante os jogadores. A identidade do treinador deverá também espelhar estabilidade no modo de intervir, ainda que aceite que possa e inclusive deva, ter nuances na forma de intervir nas diferentes unidades de treino e inclusive dentro de uma mesma unidade de treino se assim se justificar, pois sendo o contágio emocional uma parte relevante do processo o treinador não deverá ter uma postura neutra, pelo contrário deverá com a sua emotividade e sentimentalidade funcionar como um catalisador do que deseja.

Por isso, embora possa reconhecer que da configuração dos diferentes dias emergem diferentes interacções entre os jogadores, e consequentemente emergem deles também necessidades de intervenção diferentes ao nível da forma em termos de pormenor, o que de facto é relevante é saber gerir isso com sensibilidade de modo a que a forma de intervir seja condizente com aquilo que é o treinador, a realidade em que se encontra e fundamentalmente com as pretensões desejadas. Há aqui também, face á configuração de cada dia, uma espécie de propensão ao nível da tipologia da intervenção ou da forma de comunicar. Como é óbvio, se o exercício é mais individual não vai haver uma intervenção colectiva, o que não quer dizer que não haja advertências para as repercussões que aquilo pode ter a nível sectorial ou colectivo. A configuração padrão de cada dia potenciará, ou terá maior probabilidade para desencadear mais determinado tipo de intervenção, e o contrário também deverá suceder. Ou seja, a forma de comunicar e intervir deverá catalisar e criar uma determinada propensão para que a dinâmica desejada se verifique. Conforme é referido na pergunta a unidade de treino de quarta-feira contempla um conjunto de situações em que de facto o estorvo, o confronto, as disputas… estão mais implicadas. Mas pela própria configuração dos exercícios isso já vai, à partida acontecer e se eu conferir ao processo um carácter altamente competitivo ainda mais provavél é que assim seja. Por isso, se acontecer eu tenho é que não incendiar, se não acontecer aí sim incendeio, e para isso posso de facto ter uma postura, tom de voz, vocabulário mais agressivo ou qualquer outra coisa que eu ache que vai permitir fazer com que o que não está a acontecer, aconteça de facto. Há bocado dizia que não há receitas e aqui isso faz também todo o sentido. Ao reconhecermos que a realidade em questão é imprevisível, a nível micro, devemos reconhecer que esta é também uma dimensão que deve estar presente na sua treinabilidade, na gestão e na forma de comunicar em tal processo. Penso que isso, será inclusivamente potenciador da possibilidade de emergência da criatividade. Considero que quanto mais intuitiva a intervenção do treinador, mais ele estará receptivo ao que o processo lhe dá e mais rico e dinâmico o processo se tornará. Importa notar, que quando digo intuitiva tenho em consideração que essa intuição é balizada por uma Especificidade, e que é algo que pode ser aculturado tendo subjacente um conjunto de pilares coerentes dos quais emerge um padrão de intervenção e de comunicação igualmente coerente e congruente com a intencionalidade implicada no processo. Se estereotiparmos um conjunto de coisas previamente, tanto ao nível do que queremos em termos de aquisição como inclusive ao nível das estratégias de intervenção e comunicação, sobretudo se estas forem da esfera do plano mais detalhado - mais micro - não vamos estar receptivos a coisas novas que podem emergir, recusámo-las e aí a tendência para cristalizar é enorme. Aspecto exacerbado pelo facto de nos querermos impor, ou de impor a nossa ideia, aos jogadores, não partirmos dos jogadores na modelação do processo, adoptando uma postura autista partindo exclusivamente da nossa perspectiva, porque queremos o jogo e o processo que idealizamos sem ruídos nem estorvos, mesmo que esses aspectos, por vezes façam soar muito melhor a nossa música e a vão alimentando continuamente. O papel do treinador passa também por aí, identificar e perceber se as emergências de pormenor do processo são compatíveis e catalisadoras ou não do que deseja. Mas identificar e perceber também que por si só não chega, é fundamental intervir e comunicar em conformidade, como e com que meios?! Não sei, depende, e depende de muitas coisas. Isto é que se constitui de facto como a Fenomenotécnica do treinar.

37. Luis Esteves: Como o professor explica as intenções em ato e as intenções prévias?

Jorge Maciel: As intenções prévias têm a ver com o critério, com o que deve sobredertimar a interacção, portanto tem a ver precisamente com o plano intencional, tem portanto a ver com a representatividade daquilo que eu faço, é a dimensão simbólica que me leva a agir de determinado modo. As intenções em acto têm a ver com o plano da concretização, é o que se manifesta no fazer. Para tornar mais perceptível para a generalidade das pessoas, relembro a história do carro novo do meu amigo e vou acrescentar um exemplo que poderá tornar mais acessível a apreensão destes dois conceitos. Eu quando como, faço-o com a boca fechada e uso talheres para me alimentar, isto é o que eu manifesto quando estou numa refeição, é a intenção em acto. No entanto, eu só o faço porque a configuração axiológica em que cresci e a cultura em que me desenvolvi assim o sugere, e assim valora o acto de estar à mesa numa refeição. Mas eu quando nasci não o fazia, mamava, pegava nas coisas à mão, eram na altura as minhas intenções em acto, coisas que se fizesse agora publicamente motivavam que as pessoas olhassem para mim com estranheza e rejeição, porque a representatividade normalizada do acto de comer não tem a ver com esse tipo de atitudes, a intenção prévia generalizada não é essa. O que se verificou é que fruto de um processo de aculturação eu passei a comer de determinada forma, condizente com o contexto que me envolvia e envolve. E isso só foi possível porque me levaram a fazê-lo, me foram dando referenciais sobre como o fazer e porque eu observava os outros fazer. Curiosamente, no início o conflito é grande, sabemos que não devemos comer de determinada forma mas acabamos por o fazer, nessa altura experimentamos o período do estranhar, paulatinamente o conflito vai diminuindo e aquilo que quero fazer tem cada vez mais a ver com o que faço, até que depois o faço espontaneamente, como hábito. Aí já se entranhou, o mesmo é dizer, já se instalou a relação mente-hábito.

Isto para mim tem tudo a ver com treino, e muito precisamente com a questão colocada. Porquê?! Aquelas que eram inicialmente as minhas atitudes manifestas, intenções em acto, foram se alterando em conformidade com o quadro de valores que me envolvia. Eu fui contactando e indo modelá-lo em função dessa cultura, dessa intencionalidade colectiva partilhada, e que aqueles que me educaram tinham como intenção prévia para a minha educação. O treino visa precisamente fazer com que diferentes intenções prévias (as que cada jogador tem como suas), diferentes formas de viver e de sentir o jogo se tornem congruentes com uma única, que deve ser a do treinador (intenção prévia do treinador é a sua Ideia de Jogo). Ainda que a deste deva respeitar ou pelo menos ponderar aquele que é o património intencional, digamos assim, de cada jogador. O que se persegue no treino é tornar possível o emergir de uma intencionalidade comum, para que no fazer haja sintonia, complexificada pela necessidade de interacção, e da qual resulta a possibilidade de um número considerável de jogadores pensar em função da mesma coisa ao mesmo tempo. Tal estado de desempenho é possível quando se instala no organismo uma adaptabilidade que permite a manifestação concomitante da intenção prévia com a intenção em acto. Nesta espécie de fusão, aquilo que inicialmente era uma impostura passa a ser de facto uma postura, foi Incorporado. Isso é que é o desenvolvimento e no caso concretização de um saber fazer concomitantemente com um saber sobre esse saber fazer. O qual ao se manifestar, manifesta critério e sintonia colectiva, expressa-se sob a forma de ressonância empática partilhada e intencionalizada, que mais não é do que a manifestação sublime de um jogar de qualidade, sobretudo se esta fusão for manifestada com base em desempenhos de elevada qualidade e variabilidade de execução.

38. Luis Esteves: Como o professor gere a densidade de repetições na unidade de treino? Existe uma preocupação com isso na sua visão?

Jorge Maciel: Claro que isso deverá ser uma preocupação e vai de encontro à necessidade de recuperar e de respeitar os tempos de repouso de modo a que os jogadores possam continuadamente vivenciar o jogar, em treino e competição, sem índices de fadiga acentuada. Só deste modo os seus desempenhos poderão ser suportados predominantemente nos sistemas metabólicos que eu pretendo, nomeadamente com base no metabolismo anaeróbico aláctico, e consequentemente instalar pela incidência a esse nível, uma adaptabilidade condizente. Importa realçar que o termo repetições pode induzir algumas confusões que importa esclarecer. Desde logo pode levar as pessoas a pensarem na quantificação do dito volume de treino, e na Periodização Táctica isso não é relevante, porque o que nos interessa é um volume de intensidades, ou melhor dizendo um volume de Intencionalidades, portanto um volume de qualidade. Mas se mesmo assim, numa perspectiva mais quantificadora do treino quisermos determinar a densidade de repetições, pode fazer-se o seguinte raciocínio. O nosso treino não tem mais que 90 minutos, por isso em função do padrão da unidade de treino em questão estabelece-se uma determinada densidade subjacente àquele padrão de esforçar-recuperar que preencha esses 90 minutos, tendo em conta a maior ou menor continuidade ou descontinuidade do treino, o grau de assimilação do que se está a abordar e claro o grau de familiarização e de habituação da equipa ao jogar e ao processo. Temos de ter em consideração que a densidade não é sempre a mesma, porque se digo que adquirir passa por criar condições para adquirir então tudo isso pesa na gestão que faço da relação entre os desempenhos e a recuperação dos mesmos. Uma gestão que volto a frisar não é linear, e daí que respeite também a necessidade de Progressão Complexa.

Outro aspecto relativo à noção de repetição que importa esclarecer prende-se com o facto de que o que se repete, são configurações ou propensões para que surjam determinadas interacções que impliquem a manifestação dos critérios que queremos que suportem o nosso jogar, e não um conjunto de acções previamente determinados e fechados passiveis de mensuração. Trata-se portanto de uma repetição não fechada, mecanismos não mecânicos, que contempla variabilidade e imprevisibilidade na concretização e no que a motiva em termos de pormenor, apesar de paradoxalmente essa variabilidade estar suportada e balizada por uma regularidade que lhe dá sentido, o nosso sentido. Esta noção de repetição do que acontece é probabilística, e deverá tender para o que pretendemos, isto é para interacções que tornem mais provável a ocorrência de determinadas acções ou interacções. Não são portanto repetições no sentido convencional do termo e como tal não haverá, na concretização, duas acções ou interacções iguais, ainda que o critério das mesmas deva ser semelhante e estar sobredeterminado por aquilo que é a nossa intencionalidade colectiva.

39. Luis Esteves: O professor Frade diz que o treino é como uma Moeda, tem o lado da aquisição e o lado da recuperação. Como ter o feeling de estar em recuperação e estar em aquisição no treino?

Jorge Maciel: Não diz isso, diz algo mais profundo que isso. A metáfora da moeda vai além disso, o professor diz que são duas dimensões da mesma face da moeda, ou seja elas têm uma implicação recíproca e como tal têm de ser equacionadas e operacionalizadas conjuntamente, e portanto estabelecer desde logo esse dualismo “estar em recuperação e estar em aquisição” deixa de fazer sentido. Penso que a dificuldade das pessoas perceberem o que acabei de dizer resulta de um problema de categorização, diria sem categoria, porque é redutora. Passo a explicar, geralmente para as pessoas só há preto ou branco nunca cinzento. E isto resulta das pessoas colocarem as coisas em lugares estanques, o que as leva a pensar que ou se está em recuperação ou em aquisição, e na Periodização Táctica não é nada disso, porque se o problema é complexo eu tenho de o equacionar de forma complexa o que passa por necessariamente perceber a relação entre as coisas, e levá-las a efeito de forma conexa. E de facto tenho notado que o grande desafio da complexidade passa precisamente pelo que referi, por as pessoas categorizarem de forma diferente a realidade, percebendo que a interacção é possível e necessária entre realidades aparentemente, ou culturalmente assumidas como opostas. Um passo importante passa portanto por uma concepção mais flexível do modo como categorizamos as coisas, só assim faz sentido falar em inteireza inquebrantável. E isto vale para o modo como concebo o meu jogar mas também para o modo como concebo o processo de treino e o operacionalizo. A categorização deve ser entendida a quatro dimensões, porque a dimensão temporal assume muita relevância. Vamos a um exemplo muito concreto e fácil de perceber. Para mim a categorização tem a ver com isto; pede-se às pessoas que perante um conjunto de músicas façam duas playlists (no fundo duas categorias), uma com as músicas preferidas e outra com as que não gostam. Isto vai criar desde logo uma dificuldade que passa por onde meter músicas que eu até gosto mas não o suficiente para serem as minhas preferidas e onde colocar aquelas que não gostando até tolero e admiro (aquelas que nunca compraria, mas que se estiverem a passar na rádio eu ouço)?! Esse é o problema do branco e do preto sem existência de cinzento. Mas há outro problema e que tem a ver com a temporalidade, passados alguns anos relembram-nos da seriação que fizemos, e damos por nós a pensar, «como é possível, eu gostava daquela música pirosa, era a minha preferida» ou então, «como é que eu dizia que isto não prestava?!». Quero com isto salientar que o processo de categorização é altamente dinâmico, requisitando por isso de articulação na relação entre as diferentes categorias e uma percepção dinâmica do modo como essa relação se processa no tempo. Além disso devemos ter consciência que determinada coisa pode estar implicada em mais que uma categoria, e isso é muito relevante no modo como concebemos o jogo e o sistematizamos, porque passa por reconhecer que determinados princípios são relevantes num determinado momento, mas também o são noutros, ou que um subprincípio ou subsub pode alimentar mais que um princípio de determinado momento. Portanto é fundamental, para se entender a Periodização Táctica que se perceba a profundidade da conexão entre as coisas e não estabelecer compartimento rígidos entre o que constitui a realidade.

É partindo desse pressuposto que faz sentido dizer que o treino e recuperação não são duas faces da mesma moeda, mas antes como afirma o Professor Vítor Frade, que são duas dimensões da mesma face da moeda. Não se está em recuperação ou aquisição. Há um termo que quando utilizado pode parecer um preciosismo linguista, mas na verdade não é. Trata-se da utilização da palavra dominantemente. Quando falamos em realidades padronizáveis e só assim passiveis de serem quantificáveis, o uso desta palavra é fundamental. Muitas das vezes quando há referência à dinâmica implicada em cada dia do Morfociclo devemos ter esse cuidado, ou seja, a tendência é para que a contracção muscular tenha uma maior propensão para determinada configuração, o que não quer dizer que as outras dimensões que caracterizam a contracção muscular não estejam a acontecer em simultâneo. Estão mas de forma menos relevante, ou até residual, ou seja de modo não dominante relativamente ao padrão de contracção muscular mais implicado em determinado dia. E este mesmo pensamento se aplica à questão colocada, isto é, dominantemente estamos num treino de recuperação ou de aquisição, mas não exclusivamente num ou noutro, porque todos os dias são dias de recuperação e de aquisição. Não podemos absolutizar, embora tenhamos que saber que a predominância nuns dias recai mais sobre a aquisição e noutros na recuperação. Em suma, inclusive nos treinos de aquisição tenho preocupação em recuperar, por isso a descontinuidade é uma determinada em função do padrão de desempenho dominante e por isso estou sempre a “afinar porcas e parafusos” como diz o professor Frade. Do mesmo modo, inclusive nos treinos de recuperação, ou seja, em que a enfâse tem tal propósito eu não deixo de actuar no sentido de induzir consistência ao que tem vindo a ser adquirido, porque inclusive defende-se que para recuperar devo estimular o que me levou a fatigar, como tal estou a incidir sobre o meu jogar, ainda que o faça em níveis de complexidade reduzidos, e quanto mais não seja, estou a garantir que pelo que faço estou a criar condições para adquirir.

Depois relativamente ao modo de gerir isso e de o operacionalizar, é de facto muitas vezes um feeling. A dosagem do processo e o estabelecimento das prioridades emergentes a cada instante têm de ser equacionadas com muita intuição. Aí entra a Arte dos treinadores, é um dos modos de expressão ou não, do Sentido da Divina Proporção. Eu devo reconhecer que há indicadores indirectos, detectáveis a olhómetro, que me permitem perceber os estados de fadiga da equipa ou dos jogadores, nomeadamente o maior número de desacertos, maior desconcentração, lentidão a decidir e descoordenação a executar, falta de mobilidade dos jogadores sem bola, jogadores que se escondem, retardamento no timing de execução, reactividade no que fazem, a impossibilidade de antecipar e não menos relevante os próprios comentários e as expressões que manifestam indicam muito sobre o modo como se sentem. Tudo isto, e não só, são aspectos que permitem detectar o estado de fadiga ou de frescura apresentado pela equipa, ou nalguns casos por alguns jogadores, e isso também é muito importante, perceber que nem todos reagem de igual modo à fadiga por exemplo devido às diferenças de idades, pelo historial de treino, por possíveis paragens que possam ter tido recentemente… E quando detectamos que a equipa ou alguns jogadores se encontram num estado que não permite condições para adquirir, aí a prioridade passa a ser criar condições para adquirir, isto é, passa a ser recuperar. Claro, como dominância.

40. Luis Esteves: Alguns jogadores tem a habituação do treino analítico como guia na metodologia do treino, principalmente com treinos especificamente físicos com baixa relação com o jogo, como “convencer” estes jogadores que esta não é a melhor forma para ter seu melhor rendimento?

Jorge Maciel: Essa é uma questão muito pertinente, e do modo como eu lhe respondo perante um contexto habituado a metodologias convencionais pode ser determinante para o meu sucesso nessa realidade. Trata-se de uma questão muito sensível que requer da parte do treinador muita sensibilidade e muita convicção na sua forma de treinar, porque se vacila e não tem consistência no que faz a tendência é para seguir o instituído, ou não seguindo, fazer uma mistura e acaba nem por seguir coerentemente uma forma de treinar nem outra. Perante um possível cenário como o evidenciado na questão o treinador tem de perceber que os jogadores são pessoas, e como tal têm uma história que pela continuidade com que foi sendo marcada, foi incorporada e como tal exerce um peso enorme sobre aquilo que as pessoas são, pensam e fazem. O Professor Vítor Frade nestas situações usa de forma feliz a metáfora do café com leite. O objectivo é salientar que sendo a nossa pretensão colocar os jogadores a beberem leite (representa a Periodização Táctica), sem que a motivação deles vá nesse sentido, porque querem e estão habituados a café (metodologia convencional), a passagem do café definitivamente para o leite deve fazer-se de forma gradual. Isto é, sabendo que o leite tem pouca aceitação, fruto da habituação e da crença generalizada relativamente ao café, o treinador sente necessidade de atender a isso sem deixar de ter a pretensão de os habituar ao leite, mas ao mesmo tempo tendo a sensibilidade para que a passagem não se faça de forma conflituosa pela não habituação. Este é um aspecto muito importante, uma vez que tudo que implica alteração de hábitos cria em nós desconforto, desconfiança, estranheza e inicialmente até mau estar, por isso é que o treinador deve ponderar até que ponto faz sentido passar do café para o leite, sem que haja uma espécie de desmame. Se ele tem consciência disso, e se sabe que o estatuto que ostenta, porque ainda não ganhou nada significativo por exemplo, não lhe permite romper de forma inequívoca e passar directamente para o leite, é uma atitude reveladora de inteligência ir paulatinamente adicionando ao café um pouquinho de leite, e pouco a pouco cada vez mais leite, mas estando sempre atento á reacção que a mistura desperta nos jogadores. Tem de perceber como se processa a aceitação. Esta metáfora do café com leite, no fundo tenta de forma disfarçada retratar aquilo que se constitui como um processo de desmame, ou seja de desabituação. Tenho referido que que na aquisição de um jogar, o treinador deve partir dos jogadores para que estes assimilem as suas ideias, o mesmo é válido para nestas situações em que querem mudar, não a nível da concepção de jogo, mas a nível metodológico. Ou seja, tenho de perceber o que eles têm, para que assim possa perceber como os trazer para o que desejo em termos de operacionalização do processo. No entanto, importa realçar que esse desmame, essa passagem do café para o leite, deve fazer-se já tendo em consideração a lógica metodológica que pretendo implementar, ainda que por vezes com conteúdos marcadamente mais ligados com o café do que com o leite. Ou seja, a lógica metodológica deve obedecer aos pilares do leite, o modo como a levo a efeito, disfarçadamente, é que pode contemplar conteúdos mais analíticos. Conteúdos que devo saber misturar com o leite, mas lá está, sem misturar a lógica metodológica, e que devem ser irrelevantes ao nível da adaptabilidade que poderão induzir nos jogadores, para que não se constitua como estorvo àquilo que considero essencial. É uma gestão difícil de facto, mas necessária.

Passando a um exemplo hipotético, imagine-se que chegamos a um clube onde o culto do fisicismo está muito presente e até com alguns resultados. Nesse caso o que é que se pode fazer?! Desde logo estar sensível para perceber isso. Mas como operacionalizar o processo sem fugir do que desejamos, em termos de lógica, e sem conflituar com o que naquele contexto é cultural?! Podemos por exemplo durante a sessão de treino levar a efeito algumas coisas de que eles pensam sentir necessidade, mas com dosagens muito insignificantes. Por exemplo, faço uma situação jogada, e depois de recuperarem fazem umas corridinhas. Ou então por exemplo, num treino típico de quarta-feira, levo a efeito situações de jogo que cumpram com o que pretendo em termos de jogo, e no aquecimento, ou entre exercícios ou no final realizo algumas situações mais analíticas onde a dominância ao nível do aumento de tensão da contracção muscular esteja presente. Eu tenho que ser é inteligente e criativo para lhes dar o que eles ainda necessitam, e ao mesmo tempo criar pelo fazer uma habituação ao processo o mais condizente possível com a que desejo. É um desafio muito engraçado, porque nos obriga a engendrar formas de o fazer, mas ao mesmo tempo pode ser um processo que nos torna mais próximos dos jogadores, porque nos obriga a percebê-los. E além disso, muitas vezes para os percebermos comunicamos com eles e tomamos consciência do motivo pelo qual aquilo para eles faz sentido. E claro em função disso, tentamos desmontar tal necessidade, conversando com eles, dando-lhes a conhecer uma realidade que desconhecem e sempre que possível servindo-nos de exemplos que vão acontecendo e que lhes são próximos. Esse é um aspecto muito importante. Por exemplo, imagine-se que temos um jogador na equipa com habituação ao treino convencional, e que tem contacto regular com outros jogadores, nas selecções por exemplo, que já treinaram segundo a Periodização Táctica, poderá ser pertinente incitá-lo a falar com esses jogadores no sentido de desmontar a sua crença.

Em suma, penso que esta questão requer da parte dos treinadores muita sensibilidade, criatividade, e fundamentalmente muita competência e não menos importante, resultados. Os resultados são determinantes para a adesão. Por exemplo na última experiência que tivemos na Líbia, foi também muito relevante a este nível. A equipa estava habituada a uma metodologia de treino convencional e culturalmente, por influência de treinadores egípcios e brasileiros fundamentalmente, o treino dito físico está muito enraizado na generalidade das equipas e inclusive nos comentários dos adeptos. Quando lá chegamos só ouvíamos dizer que a equipa estava mal fisicamente, que tínhamos que “treinar o físico”, porque um dos problemas da equipa era determinados jogadores não conseguirem fazer um jogo completo, e um dos mais acérrimos defensores desta ideia era o nosso tradutor. E no fundo espelhava o que pensava a generalidade das pessoas. Mas nós não demos ouvidos ao que se ia dizendo e desde sempre treinamos como desejávamos, embora respeitássemos algumas coisinhas sempre que os jogadores solicitavam. Por exemplo, no final do treino havia um jogador ganês que não estava a jogar quando chegamos e que me pedia para dar umas corridinhas ou para fazer com ele algumas acções explosivas, e eu ficava com ele. Fazíamos coisas com pouca densidade e enquanto recuperava aproveitava para conversar com ele e explicar-lhe que se treinasse bem, não tinha necessidade de o fazer. Fazia-lhe perceber que onde ele tinha de correr é nos exercícios de treino e não no final e que se o fizesse, fazia-o de forma muito mais condizente com que o jogo requisita. Passado pouco tempo deixou de o fazer e reconhecia que estava melhor do que nunca. Portanto, apesar de termos sensibilidade para estes pormenores, e tentarmos a partir deles sensibilizá-los para a não necessidade dos mesmos, desde o início treinamos como pensávamos que devíamos. Tínhamos conversas entre nós, equipa técnica, onde comentávamos o quanto os jogadores estranhavam sair do treino sem estarem a morrer, e no dia seguinte estarem bem para voltar a treinar. Para o jogador sentir-se assim é estranho, e acredito que para muitos desconfortável, por norma o jogador tem de sair do treino morto, para sentir que treinou. Isto tem um peso incrível. Não raras vezes no início do treino falávamos com eles para tentar perceber como estava a ser a adesão a esta forma de trabalhar e como eles se sentiam. Era curioso reparar que inicialmente os jogadores diziam que estavam bem e gostavam, mas nós sentíamos que dizendo-o com sinceridade, evidenciavam muita estranheza e desconfiança. Felizmente podíamos usar um argumento válido, ou talvez o mais válido, é que o Baltemar Brito, ainda que como adjunto, já tinha ganho muitas coisas a treinar desse modo, e dizia-lhes precisamente isso. Isto pode parecer um pormenor, mas não é, a adesão é muito mais fácil quando se chega a um lugar com uma história de vitórias. Se quando nos contratam, os jogadores nos olham e dizem «com este eu vou ganhar», eu praticamente posso passar do café para o leite. Mas voltando à Líbia, depois de lá estarmos dois meses, estávamos já em primeiro lugar com vantagem considerável para o segundo, tendo uma densidade competitiva muito maior que as outras equipas, sem ter qualquer derrota, com os jogadores que não aguentavam um jogo completo a jogarem noventa minutos, e jogando bem… em mais uma conversa com os jogadores onde abordamos o como se sentiam, voltaram a referir que estavam muito bem, mas receavam que o facto de treinar desta forma e de treinarem pouco, segundo eles, lhes poderia ser prejudicial no futuro. Receavam não aguentar o mesmo nível ao longo da época. Estavam naquela situação em que se costuma dizer que «quando a esmola é grande o santo ou pobre desconfiam». Mas este episódio é, pelo menos para mim, muito relevante e identificador do quanto estas coisas pesam nos jogadores e no quanto é difícil desconstruir tais crenças, o que consequentemente requisita da nossa parte de grande sensibilidade.

41. Luis Esteves: O professor Frade diz que a Periodização Tática pode ser aplicada a “70%, 80% 90%”. É adaptável as situações contextuais, o que o professor acha disso?

Jorge Maciel: É preciso perceber bem o que se quer dizer com isso. Na questão anterior torna-se evidente que muitas vezes nos confrontamos com realidades que se afastam daquela que é a realidade ideal para desenvolver o processo do modo como entendemos ser mais ajustado. E essas questões, habituação dos jogadores, a história do clube associada a vitórias treinando de determinada forma, ou até a cultura de treino de um país, assume um peso enorme sobre o modo como se vai concretizar o processo e deverão ser aspectos que eu terei que ponderar com sensibilidade. Se não atender a esses condicionalismos contextuais poderei não estar a ser muito inteligente e inclusive poderei estar a dar tiros nos pés. Daí que eu possa ter necessidade de disfarçar o processo com algumas coisas, que poderão de uma forma superficial e perspectivadas de fora, parecer mais conotadas com o treino mais analítico. Que de facto talvez me afastem dos 100%, mas no entanto, para mim que estou por dentro do processo sei que se trata de uma opção deliberada para poder ganhar espaço entre, os jogadores, direcção, adeptos, e no caso de ser adjunto ganhar espaço relativamente ao treinador, para que depois sim, estando consolidado esse espaço eu possa estar nos 100%. Muitas vezes as pessoas esquecem-se que também esta conquista de espaço digamos assim, ou de aceitação relativamente a uma realidade transgressora, se constitui como um processo que como tal é levado a efeito num contexto que sobre ele exerce muita preponderância. À medida que a aceitação vai crescendo eu vou puxando a realidade para o que desejo, tal como sucede na aquisição de um jogar, isto é, parto com a minha ideia, mas parto da realidade para a concretizar e paulatinamente vou tentado-a aproximar àquilo que eu acho que deve ser a realidade. Mas há nesta estratégia metodológica alguns aspectos muito relevantes, daí que tenha advertido para o facto de ser necessário perceber a profundidade das palavras do Professor quando afirma que a Periodização Táctica pode ser operacionalizada a 70, 80… 100%. Desde logo importa ter em consideração que o que direcciona o processo é o que se faz dominantemente, por isso, o que se faz em termos de disfarce, isto é aquilo que aparentemente é mais convencional, deve ser o suficiente para parecer ilusório, mas simultaneamente suficientemente insignificante para que não se constitua como relevante. Ou seja, o grosso do processo deve ter o viés que queremos dar ao processo, pois é em função disso que a adaptabilidade se instala. Por outro lado, e não menos importante temos de reconhecer que independentemente do grau, para que seja de facto Periodização Táctica, não podemos esquecer que o processo deve respeitar uma determinada matriz metodológica, a da Periodização Táctica e que é composta por Princípios Metodológicos únicos. Depreende-se assim que a lógica processual deve estar a 100%, o modo como é operacionalizada é que pode ter maior ou menor necessidade de conteúdos à partida desnecessários, mas que o contexto requisita e justifica, ou ainda por insuficiência do treinador ao nível da concretização do processo. Claro que quanto mais próximo dos 100% for o modo de a operacionalizar melhor e também mais rapidamente se conseguem os intentos desejados, mas por vezes é preciso contornar muitas coisas com sensibilidade e com o cuidado de aquilo que é potencialmente “ruído”, e nos afasta dos 100%, não interfira negativamente no que se considera essencial, por isso é que o Modelo é tudo. Muitas vezes as pessoas vão ver treinos e dizem que afinal é tudo a mesma coisa, quando na verdade não é, mas dizem-no porque não ponderam o porquê das coisas, nem tão pouco o teor do que se fez e muito menos o que o envolve. Vêem fotos e fazem um filme descontextualizado, sem necessariamente contemplarem a temporalidade implicada naquele processo, por isso não perspectivam o que está antes e o que se perspectiva vir a estar depois para que o presente tenha aquele sentido.

O que importa perceber é que independentemente da percentagem é fundamental que a lógica, que a matriz metodológica seja cumprida a 100%, o modo como é levada a efeito é que poderá ser mais ou menos adequada, mas aí também depende da arte ou criatividade dos treinadores para criarem exercícios que visem os propósitos desejados respeitando as subdinâmicas implicadas em cada dia de treino. Para que se perceba, quando me refiro ao modo, quero salientar que podendo ser mais jogada ou não, com maior ou menor complexidade intrínseca, a matriz metodológica deverá estar sempre presente, senão não é Periodização Táctica. Costumo dizer, e espero não ser mal interpretado, que para aqueles que estão a 100% na Periodização Táctica ou próximos disso, a quarta-feira é dia dos sub e subsubprincípios em regime de dominância de contracção muscular em tensão, a quinta-feira é dia dos grandes princípios em regime de dominância de contracção muscular em resistência e a sexta-feira é dia dos sub e subsubprincípios em regime de dominância de contracção muscular em velocidade. Enquanto que para os que estão em percentuais mais abaixo esses dias são muito mais dias de tensão, de duração e de velocidade.

42. Luis Esteves: Como o professor entende na formação a hierarquia de valores, o que deve-se ter como preocupações no processo formativo dos clubes?

Jorge Maciel: Penso que a prioridade nos processos de formação deverá ser criar jogadores que possam servir à primeira equipa. O problema é que não raras vezes a prioridade passa por criar equipas, para ganhar competições durante os anos de formação. Eu penso que não será impossível conciliar ganhar com criar jogadores de qualidade, acho até mesmo que essa deve ser uma pretensão. Por isso quando me refiro a criar jogadores, é tentar fazê-lo em contextos colectivos de qualidade, o que requer uma concepção de jogo de qualidade, qualidade de treino e como tal bons treinadores. Há um pormenor muito interessante que quanto a mim reflecte o modo como os clubes pensam, ou melhor não pensam a formação e a relação que esta deve ter com a realidade sénior. O pormenor passa por a generalidade dos clubes terem os chamados departamentos de formação, sem estarem englobados no dito departamento de futebol, é um pormenor, mas muito revelador da separação existente entre estas duas realidades que deviam ter um fio condutor único, e verificável a nível da concepção de jogo e também a nível da metodologia de treino. Mas infelizmente são muito poucos os casos em que tal se verifica, mesmo que alguns dos poucos sejam casos de sucesso. A generalidade dos clubes prefere investir continuadamente em jogadores que não sentem, nem estão aculturados á realidade dos clubes, em vez de criar condições e proporcionarem aos jovens da formação condições para integrarem com sucesso a equipa principal. Parece que a formação existe apenas para não parecer mal não ter, e para justificar a utilidade e vertente social dos clubes, muitas vezes mascarada pelo desejo de usufruir de verbas extra a investir, de forma desviada, na equipa sénior. Penso que é um contra senso pensar-se que se assim for os benefícios, mesmo os financeiros são maiores. No imediato talvez, e talvez alimente a ânsia de dinheiro de muita mais gente, mas a médio ou longo prazo não penso que seja assim, porque o investimento elevado na formação, acima de tudo depende de qualidade de ideias e da qualidade das pessoas para o levar as efeito, e o retorno poderá ser muito grande. Porque o clube se tornará auto sustentável e poderá inclusive rentabilizar essa concepção de formação com a venda e constante valorização de jogadores provenientes de tais processos.

Penso que paradoxalmente a enfâse nos processos de formação deve centrar-se nos jogadores, e mais concretamente se possível em conformidade com o tipo de jogadores que queremos formar, o que implica que os clubes definam o que pretendem em termos de jogadores para as diferentes posições. É importante definir perfis padronizados de jogador para as várias posições, e fazê-lo tendo subjacente uma determinada intencionalidade relativamente à forma de jogar, para que os perfis sejam condizentes com o que o jogar implica. E os perfis não podem ser considerados como imposições, nem como verdades absolutas, porque se o talento tem, como acho que tem, muitas formas de se manifestar a padronização nunca poderá estar fechada à possibilidade de contemplar jogadores que fugindo dos perfis à partida estabelecidos se evidenciem de facto como mais-valias. Os perfis são referenciais gerais, que devem ter significado para quem treina na formação e não menos importante para quem detecta talentos. No meu entendimento para se formar jogadores de qualidade importa reconhecer como essa qualidade se pode manifestar e reconhecer que a variabilidade como se poderá expressar implica que tenhamos uma visão abrangente daquilo que é um talento. Infelizmente penso que os olhos com que se vêm o talento nem sempre são os melhores, nota-se claramente, pelo menos em Portugal, que nos escalões de formação há uma predominância para a selecção se fazer com base em critérios morfológicos e nos desempenhos físicos dos jogadores, em detrimento de aspectos que de facto a Top fazem a diferença, como a inteligência, a qualidade posicional, a capacidade para antecipar, o modo de interagir o critério com bola e sem bola, a relação com o jogo e com a bola… Claro que isto é mais exigente do ponto de vista de quem detecta talentos e de quem os treina, não há nada que permita quantificar a não ser o olhometro e a sensibilidade de cada um. Mas infelizmente os talentos são não raras vezes seleccionados a metro e a quilo, os jovens mais avançados maturacionalmente têm grandes vantagens ao nível das oportunidades que lhes são conferidas, porque os treinadores apenas contemplam o que cada um revela no imediato e não o que poderá vir a revelar futuramente. Não entendem que o talento é uma realidade em potencial, por isso optam por dar primazia nas escolhas a jovens que são mais corpulentos, por serem mais eficazes no imediato. Estes jovens acabam também por ser prejudicados, pois muitos deles tendo potencial para muito mais, habituam-se desde muito cedo a viciar o seu jogo, suportando-o quase exclusivamente nas suas vantagens morfológicas e físicas, não desenvolvendo por isso outras formas de dar respostas ao que o jogo coloca. Não admira por isso que muitos destes jovens, que se destacam até por volta dos juvenis depois percam a sua relevância, dando lugar a jovens até então preteridos, porque as vantagens maturacionais que até então apresentavam e que lhes permitiam ser mais eficazes deixaram de existir, e face à dependência que criaram devido ao suporte de um registo de jogo assente no fisicismo, não conseguem desenvolver nem evidenciar outros atributos. Perdendo assim espaço para os demais, que inicialmente em desvantagem por serem morfologicamente e do ponto de vista físico mais débeis, passam esbatidas as diferenças maturacionais a ser os melhores sucedidos por apresentarem soluções de outra ordem, são mais perspicazes e apresentam maior variabilidade nos seus desempenhos. Infelizmente, nem sempre estes acabam por sobressair, em muito devido à exacerbação da dimensão física nas concepções de jogo da generalidade das equipas, e também na contemplação disso como dominante nos processos de selecção de jogadores e nos processos de treino. Nesse caso sobressaem os guerreiros, os abnegados perpetuando desse modo o mito dos atletas, e não necessariamente os futebolistas de qualidade, os talentos inteligentes. Acho incrível como é que no futebol um dos critérios de selecção na formação possa ser o tamanho. Um critério de selecção que é simultaneamente de exclusão. Dói pensar quantos possíveis talentos, não o chegaram a ser por causa desse disparate. E é mesmo um disparate, porque se olharmos para a história do futebol mundial, há de tudo mas curiosamente muito poucos são os que pertencendo a essa elite perfazem o perfil morfológico que muitos procuram. Além disso penso que se pedirmos aos jogadores de Top do futebol mundial do presente e do passado que se reportem às respectivas infâncias, e reconheçam aspectos que os fizeram ser os jogadores que foram ou são, verificamos que o que faziam tinha fundamentalmente a ver com jogar futebol e muito pouco com o que se faz em muitos clubes, e que se faz claramente do espírito e dos conteúdos que se viviam no futebol de rua.

Portanto em síntese penso que o essencial na formação passa por cada clube assumir para si o compromisso de formar para si, mas para tirar proveito, depois terá de perceber o que quer e treinar em função disso, reconhecendo que se aprende a jogar jogando e se possível ganhando para que o habito de vitória esteja presente e se instale como cultura. E essa aspiração penso será tanto mais possível quanto melhor identificados forem os talentos, e quanto mais a evolução destes se verificar em contextos colectivos de qualidade pois é isso que potencía simultaneamente jogares e jogadores.

43. Luis Esteves: O que é jogar bem na sua concepção?

Jorge Maciel: O que é jogar bem, aí está algo com uma polissemia muito grande. O que torna ainda mais pertinente a questão e fundamentalmente cada um, face à pluralidade que tal pode representar, ter bem presente o que é para si um jogar de qualidade. E para mim há pressupostos básicos na identificação ou construção de um jogar de qualidade. Desde logo tenho de reconhecer que o futebol é uma modalidade colectiva, e como tal toda a dinâmica deve assentar na interacção colectiva, de forma organizada e coerente para que a funcionalidade manifesta seja de facto suportada por referenciais colectivos e se manifeste de forma fluída e harmoniosa. Depois não me posso esquecer que o futebol tem um objectivo muito claro, que é ganhar, e para ganhar eu tenho de marcar mais golos que o adversário, por isso o jogar bem tem como pretensão o desejo de atacar. Mas como, atacar por atacar?! Claro que não, para atacar com qualidade eu tenho de manifestar uma dinâmica colectiva que me permita fazê-lo tendo em consideração a existência dos diferentes momentos de jogo. Ou seja, apesar da intenção ser atacar com qualidade a equipa deve estar organizada nos diferentes momentos, para que esse desejo esteja sempre presente, e para que ao acontecer eu tenha em consideração o jogo todo, isto é possibilidade de estando com bola a perder, a possibilidade de quando a perder ou ganhar perceber o que o jogo exige e ainda quando sem bola defender tendo em vista a possibilidade de atacar. Portanto sendo o objectivo claro vencer, e com um futebol dominantemente de ataque, é fundamental que a equipa revele uma identidade colectiva que manifeste organização e congruência com os meus intentos. Além disso, esta identidade colectiva, não deve ser castradora, por isso deve permitir que cada singularidade que para ela contribui se expresse como um acrescento qualitativo ao todo, e simultaneamente se potencíe como parte nesse mesmo todo organizado. Isso, tal como nos diz a teoria da complexidade só é possível se o todo for organizado, o todo organizado é mais que a soma das partes.

O Professor Vítor Frade refere-se ao trinómio Estética Eficácia e Eficiência como o cerne do jogar de qualidade. E de facto assim é, a articulação bem conseguida entre estes três aspectos é determinante, é da melhor ou pior consecução do mesmo que emerge respectivamente um jogar de maior ou menor qualidade. Conforme referi, no futebol há claramente um objectivo claro, vencer, ser eficaz portanto, mas perseguir esse intento deve despertar em quem joga e em quem vê jogar um determinado impacto e essa é a dimensão estética que o jogar deve contemplar. Além disso todos estes aspectos devem ser alcançados tendo por base uma identidade própria, a dimensão da eficiência tem a ver com esse apego a uma intencionalidade capaz de se manifestar regularmente e de forma a dar resposta satisfatória aos problemas colocados pelo jogo. A concretização deste trinómio é bastante complexa e difícil também, porque por vezes a interferência sobre uma das dimensões poderá ter implicações muito significativas nas demais. E uma vez mais, a calibragem de tudo isso faz parte da mestria do treinador. Não obstante da necessidade de pontualmente o treinador ter de aferir para tornar bem sucedida esta relação, penso que o jogar de qualidade se expressa pela seguinte máxima do Professor Vitor Frade e resulta do equilíbrio, feito nos limites entre “máxima redundância (a nível macro – Princípios de Jogo) e máxima variabilidade (a nível micro – plano dos detalhes) ”. Conseguir isto é aspirar à concretização do futebol elevado á sublimidade, mas implica um equilíbrio altamente dinâmico entre atacar defender e passar de um para o outro, fazendo-o na fronteira do caos tanto a nível colectivo como individual, pois é isso que me vai permitir não perda de identidade pela “máxima redundância” e não perda de criatividade pela “máxima variabilidade” de manifestação e de concretização ao nível das diferentes escalas que compõem a equipa aquando da tentativa de materializar tal identidade. Se assim for, e não é nada fácil, as equipas serão dominadoras e controladores, e fundamentalmente organizadas, capazes de entusiasmar multidões e de vencer com maior regularidade. No entanto, tudo isto é muito fácil, ou relativamente fácil de dizer, o pior é como, isto é, com que identificação a suportar esse jogar bem. O que é que eu reconheço como jogar bem e de que modo eu detecto o que num jogar bem é de facto relevante. Por exemplo, posso dizer que gosto do Barcelona a jogar, mas saberei o que o torna único?! Para uns o que o torna diferente é a qualidade individual dos seus jogadores, são os dribles do Messi, as chuteiras da marca x…, para outros, sendo isso relevante, só é possível ou melhor só é potenciado, pelo facto da equipa apresentar uma identidade colectiva única, da qual emerge uma dinâmica determinada assente em referenciais colectivos que potenciam a identidade colectiva e manifestação de cada jogador. Depois e não menos importante, além da necessidade de identificação com o que se constitui como fundamental no rendimento de uma equipa, e no caso aquilo que lhe permite estar e manter-se a TOP, há que saber como parir isso, como conseguir levar isso a efeito e como treinar para o conseguir fazer. Esse é sem dúvida o maior desafio do treino, é mesmo a sua essência.

44. Luis Esteves: Todos queremos ganhar, mas para o professor o processo inicia aonde? Jogar bem ou ganhar?

Jorge Maciel: Quando se está a um determinado nível, ou se calhar independentemente do nível a que se está, vencer é uma prioridade, quando se contrata um treinador o propósito é óbvio, «estás aqui para ganhar, se não ganhas… vida difícil». O treinador lida permanentemente com este desafio, ganhar sempre e mais que os outros. Depois, do mesmo modo que há muitas formas de treinar, haverá também muitas formas de ganhar, apesar de eu ser mais adepto de umas do que de outras. O que me intriga é ver que esta dicotomização, “ganhar ou jogar bem”, se perpetua e influencia as pessoas. Trata-se de um reforçador cultural que pesa muito negativamente na cabeça dos adeptos, dos treinadores, dos directores e dos jogadores, e que faz transparecer a ideia que conciliar jogar bem com ganhar é impossível. E isso é uma estupidez, temos provas mais do que evidentes de que assim é de facto. Veja-se por exemplo os recentes exemplos da Espanha e do Barcelona, vencem e não o fazem a jogar bem fazem-no a jogar muito bem, superiorizando-se de forma categórica e regularmente à generalidade das equipas. O facto de as pessoas não ponderarem esses dados tão evidentes, assim como o facto de não ponderarem que a generalidade das equipas joga mal, logo ser desse grupo que saem os vencedores, reforça a ideia de que para ganhar é preciso jogar mal. Mas não é preciso, como mostram os exemplos da Espanha e do Barcelona, ou até mesmo dos vencedores mais recentes do campeonato português, o Benfica venceu na época anterior a jogar bem, e o FC Porto este ano ganhou a jogar muito bem, por isso superiorizou-se em Portugal e na Europa. Importa desmontar a ideia que jogar mal compensa. O processo inicia por aí, e continua com a necessidade de se ter uma ideia sobre como queremos jogar, para jogar bem e vencer.

Agora indo de encontro ao que referi em cima, aquilo que persigo é tornar exequível o trinómio Estética Eficácia e Eficiência, mas claro que isso tem de ter em consideração o meu contexto. Por isso quando chego a um determinado contexto eu tenho de perceber muito bem onde estou e até onde posso ir, para em função disso estabelecer as minhas prioridades imediatas e a mais longo prazo. Portanto a hierarquização também passa por saber onde estou e qual a minha margem, e isso pode pesar no modo como eu articulo ou dinamizo o trinómio Estética Eficácia Eficiência, podendo face às necessidade circunstanciais valorizar mais uma (ou umas) dimensão em detrimento de outra ou outras. Por exemplo, se chegar a uma equipa que tem de ganhar no imediato para concretizar os seus objectivos – títulos ou manutenção - e se sei que a minha continuidade no meio e o prestígio dependem fundamentalmente de eu ganhar naquele período as minhas preocupações serão determinadas mais no sentido da eficácia. Mas se por outro lado sinto que tenho margem, preocupo-me em criar um jogar mais complexo que me leva mais tempo a construir, mas que eleva de forma mais graciosa o trinómio. O fim é sempre o mesmo, pelo menos para mim, e passa por querer jogar bem para ganhar, mas eu tenho que perceber que em alguns contextos, seja pela necessidade de pontuar, seja pela necessidade de desabituar os jogadores a uma forma de treinar e ou de jogar, para jogar bem eu primeiro e de forma imperativa eu tenho de ganhar. Porque quando se ganha tudo fica mais fácil, ganhamos tempos, ganhamos margem para transmitir as nossas ideias, ganhamos aceitação, e fundamentalmente a crença generaliza-se e a nossa empatia e sintonização com quem treinamos diariamente cresce de forma incrível. Concluindo, penso que não é impossível ganhar e jogar bem, assim como considero desejável ganhar para jogar cada vez melhor.

45. Luis Esteves: Gostaria que o professor referisse os conceitos de: “Arte das trajetórias” e “ Teoria dos alvos” que muitas vezes são citados em monografias orientadas pelo professor Frade.

Jorge Maciel: São dois conceitos que representam duas formas antagónicas de conceber o processo de treino. A arte das trajectórias tem a ver com uma forma de conceber o treino respeitando a não linearidade que o processo deve contemplar. Por outro lado a teoria dos alvos reporta-se a uma visão linear do processo de treino, e representa aquilo a que por vezes se diz ser o “treinar sobre carris” ou conceber o treino e o que nele se faz como mecanismos mecânicos. A Periodização Táctica pretende ser muito mais a arte das trajectórias que a teoria dos alvos, desse modo a dominância do processo deve conter como exercícios, contextos que se constituam como servomecanismos ou cerebromecanismos e não mecanismos mecânicos. Os dois conceitos são, face à sua designação, relativamente fáceis de apreender. A teoria dos alvos remete-nos para uma realidade fixa, portanto imutável, fechada, ou seja com pouca ou nenhuma imprevisibilidade intrínseca. A arte das trajectórias pelo contrário apela à necessidade de escolha de entre várias hipóteses. A noção de trajectórias reforça a ideia de variabilidade de percursos, ainda que volte a frisar, que independentemente do percurso a finalidade é chegar a um destino determinado, daí que as trajectórias, emergentes dos contextos de treino, devam fazer emergir com propensão predominante os trajectos que caracterizam o sentido da nossa caminhada, isto é do nosso jogar. É de facto uma arte, porque implica que cada um tenha autonomia, alicerçada num referencial colectivo, para eleger qual a trajectória mais ajustada. Tenho salientado que a Periodização Táctica tem como grande pretensão o desenvolvimento e concretização de um saber fazer em concomitância com um saber sobre esse saber fazer, por isso mesmo, é que esta forma de conceber o treino tem de ser fundamentalmente uma arte das trajectórias. Deste modo, os jogadores vêm-se obrigados a interagir de forma autónoma e encontram-se permanentemente implicados, sendo assim parte activa, criativa e inteligente no modo como solucionam os constantes e sucessivos problemas que o jogo coloca. No futebol os jogadores têm de estar constantemente a tomar decisões, no entanto o grande problema que se coloca aos jogadores é o problema das escolhas. Isto é, perante a variabilidade de “trajectórias” decidir qual a que deve eleger face às circunstâncias. Ou seja, o problema das escolhas tem de ser o cerne do treino, o treino tem de potenciar a possibilidade do jogador, suportado em referenciais colectivos, eleger convenientemente o que fazer a cada momento. O problema das escolhas vai por isso, para além da profundidade do problema da tomada de decisão, porque se reporta à necessidade de critério na tomada de decisão, de critério no modo como se dá a interacção no aqui e agora. A maximização do critério só se consegue com base na arte das trajectórias. As neurociências assim o sugerem, quando reforçam a importância dos padrões de reconhecimento na acção humana. Por esse motivo o treino não deve proporcionar o apontar para alvos, mas antes, permitir que as configurações sendo variáveis em termos de pormenor, tenham subjacente uma determinada padronização, que necessariamente temos de vivenciar para que em contextos análogos possamos expressar desempenhos condizentes e de qualidade.

Até aqui referi-me a estes dois conceitos apontando para a perspectiva dos jogadores, no entanto, e está relacionado, ele deverá ser igualmente perspectivado do ponto de vista dos treiandores. O treinador, conforme já referi, tem de estar consciente das suas insuficiências para controlar tudo o que envolve o processo de treino, e não pode fazer disso um drama. Por isso, tem de entender o jogo e o treino como uma arte das trajéctorias, o qual requisitando de regularidades (metodológicas e conceptuais) contempla a aleatoriedade, requisitando por conseguinte o Sentido da Divina Proporção, porque também o treinador se debate com o problema das escolhas. E tal como os jogadores de escolhas em contexto de elevada caosplexidade. Se pelo contrário quer tudo controlado, cai na vertigem da catalogação, e aí só poderá aspirar a um jogar e um treinar sobre carris, onde à configuração x corresponde a acção y. Daí emerge muito possivelmente um processo e o que dele resulta metaforizados pela teoria dos alvos.

46. Luis Esteves: Para o professor, o que tem José Mourinho que o faz vencer tanto?

Jorge Maciel: Essa é uma pergunta muito engraçada, e não é a primeira vez que ma fazem. Geralmente respondo sempre do mesmo modo e com uma analogia, que é a seguinte, todos nós aprendemos a escrever, mas depois alguns são escritores e outros não, e dentro dos escritores há uns melhores que outros, e há alguns que estando ao mesmo nível são de estilos literários diferentes. O que quero com isto dizer é que a dimensão formal ou teórica da Periodização Táctica é passível de compreensão da generalidade das pessoas, no entanto, a sua concretização conforme só está ao alcance de alguns. O que determina verdadeiramente o sucesso é a operacionalização do processo, que no caso de José Mourinho tem o suporte metodológico ou científico da Periodização Táctica, mas ao qual ele acrescenta o seu cunho pessoal. Treinar tem muito de Ciência, mas não menos de Arte, e é a articulação bem conseguida entre estes dois planos que permite o sucesso. Muito possivelmente haverá pessoas com igual ou superior apreensão formal daquilo que é a Periodização Táctica quando comparadas com José Mourinho, mas o que as distingue e que tornam de facto Mourinho diferente é o Sentido da Divina Proporção, um MetaPrincípio que tem a ver com a Arte de gerir com Ciência uma realidade altamente complexa e dinâmica, o que pressupõem muito saber, reflexão e intuição.

Cada processo é singular em parte, ou grande parte porque cada líder e cada contexto são singulares, e o modo único como o líder gere isso determina o seu sucesso, e isto é válido e para qualquer orientação metodológica, não só para a Periodização Táctica, e para qualquer estilo de liderança. Por isso digo que dentro dos bons escritores há uns que são romancistas, outros poetas e por aí fora. Também aqui não há receitas, não duvido que num cenário hipotético em que pudéssemos ter José Mourinho e outro treinador numa mesma realidade, a treinar do mesmo modo, com os mesmos conteúdos de treino os resultados seriam bastante diferentes. Mourinho estaria próximo de vencer e o outro de ser rebaixado. Porquê? Porque tem coisas da esfera do indizível e do invisível que os outros não têm, é mestre no Sentido da Divina Proporção.

47. Luis Esteves: Como vê o fenômeno FC Barcelona?

Jorge Maciel: Com enorme satisfação. Porque além de jogar de uma forma única representa uma personificação colectiva daquilo que é a antítese do que normalmente se diz que o jogo de qualidade deve ter. Inegavelmente contraria e refuta a generalidade dos mitos instalados no futebol. Mostra que ganhar e jogar bem são aspirações compatíveis, mostra que a aposta na formação tendo por base uma cultura comum faz sentido, é a prova que pode haver simultaneamente ordem e criatividade, é a prova que a necessidade de acelerar contempla necessariamente a pausa e mostra que o talento não se mede nem se pesa a metro e a quilo. Em suma, é tudo e tem tudo, o que dizem que o jogar de qualidade não deve ter. É uma equipa muito inteligente que pela sua forma de jogar sobredetermina os adversários, lá está porque reconhece uma verdade muito simples, mas muitas vezes ignorada, é que do mesmo modo que não há natação sem água, também não há futebol sem bola, e quem a tem e a gere com qualidade manda no jogo e condiciona-o, dentro dos possíveis.

Penso que o sucesso recente do Barcelona pode ser muito benéfico para o futebol em geral, porque geralmente os referenciais que se adoptam são os dos vencedores, e o Barça ganha como nunca, fazendo-o de uma forma sublime. Oxalá contagie.

48. Luis Esteves: Acredita ser válido a outras equipes “copiar” no bom sentido o FC Barcelona e o seu Modelo de ver o futebol, de forma mais plástica?

Jorge Maciel: Acredito, mas não por geração espontânea. É preciso um strip tease epistemológico que nos dispa e nos leve a ter necessidade de uma realidade futebolística superior como o caso do Barcelona. No entanto, apercebo-me que nem toda a gente tem pelo Barcelona apreço, há mesmo quem ache que o tipo de futebol que praticam é fastidioso, e este é um peso cultural enorme, com grande inércia, mas que importa travar. Temos de ter consciência que para despoletar tal mudança o tempo necessário pode ser mínimo, pois aí referimo-nos ao plano ideológico, mas o tempo necessário para efectivar e concretizar tal mudança é consideravelmente maior. Mas sem dúvida penso que seja possível “copiar” o exemplo do Barcelona, acho até que além de possível é desejável, visto que os referenciais para qualquer processo de treino a mais curto ou longo prazo devem ser os de top e se possível vencedores. E o Barcelona é tudo isso, é TOPTOPTOP e ganha desmistificando a ideia que é incompatível vencer e jogar bem.

O Barcelona é a prova que é possível mudar, há menos de 20 anos a fúria espanhola reinava e o Barcelona não fugia dessa tendência e conseguiu fugir disso porque alguém, Cruyff, lhes mostrou algo que desconheciam. E como ninguém tem necessidade daquilo que desconhece e muito menos do que ignora importa que exemplos de qualidade sejam cada vez mais dados a conhecer às pessoas. Só deste modo podemos evoluir e sair da cegueira que nos afecta. Geralmente as mudanças de paradigma fazem-se por minorias transgressoras, e de certa forma podemos dizer que a nivél conceptual o Barcelona é uma transgressão, do mesmo modo que o é a Periodização Táctica a nível metodológico, e no entanto têm sobrevivido a muita contestação, escárnio por vezes e até inveja. Mas o que se verifica é que são realidades cada vez mais consistentes e cada vez são minorias maiores os que as seguem. Não é uma mudança rápida, muito menos simples e fácil, mas é esse precisamente o desafio que a complexidade nos coloca. E como diria Gaston Berger “quanto mais uma árvore demora a crescer, menos se deve esperar para a plantar”.

49. Luis Esteves: O professor acaba de lançar um livro, gostaria que nos falasse sobre o mesmo e as formas de adquiri-lo aqui no Brasil.

Jorge Maciel: Curiosamente o livro responde muito bem e de forma muito profunda a aspectos relevantes da questão anterior. Resulta da realização da minha monografia de final de licenciatura, que tive que apresentar em 2008 na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Penso que há no Brasil quem já tenha lido a minha monografia, e de uma forma geral o livro contempla tudo o que nela consta, contando contudo com alguns acrescentos e esclarecimentos que entretanto sentimos serem necessários.

De forma resumida apresenta cinco grandes blocos, no primeiro o Futebol é apresentado como um Fenómeno Social Total, no segundo sugere-se que ele é mais que isso, é um Fenómeno Antropossocialtotal, porque requisita na sua manifestação o Homem em toda a sua dimensão. Depois sugere-se que apesar de se tratar de um Fenómeno Antropossociatotal, ele é simultaneamente aparentemente ContraNatura, uma vez que requisita uma destreza ao nível do trem inferior muito desenvolvida, quando o que sucedeu ao nível da filogénese humana foi o ganho de destreza e sensibilidade ao nível das mãos em contraste com a tendência verificada ao nível dos pés. Ou seja, neste ponto realça-se que a evolução da espécie humana induziu em nós um conjunto de alterações estruturais e funcionais que tornaram a prática do futebol ContraNatura, no entanto, é apenas aparentemente ContraNatura, pois uma das características mais significativas da evolução humana é a sua evolução ao nivel da dimensão social, um aspecto também ele caracterizador da essência do futebol. No ponto seguinte do livro faz-se um levantamento de muitas das brincadeiras de jogadores de top e ex jogadores, que depois de devidamente reflectidas servem de orientação para o que em nosso entender deve ser o processo de treino nas idades mais jovens. No ponto seguinte fundamentam-se todas essas sugestões cientificamente, recorrendo fundamentalmente a estudos recentes nas áreas da Plasticidade, da Neurociência, da Epigenética, da Ecogenética, que não sendo destinados ao futebol foram por nós entendidos como muito úteis e com grande aplicabilidade para o futebol. De uma forma geral, trata-se de uma história bastante profunda em torno da necessidade de tomar as rédeas da formação e de racionalizar os processos de treino de jovens com o intuito de aumentar a qualidade dos mesmos e consequentemente permitir que mais talentos floresçam.

Relativamente ao modo de o adquirirem no Brasil, a editora não tem de momento prevista a sua internacionalização, mas quem desejar ter o livro pode contactar-me eu encarrego-me de o enviar sem qualquer problema, aliás já o fiz.

50. Luis Esteves: Que literaturas recomenda para o estudo da Periodização Tática?

Jorge Maciel: A Periodização Táctica, também a este nível pauta pela qualidade e não pela quantidade. Não é muita a bibliografia disponível, pelo menos a directamente relacionada com a Periodização Táctica, ainda que como é visível nas obras conotadas com a Periodização Táctica esta se sirva de fontes provenientes de diferentes áreas científicas ou não. Quanto a livros que retratam a Periodização Táctica recomendo o da Marisa Gomes ou Marisa Silva “O desenvolvimento de um jogar, segundo a Periodização Táctica”, o do Carlos Campos “A justificação da Periodização Táctica como uma Fenomenotécnica”, o livro “Mourinho – Porquê tantas vitórias?”, o meu livro “Não o deixes matar O bom Futebol e quem o joga Pelo Futebol adentro não é perda de tempo!”, o livro do Xavier Tamarit “Que es la Periodization Tatica”. Depois há todo um conjunto de Monografias muito boas orientadas pelo Professor Vítor Frade e algumas também orientadas pelo Professor José Guilherme. Além disso há os apontamentos que o Professor Vítor Frade disponibiliza com alguma regularidade depois de devidamente lidos, anotados e sublinhados.

Aproveito esta pergunta para lançar um aviso às pessoas, no sentido de as alertar para o facto de que a maioria dos documentos que circulam na internet sobre Periodização Táctica deturpam-na, abordam-na superficial e erroneamente, e nalguns casos pode mesmo dizer-se que são verdadeiras aberrações. Temos notado que é cada vez mais frequente algumas pessoas se colarem a algumas frases do Professor Vítor Frade, sem nunca terem falado com ele sobre a Periodização Táctica, e as usarem como slogans para promoção pessoal. É óptimo verificarmos que há cada vez mais interesse na Periodização Táctica, mas é péssimo sentir que tal pode ser pernicioso, há quem tenha conhecimento superficial de algumas coisas, mas queira fazer passar a imagem que sabe tudo sobre Periodização Táctica, e quando se generaliza o que ela não é de facto, acaba por ser dada a conhecer uma versão deturpada e nada condizente com o que ela é. Há quem pense que basta dominar a terminologia para dominar o que de facto é a Periodização Táctica, e como são bem-falantes e poucos dominam o que de facto ela é, acabam por ser tidos como defensores da Periodização Táctica. Como se tal não bastasse, há ainda o oportunismo de algumas pessoas que se servem da prostituição intelectual e de um atrevimento parasitáritário para se promoverem, por vezes inclusive, intrometendo-se, desrespeitando e pondo em causa pessoas que no terreno levam a efeito esta forma de treinar. O Professor Vítor Frade diz várias vezes que “o atrevimento é o maior sintoma de ignorância”. Sabemos de alguns casos, e pessoas até com responsabilidades académicas, que num determinado contexto, como por exemplo a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto se dizem contrários à Periodização Táctica, mas que quando lhes convém, em contextos diferentes se servem dela como um exemplo, se dizem seguidores e nalguns casos até mesmo mentores. Na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, para que as pessoas saibam, só existem duas pessoas verdadeiramente identificadas com a Periodização Táctica, o Professor Vítor Frade e o Professor José Guilherme. Percebo que as pessoas se seduzem facilmente pela Periodização Táctica, e como tal há necessidade de lhes dar a conhecer o que ela é de facto. Mas infelizmente, o atrevimento que por vezes domina nas diferentes áreas, e o treino não é excepção, acaba por não permitir que a Periodização Táctica seja dada a conhecer como deveria.

Luis Esteves: Professor, mais uma vez gostaria de agradecer pela disponibilidade em compartilhar seu conhecimento conosco, muito obrigado.

domingo, 25 de setembro de 2011

CONVERSAS SOBRE FUTEBOL - JORGE MACIEL - 2ª PARTE

Segunda parte da entrevista com o professor Jorge Maciel.
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16. Luis Esteves: Como o professor vê a utilização de diferentes métodos (visual, auditivo e cinestésico) para atingir o melhor entendimento dos jogadores?

Jorge Maciel: São muito importantes, sobretudo as imagens no sentido de sintonizar e tornar objectivável o que se pretende. Curiosamente na recente experiência que tive na Líbia tive a confirmação que de facto assim é. Aquela que foi para mim a melhor aula de língua árabe enquanto lá estive consistiu numa ida ao hipermercado com o motorista. Foi muito engraçado, pois foi o momento em que aprendi mais palavras árabes, porque apontava ou pegava num determinado produto e perguntava qual era o nome em árabe. O facto de poder ter persente a imagem ou o objecto tornava muito mais fácil a sua identificação e a familiarização, praticamente sem qualquer margem de erro, com a designação árabe do mesmo. Era algo de concreto, palpável. E penso ser uma analogia muito significativa para aquilo que pode representar o recurso a diferentes meios, no sentido de nos identificarmos com determinada realidade, sobretudo se for uma realidade que é novidade para nós, como era o caso da língua árabe para mim.

Na Líbia tínhamos talvez como principal barreira a comunicação verbal, como tal tivemos de recorrer a vários meios. Usava-mos muito os vídeos, mas também explicações no terreno com ajuda de pranchetas ou o que achávamos necessário. E além disso marcávamos a nossa intervenção por uma grande gestualidade. Comunicávamos muito com o corpo e tínhamos a preocupação de ter muita atenção para perceber se o grau de sintonia e identificação manifestado pelos jogadores era o mais conveniente ou não. Por isso, entendo que de facto são muito importantes todos os meios que nos possam auxiliar a passar a mensagem pretendida, mas não menos importante é ter a preocupação de perceber se a mensagem está a passar, e a sensibilidade para detectar se a mensagem que passa condiz ou é interpretada em sintonia com o que desejamos. É por esse motivo, que a prática se torna fundamental, devendo ser sempre o primado. Além disso o uso de tais instrumentos deve fazer-se tendo muita sensibilidade relativamente à qualidade da mensagem, o que se transmite e como esta é recebida, mas também tendo sensibilidade em relação à dosagem da mensagem. Quero com isto dizer que devemos recorrer a estes meios mas sem massacrar ou saturar os jogadores, porque se tal acontecer a receptividade será diminuta e passamos para uma conversa de surdos.

17. Luis Esteves: Qual a opinião do professor sobre os treinos coletivos, 11x11 (de conjunto em Portugal)?

Jorge Maciel: Se, se fizerem por tradição acho que é o fomentar de um mito. Mas se pelo contrário tiverem outros propósitos, desde que o treinador saiba quais, e como os enquadra na dinâmica de esforço recuperação semanal, não vejo grande problema, se de facto entender que é importante. Por exemplo, na Líbia nós tínhamos um plantel muito grande, chegamos a treinar com 32 jogadores, e quando chegamos o nosso conhecimento das potencialidades dos jogadores era nulo, foi se tornando maior à medida que os treinos e os jogos se foram desenrolando. Por tudo isso, decidimos que no dia a que se seguia a competição oficial se realizaria sempre que possível um jogo para os jogadores não utilizados, geralmente com equipas de segunda divisão. A realização destes jogos era muito importante e tornou-se fundamental para a necessidade de rotatividade que fomos tendo. Em 10 jogos não repetimos um onze titular, porque havia selecções, jogadores suspensos devido a cartões amarelos, lesões e além disso jogadores que graças a esses jogos nos mostraram que poderiam ser soluções face a determinado tipo de problemas que a equipa poderia enfrentar. Ou seja, foi mais um meio para conhecermos melhor o plantel e as particularidades de cada jogador. Além disso devemos ter consciência que um dos aspectos que mais deve preocupar um treinador é o estado anímico e funcional dos jogadores que não são titulares. E a adopção destes jogos foi muito importante também a esse nível. Os jogadores empenhavam-se bastante e encaravam estes jogos de forma muito séria, porque sentiam precisamente isso, ou seja, que o desempenho que naqueles momentos revelassem poderiam pesar nas escolhas que se seguissem nos jogos oficiais seguintes, e aliás nós fazíamos questão de salientar isso. E podíamos fazê-lo porque apesar de se tratar de um plantel grande era um plantel equilibrado em termos qualitativos, ainda que mal estruturado ao nível do número de jogadores por cada posição.

A realização destes jogos foi uma óptima estratégia metodológica, porque nos permitiu ver e conhecer melhor alguns jogadores em competição, acelerar o nosso conhecimento em relação ao que podíamos esperar deles e o que nos poderiam dar, e também acelerar a identificação deles com as nossas ideias e com o nosso processo de treino. Nesse sentido tínhamos uma intenção clara e que nos ajudou imenso, porque a competição, mais formal, não era descurada e todos tinham possibilidade de ter um momento de competição regularmente, a qual era devidamente enquadrada na nossa lógica de alternância. Tínhamos atenção a alguns aspectos no sentido de controlar o tempo de participação nestes jogos de alguns jogadores, por exemplo os jogadores que jogavam alguns minutos na véspera apenas faziam meia parte ou pouco mais que isso, os jogadores que não tinham jogado mas que tinham sido titulares ultimamente, e como tal tinham maior densidade também raramente jogavam o tempo todo. E o mesmo sucedia com alguns jogadores que regressavam após lesão prolongada, e havia vários quando lá chegamos. Estes jogos eram muito importantes para esses jogadores, porque lhes permitia um momento que eles encaravam de forma ainda mais séria que o treino, mas com a tranquilidade de ainda não ser a verdadeira competição. O que é um aspecto muito relevante, porque os jogadores quando recuperam de lesões que os impedem de estar disponíveis durante algum tempo têm muita necessidade de sentirem que são capazes, porque se sentem inseguros e de certa forma desconfiados relativamente à sua verdadeira condição. Então nós servíamo-nos destes jogos para que esses jogadores fossem progressivamente integrados em situações de carácter mais competitivo, adquirissem confiança e se sentissem seguros. Porque muitas vezes mais grave que a lesão é a cisma que o jogador sente e que o leva a pensar que ainda não está bem. Com estes jogos, e aumentando progressivamente o tempo de intervenção destes jogadores conseguíamos mais facilmente mostrar-lhes que estavam recuperados. Do mesmo modo, era importante porque os jogadores sentiam que estavam preparados, a todos os níveis, para entrar a qualquer momento. Muitas das vezes, quando não jogam regularmente receiam poderem estar com défices do ponto de vista físico, para muitos deles essa é mesmo a principal razão pela qual não jogam, porque foram habituados nessa lógica. E a realização destes jogos ajuda-os a sair dessa ilusão e prova-lhes que treinando bem, da forma como o fazemos, não precisam de qualquer tipo de treino exclusivamente físico. Essa foi mais uma constatação que pude reter, inicialmente quando lá chegamos alguns pediam para dar umas corridinhas ou fazer outro tipo de coisas por pensarem que a razão para não jogarem passava por possíveis défices do ponto de vista físico. Quando tal nos era solicitado, tínhamos sensibilidade para perceber precisamente porque sentiam tal necessidade, pois só desse modo poderíamos desmontar essa mesma necessidade. Falávamos com eles e explicávamos-lhes que se treinassem bem se, se empenhassem nas situações de treino não sentiriam qualquer necessidade de após o treino fazerem o que quer que fosse. A verdade é que passado menos de duas semanas já ninguém solicitava o que quer fosse, e sentiam-se bem com aquela forma de treinar e aptos e confortáveis quando eram chamados a participar em competição, independentemente da utilização ser maior ou menor nos jogos anteriores.

No entanto, julgo que o propósito que leva os treinadores a realizarem a meio da semana de treinos os ditos treinos de conjunto nada tenha a ver com as preocupações que fui referindo. E aliás um aspecto muito relevante passa pelo enquadramento que estes treinos por norma têm na semana de treinos. Um enquadramento por vezes desajustado, por não respeitar o necessário tempo de recuperação relativamente ao momento de competição imediatamente anterior, ou noutros casos relativamente ao momento competitivo que se segue, ou até mesmo relativamente a ambos. Aí penso que se trata de uma opção por um treino generalista, que revela o não entendimento daquilo que representa a fractalidade do jogar, sendo inclusive frequente ouvir-se os treinadores que o fazem argumentar que “não há nada mais específico que o 11x11”. Nesse tipo de treino a propensão para o caos se tornar caótico é claramente maior do que a que se verifica num treino que segue os referenciais de alternância da Periodização Táctica no qual se abordam os grandes aspectos relativos do nosso jogar. Nesse caso, a modelação dos contextos permite-nos muito mais incidir sobre o que mais pretendemos em função da hierarquização estabelecida para aquela semana e em particular para aquela sessão, por isso mesmo, porque modelamos e conseguimos gerir melhor o aqui e agora que num simples conjunto, a propensão vai muito mais no sentido de fazer emergir um determinado caos determinístico.

18. Luis Esteves: Como se dá o processo de criação de exercícios na sua visão? Quais as preocupações que tem e que parâmetros utiliza?

Jorge Maciel: O processo de criação de exercícios, conforme se depreende de muito do que já referi resulta da contemplação de muitos aspectos, fundamentalmente relacionados com o que treinar, ou seja, com a matriz conceptual, e também relacionados com o como treinar, isto é, relacionados com a matriz metodológica do processo. Um pressuposto fundamental passa por saber o que se deseja treinar, e isto em termos gerais, tem a ver com o jogar que queremos parir, mas também em termos de maior pormenor como por exemplo equacionar o que fazer em cada dia. Os parâmetros que utilizo são; escalas do jogar a vivenciar na unidade de treino em questão (grandes, sub e subsub princípios), os níveis de organização da equipa (individual, sectorial, grupal, intersectorial, colectivo), o padrão de contracção muscular dominante, o espaço, o tempo tanto de exercitação como de repouso, os efectivos numéricos implicados em cada situação, a necessidade de recuperar dos desempenhos de treino e de competição, o assegurar do padrão metabólico dominante desejado, o desgaste emocional… pois é tudo isto que nos vai permitir dar uma configuração ao treino que nos leve para as dinâmicas desejadas para cada dia do Morfociclo. E consequentemente, respeitar e operacionalizar convenientemente o Principio da Alternância Horizontal em especificidade. Depois a minha criatividade na criação ou até “roubo” de exercícios deve também respeitar o Princípio das Propensões, para que através do treino eu consiga potenciar o que desejo, e permitir que aquilo que desejo venha acontecer, aconteça com regularidade. E claro, eu tenho de perceber que a minha criatividade deve ter em consideração a minha realidade, e o estado de maturação dessa mesma realidade, isto é o estado de maturidade que o processo evidencia e o nível de adaptabilidade dos jogadores ao mesmo. E aqui está manifestamente presente o Principio da Progressão Complexa. É um aspecto muito importante, para a calibragem dos exercícios e para que as rotinas não caiam em rotina, e estar consciente e saber o grau de habituação relativamente ao processo, aos exercícios (ao nível da configuração, da duração, da dinâmica desejada…) Por exemplo, e relembrando, enquanto estivemos na Líbia, e de modo mais evidente nos primeiros tempos, não variávamos muito os exercícios porque a identificação dos jogadores com o processo era ainda recente. Tínhamos de ter sensibilidade para não hipotecar a progressão do processo, devido ao desejo de inovação. Era naquele contexto uma necessidade, e se não atendêssemos a isso, o que possivelmente representaria perda de relação com o que já tinha sido feito, correríamos o risco de entrar num processo de iniciação continua. Nós tivemos que os habituar a uma forma de treinar, inicialmente sem diversificar muito, ainda que respeitando a necessidade de alternância horizontal. Não podíamos variar muito devido à precocidade do processo, à existência de uma habituação contrária à que estávamos a levar a efeito e também porque tínhamos limitações de comunicação. Este último aspecto, teve um grande peso na configuração dos exercícios, pois motivou que tivéssemos que ter grandes preocupações, no sentido do que fazíamos ser bastante funcional e de o exercício ter necessariamente que ser propenso ao desejável. A nossa intervenção, embora não feita em língua árabe, não deixava de estar presente, através do inglês, da emotividade e fundamentalmente através de muito linguagem corporal. O exercício sendo importante, e potencialmente catalisador do que desejamos, necessita obrigatoriamente de uma intervenção conforme, porque senão, a coisa rola, mas pode rolar de muitas formas e muitas das quais contrárias e contraproducentes com o que desejamos. Reforço por isso a ideia que o exercício por si só não basta ele é potencialmente aquisitivo ou catalisador de aquisição, mas depois há que o alimentar para maximizar as suas potencialidades. E o exercício é alimentado pela qualidade de intervenção, gestão da qualidade dos desempenhos, dos tempos de exercitação e de recuperação, componente emocional… Por isso é que com os mesmos exercícios se obtém resultados muito diversos.

19. Luis Esteves: Que preocupação tem com os tempos de exercício e os tempos de recuperação?

Jorge Maciel: Esse é um aspecto muito importante, e que por vezes as pessoas que se dizem identificadas com a Periodização Táctica ignoram ou não lhe concedem a devida relevância. Muito erradamente algumas pessoas que se tentam identificar com a Periodização Táctica enfatizam excessivamente a dimensão aquisitiva do processo, mas negligenciam a dimensão bioenergética e motora que o suporta. É um erro, porque se de facto é importante que os jogadores saibam como jogar e estejam identificados com um jogar, não é menos importante criar condições que lhes permitam manifestar esse jogar com qualidade. E para o fazerem é fundamental que a dimensão metabólica e motora subjacentes á manifestação de um jogar sejam equacionadas no processo de treino. Eu não posso querer uma equipa cheia de boas intenções, eu quero uma equipa que seja capaz de concretizar tais intenções, e só é capaz se em cada individuo, através da vivenciação de referenciais colectivos em contextos diversos, se instalar uma adaptabilidade a todos os níveis (aquisitivo – bioenergético - funcional…), que o permita. Para que tal adaptabilidade se instale a relação entre os tempos de exercitação e de recuperação é determinante. Essa relação, sendo diferenciada em cada dia faz com que a descontinuidade em cada unidade de treino seja a desejada. Descontinuidade que é fundamental, conjuntamente com outros parâmetros, para assegurar a presentificação das subdinâmicas dominantes de cada dia, e não menos importante para que o organismo experimente uma espécie de resiliência biológica, necessária à sua maximização e consequentemente à maximização do todo. Esta noção de resiliência metabólica tem a ver com a necessidade de fatigar aquando da exercitação, para que posteriormente se instale no organismo um estado de transcedência, após a necessária recuperação se estabelecer. Isto implica de facto, conceber o Corpo e as suas partes constituintes e prestativas como uma estrutura dissipava capaz, pela confrontação e interacção com o contexto, de aspirar e evoluir para formas superiores. Mas isso só é possível se eu permitir que pós exercício os tempos de recuperação sejam devidamente respeitados, isto é, permitam que o organismo não volte a ser estimulado e a estar implicado com índices de fadiga acentuados e perpetuados.

Eu devo também ter em consideração que do modo como faço a gestão entre tempos de recuperação e de exercitação, resulta uma determinada adaptabilidade metabólica. E a incidência sobre uma determinada matriz metabólica dominante no meu processo de treino deve ter relação com a matriz metabólica que eu quero que a minha equipa manifeste quando joga. O que quero com isto dizer, é que se em termos ideiais eu desejo que o meu jogar tenha muitas variações de velocidade, com pausas, elevada intensidade metabólica mesclada com instantes de baixa intensidade metabólica, à semelhança do que sucede com os jogares de TOPTOP, como o Barcelona, então o meu processo tem de respeitar esta matriz metabólica. Daí que se a minha opção for um jogar deste género, e tendo em consideração que os sistemas energéticos funcionam em simultâneo ainda que com dominâncias diferentes, o meu processo de treino deve dominantemente permitir que os contextos de exercitação incidam dominantemente sobre o sistema metabólico dos fosfagénios. Pois é este que salvaguardados devidamente os tempos de repouso, não me hipoteca a potenciação concomitante dos demais sistemas energéticos e me permite que a adaptabilidade metabólica que emerge seja a que eu desejo e por conseguinte também emirja a adaptabilidade anatómica e funcional que este tipo de jogar tem implicadas. Somente se o processo incidir sobre este padrão metabólico se torna possível que a adaptabilidade incorporada seja essa e não outras, não raras vezes contraproducente relativamente ao que desejo para o meu jogar, e em muito devido ao não respeito da relação necessária entre os tempos de exercitação e os tempos de recuperação.

O reconhecimento da necessidade dos tempos de recuperação, não deveria ser estranho para quem treina de formas mais convencionais, no entanto, parece que não é o que se verifica. E o motivo é simples, institucionalizou-se a necessidade de treinar muito e de treinar cansado, mesmo que isso implique contrariar princípios de treino tidos como fundamentais nessas metodologias. Convencionalmente reconhece-se aos tempos de recuperação uma grande relevância, naquilo que em termos convencionais se designa “prémio de pausa”, e que suporta a ideia de sobrecompensão após um organismo ser submetido a um estimulo. Após a administração de um estímulo, convencionalmente designado de “carga”, verifica-se se a recuperação for contemplada, a chamada fase de exaltação, na qual se dá um estado optimizado do organismo. O que vai de encontro à ideia que referi anteriormente de resiliência metabólica ou se quisermos orgânica. Torna-se evidente, que mesmo aspectos tidos como basilares da teoria do treino, se devidamente interpretados se constituem como as suas principais fontes de refutação, e simultaneamente de sustentação inequívoca da Periodização Táctica.
20. Luis Esteves: Se possível exemplifique em cada dia que tempos utiliza e os tempos de recuperação:

Jorge Maciel: Também aqui faz sentido falar em singularidade do processo, pois os tempos de exercitação não devem ser tidos como uniformes para qualquer processo. Pode até ser pernicioso, para mim que os refiro, e também para quem depois possa ler tais referências. Porque aqueles tempos para o meu processo, podem ser ajustados, mas para outro processo serem totalmente desajustados. E no que é que isso pode resultar, numa adaptabilidade que emerge e que não respeita o que referi na questão anterior. Eu compreendo a questão, e de certa forma até a considero pertinente, se é relevante, então que tempos devo utilizar?! Não é. No entanto, acaba por ser praticamente a mesma coisa que chegarem junto de mim e dizerem; «para treinar isto que exercício usas?!» E eu dou um exercício que faço, e depois a pessoa que me perguntou usa-o, mas não funciona porque se esquece que eu o faço porque os jogadores estão englobados num processo que o permite. Estão habituados ás dimensões do espaço de exercitação, têm qualidade para o fazer, aquele exercício resulta da vivenciação passada de situações semelhantes e que foram sendo complexificadas e nuanciadas… E nos tempos de exercitação a coisa sendo diferente, e com escalas de variação possivelmente menores, não é necessariamente muito diferente. Volto a repetir, que as pessoas procuram na Periodização Táctica receitas, mas não encontram porque cada processo é singular, cada um faz o fato à sua medida, por isso é uma asneira querer receitas, cada um tem de ser o cozinheiro do seu próprio jogar. Não obstante, sendo uma metodologia fornece, como já salientei orientações para fabricar o jogar, Princípios Metodológicos. Mas aspira muito mais a ser a arte das trajectórias que a teoria dos alvos, daí que se norteie pelo ditado chinês que sugere que não se deve dar o peixe, mas antes a cana e ensinar a pescar.

Depois repare-se, eu poderia dar algumas referências de tempo, mas isso também depende bastante da própria configuração dos exercícios. Se eu faço um exercício jogado o tempo será necessariamente diferente de uma situação em que a exercitação se faz por vagas, ou de um treino em estrutura holandesa etc., etc., etc…. Há exercícios que pelo modo como se realizam asseguram-me o tempo de recuperação, outros não, são mais contínuos ainda que a intervenção dos que nele estão implicados seja intermitente.

Aquilo que me parece mais ajustado, no sentido de dar a cana e ensinar a pescar, é caracterizar os diferentes dias do Morfociclo em termos de densidade. Densidade como sendo a relação proporcional entre o tempo de exercitação e o respectivo repouso. Por exemplo 1/3, sugere que a cada tempo de exercitação correspondem 3 de repouso. No entanto, devemos ter consciência que a densidade sugerida serve exclusivamente como um referencial geral que visa padronizar as dominâncias metabólicas requeridas, e que faz sentido se a Intensidade de treino se revelar de facto como tal. Estes referenciais não devem ser encarados de forma estanque e deverão ter em consideração muitos aspectos, como a maior ou menor precocidade e habituação a um processo de treino ou até a própria configuração dos exercícios, conforme já salientei. Assim, de uma forma geral podemos conceber para a terça feira uma densidade de 1/8 – 1/9, para quarta-feira de 1/4, para quinta-feira de 3/1 – 4/1, para sexta-feira de 1/8 – 1/9 e para sábado de 1/10.

Quanto á gestão dos tempos de exercitação, importa ter em consideração que quanto mais rápida a estimulação também será a recuperação desse desempenho. No entanto, considero que mais importante que definir taxativamente tempos é deduzir subjectivamente os níveis de fadiga dos jogadores, porque o que se pretende é que eles se exercitem continuadamente sem índices de fadiga não recuperados e não permitindo incidir dominantemente sobre o padrão metabólico desejado. Nós podemos deduzir os índices de fadiga dos jogadores através de indicadores indirectos como a respiração, o modo como conseguem ou não falar, o decréscimo de rendimento. Devemos estar permanentemente atentos a estes aspectos, pois só salvaguardando que a fadiga não se reinstala, é que se torna possível incidir sobre a matriz metabólica desejada, uma gestão que se faz com muita sensibilidade e também ela na fronteira do caos, e na qual que mais vale pecar por defeito do que por excesso.

21. Luis Esteves: Qual a importância das emoções no processo da habituação? Como o professor gere o processo da emoção no treino?

Jorge Maciel: A emoção sabe-se hoje através das neurociências que são determinantes em qualquer processo de habituação e de aprendizagem. Mas mesmo empiricamente, podemos ter alguma percepção sobre o grau de relevância que as emoções têm em várias aprendizagens que fomos adquirindo ao longo da vida. As nossas vivências foram sendo marcadas emocionalmente como nos explica a tese dos marcadores somáticos. Mais que isso, sabe-se que o mapeamento das emoções tem repercussões notórias na nossa postura, ou seja, naquilo que somos e no modo como interagimos com o que nos rodeia. Face a isso num processo de treino, cujo intuito é a habituação e aquisição de uma determinada realidade através da sua vivenciação modelada, o papel das emoções é determinante. E deve estar presente em quem aprende e em quem ensina. Não concebo uma realidade em que a interacção humana esteja presente, sem qualquer tipo de emotividade. O treino não pode ser emocionalmente neutro, a emoção, aspirante a sentimento, deve ser parte necessária do contexto em que se desenvolve o processo.

A emoção e um conceito plural, capaz de se manifestar de várias formas e inclusivamente de forma antagónica, por isso também a emocionalidade presente no processo deverá ter o viés que queremos dar ao processo. O treinador deve envolver-se emocionalmente no treino, mas deve ter consciência da sua emocionalidade e fazer com que esta seja convergente com o que pretende. Deve aculturar o seu subconsciente para que mais facilmente e coerentemente aculture o dos jogadores. Para isso deverá reflectir continuadamente sobre o processo, para que os modelos implícitos estejam em sintonia com os seus modelos explícitos. Naõ deve deste modo haver da parte do treinador conflitos emocionais, digamos assim. Se houver, poderão ser facilmente apreensíveis através de incoerências ao nível da intervenção sob pressão, mas também através de condutas bem menos evidentes. O que sucede por exemplo quando o discurso não condiz verdadeiramente com as suas convicções. Sabe-se a este respeito que temos a possibilidade de contágio emocional à distância, conforme demonstram os corpos morficos, por isso qualquer indício de incoerência, consistência ou de insegurança poderá ter repercussões sobre o grupo, sobretudo se as ligações que com os seus membros estabelecemos são fortes. Por tudo isso penso que o melhor modo do treinador gerir a sua emotividade é, tendo consciência da mesma, e no processo de treino manifestar paixão pelo que faz, pelas suas ideias e pelo jogo de uma forma geral. Se for espontâneo ao fazê-lo conseguirá contagiar os jogadores, que por sua vez em tal contexto emocional induzido pelo treinador se sentirão mais receptivos para o processo. É fundamental assegurar que o processo permite aos jogadores sentirem prazer e satisfação ao treinar, pois há um pressuposto muito básico que quem ensina deve ter em consideração, só se aprende o que se quer. E quando nos sentimos bem com algo é mais fácil querer. Por isso é que o treino não pode ser castigo.

22. Luis Esteves: Qual a importância da Velocidade no futebol atual?

Jorge Maciel: Depende do que se entende por velocidade, pode ser determinante, e pode ser um equivoco. A velocidade é para mim um conceito polissémico, tem vários significados, ainda que normalmente esteja associada exclusivamente à velocidade de deslocamento, muito por força do contexto cultura instalado, um contexto onde a vertigem da pressa faz escola e nos afecta subconscientemente e infelizmente de forma cada vez mais precoce. E sendo o futebol um bom espelho da sociedade isso verifica-se no modo como vivenciamos o jogo, cada vez mais frenético e sem lucidez, e no modo como o concebemos e compreendemos, ou seja, acabamos por não tomar consciência do quão perniciosa é esta vertigem para a qualidade de jogo.

Quando falamos em velocidade temos de ter noção que estamos a tratar de um conceito plural e que como tal pode ter subjacente um significado muito diferente daquele que à partida é o mais comum. Podemos falar mais correctamente da velocidade da bola, de execução, de decisão, de deslocamento, de reajustamento… Mas sendo o futebol uma modalidade que implica coengendração entre as várias velocidades e entre estas e o envolvimento que requisita e despoleta as suas manifestações, torna-se necessário que estas tenham um cunho qualitativo e permitam dar as respostas ajustadas às circunstâncias. No futebol a noção de timing é capital para a sua concretização com qualidade, e refiro-me ao timing de efectivação, de antecipação e de articulação entre as diferentes estruturas implicadas no acto. Portanto a velocidade é de facto um aspecto determinante no futebol actual, mas não a velocidade linear, tem de ser uma velocidade com curvas, rectas, travagens, acelerações, desacelerações, e tudo isto em conformidade com o que a cada instante o jogo e o jogar requisitam.

Paradoxalmente a velocidade só faz sentido se contemplar a existências de pausas, caso contrário não é distinta nem um aspecto diferenciador em termos qualitativos. Repare-se no caso do Barcelona, é talvez a equipa que mais velocidade coloca no jogo, porque pela dinâmica que apresenta e identificação ou incorporação com tal intenção, joga espontaneamente e de forma regular a um toque. E jogar a um toque, com sucesso, é para mim a melhor expressão do que deve ser a velocidade máxima no futebol, pois implica velocidade na bola, na interacção agindo fazendo, e no constante ajustamento dos jogadores que tal dinâmica implica. O Barcelona é de facto um exemplo muito bom daquilo que deve, para mim, ser a velocidade e do que lhe deve estar subjacente. Apesar de ser a equipa que mais facilmente e com qualidade, isto é com critério, acelera o jogo é também a equipa que mais o pausa, tem variabilidade de ritmos e de velocidades, conseguindo-o fazer sem perda de critério na identificação dos instantes em que deve acelerar o jogo. É de facto uma equipa inteligente, que joga com critério com toda a caixa de velocidades, e como é um “carro” de TOP tem mais que as habituais seis velocidades. O jogar de qualidade joga-se a 4 dimensões, e o Barcelona percebe essa necessidade melhor do que qualquer outra equipa. Tem inteligência para gerir bem a relação EspaçoTempo, percebe que parando pode alargar o tempo e ganhar espaço para acelerar e colocar a velocidade necessária no jogo.

23. Luis Esteves: José Mourinho como grande representante desta forma de pensar o treino, diz que utiliza a Descoberta Guiada como processo de ensino no treino, porém nota-se na literatura divergências quanto a forma de utilizar este método, alguns autores afirmam que a intervenção do treinador deve ser no momento do erro, não deixando que o mesmo ocorra novamente, já outros autores acreditam que o jogador deva perceber o erro, e através de intervenções específicas questionam os jogadores em busca de um denominador comum porém já definido pelo treinador, qual a opinião do professor sobre isso e como o professor define a Descoberta Guiada? Se possível exemplifique em determinado contexto:

Jorge Maciel: A descoberta guiada no caso do treino de futebol passa por eu criar num grupo uma necessidade que vou continuadamente alimentando e complexificando. Uma necessidade que tem uma intencionalidade, que à partida não têm de reconhecer, mas para a qual devem ser incitados a caminhar. Trata-se portanto de lhes criar um desejo pelo desconhecido, mas um desconhecido que eu quero sobredeterminar, daí que o modo como eu o vou alimentando deva ser sobredeterminado pelo que eu quero que eles descubram. A descoberta guiada é uma estratégia metodológica a que eu devo recorrer para permitir que os jogadores estejam mais implicados na construção e criação do jogar, e para que consequentemente o sintam mais como um projecto seu, para o qual contribuíram ao nível da elaboração da sua lógica, pois foram levados a isso, e desse modo mais facilmente se identifiquem com esta, a incorporem. Torna-se deste modo relevante na aspiração que temos em tornar concomitante o saber fazer com o saber sobre esse saber fazer.

Quanto ao modo de levar a efeito esta estratégia metodológica, penso que não faz sentido estabelecer regras, ou catalogar o que fazer em que circunstâncias. É um aspecto que requer o Sentido da Divina Proporção, e que nos deve fazer inclusive ponderar se em todos os contextos e circunstâncias fará sentido recorrer a esta estratégia. Penso que devendo ser uma estratégia fundamental, e de que me devo socorrer devo também ter consciência que ela poderá não se ajustar para certos conteúdos a adquirir e pode não se justificar em determinados momentos e circunstâncias. E eu como treinador é que tenho de saber perceber e ter sensibilidade para identificar quando a utilizar ou abdicar em detrimento de estratégias de maior deposição de saber do que de descoberta de saber.

24. Luis Esteves: Como o professor vê a questão da musculação, que alterações podem provocar os exercícios em máquinas na propriocepção muscular?

Jorge Maciel: Considero que de uma forma geral a musculação é desnecessária para se jogar futebol. E aqui não estou a contemplar a possibilidade de haver jogadores com patologias, ou até mesmo a necessidade de nós termos sensibilidade para perceber que há jogadores que fruto da sua habituação a fazerem-no têm necessariamente que o fazer, pois caso não o façam sentem-se desconfortáveis. Mas também nesses casos a nossa intervenção deverá ser no sentido de diminuir e quem sabe abolir com tais necessidade subconscientes somatizadas.

Mas quando digo que não considero a musculação como algo de fundamental para se jogar futebol, parto do princípio que agindo nós com base em padrões de reconhecimento, a única forma de o fazer é treinando, jogando no terreno de jogo, exercitando em contextos propensos ao emergir do que considero relevante para o meu jogar. É nisto que acredito, e penso que com fundamento.

A musculação procura retratar uma realidade irreal, é um contexto postiço, desde logo porque não permite estar em relação com a bola e o contexto de jogo, por isso terá necessariamente perdas. A propriocepção é algo concreto, contextual e os estímulos que emanam do contexto de jogo não são passíveis de serem reproduzidas numa sala de musculação. A propriocepção tem a ver com a configuração acontecimental da circunstâncias, com o modo como eu as identifico e interajo com esta, com o modo como me ajusto e nalguns casos reajusto para poder agir ou antecipar em conformidade com o que aquela solicitação exige. Eu entendo o Corpo como uma realidade inteligente, que como tal carece de ser aculturada. Trata-se inegavelmente de uma realidade plástica, sobre a qual o treino pode actuar. Mas que treino?! Para mim a plasticidade tem de rimar com selectividade e consequentemente com Especificidade. Nós tornamos-nos selectivos pelo que fazemos, assim como a adaptabilidade que imana do que fazemos tem a ver com essa selectividade. Se o meu processo de adaptabilidade actua sobre a plasticidade num determinado sentido, ou de uma determinada forma, é essa a modelação que eu vou conferir ao Corpo. Portanto se é em função de um jogar, que eu aspiro que a adaptabilidade se instale nos Corpos que compõem a minha equipa, a selectividade do processo tem que ir nesse sentido, e só assim é se norteado pela Especificidade, pela vivenciação continuada de um jogar respeitando os Princípios Metodológicos. Repare-se por exemplo no insucesso que tem sido a tentativa dos principais jogadores de futsal e de futebol de praia se tornarem jogadores de futebol de onze. E porquê?! Porque a adaptabilidade necessária a todos os níveis é significativamente diferente, requer timings diferentes e um ajustamento e formas de interacção diferentes com o contexto envolvente, e que não permitem que o desempenho de excelência que têm no futsal ou no futebol de praia, não se verifique com o mesmo nível de expressão no futebol de onze. E estamos a falar de coisas que em termos gerais são muito semelhantes, mas que como se verifica delas resultam adaptabilidades bem diferentes, agora imagine-se o que sucede quando parte do processo se destina à musculação e a uma preparação física descontextualizada?!

Reforço a ideia que adaptabilidade é uma emergência decorrente daquilo que faço regularmente e em função disso mesmo. E eu tenho que saber que as repercussões que isso assume, assim como as respectivas implicações se verificam a inúmeros níveis. E não menos relevante, sei também que ao interferir sobre uma poderei modificar de forma muito significativa a coordenação entre estas partes que constituem um todo tão complexo. Um todo que é um determinado se for de um modo, e que será outro se for outro o modo de o levar a efeito. Com a agravante de se tratar de um todo altamente complexo, isto é, extremamente sensível às condições iniciais. Adaptabilidade tem de ser adquirida pela vivenciação em Especificidade, é dessa que resulta a adaptabilidade orgânica que eu quero e que me permite que cada jogador e consequentemente a equipa revele uma adaptabilidade funcional e intencional comum. E isto a todos os níveis, ao nível da intencionalidade e do critério na decifração das escolhas mais ajustadas face ao contexto, mas também ao nível do que me permite a concretização dessa dimensão, isto é, a gestualidade e o metabolismo têm de ter adaptabilidades conformes. Tudo isto é interactivo e o nosso Corpo necessariamente tem de o Incorporar interactivamente e através da decifração contextual daquilo que se constitui como estímulo específico.

Para se perceber um pouco como o nosso Corpo é complexo e para se perceber o quanto é complexa a sua modelação, e a sua especificidade proprioceptiva em função do que se habitou a fazer, vou salientar uma história que pode ser pertinente. Recentemente um amigo meu comprou um carro novo, e contrariamente ao carro que tinha anteriormente e que conduziu durante anos, este era automático. Ele contou-me que inicialmente foi para ele um enorme conflito, porque andava sempre à procura do pedal da embraiagem. Ele sabia que o carro era diferente, mas o Corpo ainda não estava aculturado para a diferença, porque não a havia vivenciado o suficiente.

Aproveito esta questão para tentar tornar presente nas pessoas a consciência que a musculação, resulta de uma necessidade criada devido a interesses comerciais. O que me parece é que o fomentar da musculação se deve fundamentalmente a interesses comerciais e tem por trás muito investimento, mas não menor retorno para as áreas médicas. A musculação como o doping formam um conjunto de necessidades impostas que servem para algumas da principais indústrias mundiais, medicina e farmacêutica, exponenciarem os seus lucros. A prova evidente disso passa por ver quem promove, divulga e comercializa tais produtos. São precisamente os mesmos, que sugerem que as crianças não devem andar com mochilas às costas, mas que pelo contrário querem que os jogadores andem com peso acrescido em todo o corpo, fruto da hipertrofia causada pela musculação que apregoam. Não será tão ou mais nefasto que as mochilas das crianças?! Até dói de pensar, sobretudo se tivermos em consideração o quanto são exponenciados tais pesos em alguns dos movimentos e gestos implicados no futebol!!

25. Luis Esteves: Como vê a utilização de exercícios de força como o “agachamento” com barras entre os exercícios de 3 x 3 por exemplo, nos dias de quarta-feira, em um “morfociclo normal” de jogo domingo à domingo?

Jorge Maciel: Desde já importa salientar que isso não é de um “morfociclo normal”, porque quem o faz pertence a outra lógica necessariamente, porque se o faz, e o faz deliberadamente na continuidade sem motivo para o fazer, mas porque entende que aquilo é o essencial, não percebe o essencial da Periodização Táctica, logo não a pode operacionalizar. Por isso vejo-o do mesmo modo que vejo se fosse feito noutro dia, ou seja, é uma estupidez, não faz sentido. É um tipo de movimento que não acontece em jogo, além do padrão motor implicado não ter nada a ver, até porque não implica, timings, qualquer forma de comando e controlo do movimento tendo em conta um valor alvo qualitativo, nem tem uma determinada exigência de interacção com algo em concreto e relativo ao jogo e a um jogar.

Se, me dizem que o fazem para ir de encontro ao padrão de contracção dominante a respeitar numa determinada sessão, ainda mais me convenso que não sabe o que é a Periodização Táctica. Além disso se tenho necessidade de fazer agachamentos é porque como treinador não sou capaz de lidar com a Periodização Táctica, porque não tenho criatividade suficiente para em situações de jogo elevar a propensão para a existencia de contracções excêntricas, por exemplo. Se por outro lado o meu exercício até o permite, mas eu mesmo assim faço agachamentos e coisas do género, estou a interfir numa coisa que é fundamental que é a necessidade de recuperar e não fatigar continuamente os músculos, no caso dominantemente os dos membros inferiores. É também uma insensatez. O que é que vou ter se intercalo isso com exercícios jogados?! Perda de qualidade de desempenho, por fadiga e consequente descoordenação motriz no concretizar e na identificação do que o jogo exige. Como consequência disso aumento o desconforto dos jogadores na vivenciação de um jogar, por errarem e por quererem e não poderem. Se se instala esse grau de frustração nem há aquisição nas condições ideais, porque não o fazem como desejado e também a predespisoção para adquirir é claramente contraproducente. Eu não faço bem, o que faço contrariado ou o que me leva à frustração por incapacidade, as neurociências justificam muito bem isso. O desprazer sabe-se está associado ao mau agir, e o prazer pelo contrário, está associado ao fazer bem-sucedido.

Sei que a questão resulta do facto de haver pessoas que se dizendo identificadas com a Periodização Táctica, o fazem regularmente, e lá está é mais um erro decorrente da não compreensão do modo como deve ser operacionalizado o Morfociclo. Mas de facto a mim choca-me, que pessoas que se dizem identificadas com a Periodização Táctica falem em musculação, em enquadrar na semana sessões de musculação, sessões de potência… e essa é uma confusão das pessoas não perceberem o Morfociclo Padrão e fundamentalmente o que se quer dizer com contracção muscular com tensão ou duração ou velocidade acrescida. Por não saber isso, baralham tudo e confundem a dominância ao nivel de padrão de contracção muscular com algo que não tem nada a ver e claramente associado a uma dita capacidade condicional. É normal ver-se que na quarta feira há uma conotação com o treino da força, na quinta com a resistência e na sexta feira com a velocidade. Não é nada disso. Isso faz tudo parte da mesma lógica, costumo dizer que só mudam as moscas, porque o propósito com mais ou menos adornos é sempre o mesmo, desenvolver a dita condição física dos jogadores, no caso atletas. A Periodização Táctica não tem nada a ver com isso, porque o que se pretende é melhorar o desempenho colectivo, através da indução de melhorias no todo e nas partes, tendo como referencial o todo. Não tem como propósito fundamental melhorar a dita condição física dos jogadores, a tal ponto que não entende como necessário qualquer tipo de testes físicos ou coisas do género. No entanto, não deixa de ter preocupações metabólicas e preocupações relativas à frescura e funcionalidade do Corpo, conforme evidencia a correcta contemplação do Morfociclo Padrão.

26. Luis Esteves: Como o professor vê a questão da alternância do tipo de contração em termos de tensão, duração e velocidade? Qual a importância desta variação de propensão?

Jorge Maciel: este é um aspecto fundamental para a correcta operacionalização do Morfociclo Padrão, pois trata-se de uma das sub dimensões da complexidade que corporizam esta matriz metodológica. É imperativo, para funcionar de acordo com a Periodização Táctica que se entenda o porquê e como levá-la a efeito. Não vou abordar o como porque penso ter sido esclarecido numa questão anterior. Relativamente ao porquê, importa ter consciência que esta lógica de alternância ao nível do padrão de contracção muscular visa a não massificação das estruturas implicadas na vivenciação do jogar, tanto em competição como em treino, e por conseguinte evitar índices de fadiga acentuados, procurando salvaguardar a devida frescura para os momentos de competição sem hipotecar a possibilidade de evolução do jogar. Esta lógica sequencial a vivenciar ao longo da semana, procura também que concomitantemente à vivenciação de um jogar, uma organização colectiva, se induza a nível individual uma adaptabilidade que permita dar resposta às necessidades inculcadas por esse mesmo jogar. Este é um aspecto muito relevante, a possibilidade de incidir e ter repercussões a nível individual, isto é fazer emergir uma adaptabilidade a nível individual que possibilite a manifestação qualitativa de uma intencionalidade colectiva, mas fazendo-o tendo em consideração que essa adaptabilidade individual é sobredeterminada por propósitos colectivos, e vivenciada não necessariamente e não com dominância de contextos individualizados. Tendo em conta esta preocupação, pode dizer-se que a Periodização Táctica não se preocupando com a individualização do treino é, a que mais a respeita, pois é a mais individualizante das metodologias fazendo-o tendo em consideração uma verdadeira Especificidade. Esta lógica de alternância procura também evitar algo que se verifica com frequência, que é uma alternância vertical, e que consiste numa mesma unidade de treino, ter dominâncias distintas resultando daí uma mistura de várias coisas, um padrão caracterizado por não ter padrão. Em alternativa propõe uma lógica de alternância muito inteligente e sensata, digamos assim. Uma lógica capaz de assegurar a aquisição de uma realidade colectiva, salvaguardando que as implicações que o levar efeito desses propósitos requer a nivél individual, não representam desgaste perpetuado e possibilitam maior frescura tanto em competição como em treino. Propõe-se a criar condições para dquirir sem massacrar e perpetuar fadiga. Referi em cima que se trata de uma lógica inteligente e sensata, e acho mesmo que talvez sejam as palavras mais indicadas, pois resolvem um dos grandes problemas com se depara um treinador, que é, a necessidade de salvaguardar a necessidade de recuperar sem que deixe de haver aquisição, e fazendo-o assegurando que a nível individual incido sobre e do modo que pretendo, sem que o jogador perca funcionalidade e além disso acelere a sua recuperação. Já salientei a importância daquilo que chamo de regra dos 4 dias, e esta é a única forma que conheço, que admite que que face à necessidade dos 4 dias de recuperação, eu posso treinar, e fazê-lo de forma aquisitiva, fazendo algo que tem que ver com o nosso jogar, sem colocar qualquer estorvo á necessidade de estar fresco e ainda por cima, se devidamente operacionalizado acelerar a recuperação. Quando começamos a relacionar esta necessidade de alternância, com a necessidade de assegurar um determinado padrão metabólico, e a necessidade dos Princípios Metodológicos percebemos o quão bem engendrada está a Periodização Táctica, e o quanto é fascinante a complexidade que ela comporta. Por isso é também de certa forma um desafio, conforme referia Morin a complexidade é um desafio.
 
27. Luis Esteves: Notadamente o ganho de massa muscular é uma preocupação no futebol, aqui no Brasil por exemplo temos sempre surgindo jogadores esguios, magros e de baixa densidade muscular, porém com grande qualidade técnica, velocidade e outras características, a exemplo ultimamente de Neymar e Paulo Henrique Ganso, e em outros tempos Robinho, Nilmar, Pato, dentre outros. O que o professor acha da teoria de modificar a estrutura deste tipo de jogador, dando-lhe mais massa muscular para suportar futuros choques ou algo do tipo?

Jorge Maciel: Não será um contra-senso, abdicar daquilo que nos torna diferentes, e no caso melhores, para investir naquilo que não temos como património ecogenético e nos leva a sermos iguais aos outros?! Se o futebol do Brasil ao longo da história, assim como o de Portugal, foi tendo contornos únicos em parte devido à corporalidade padrão do país e até foi bem-sucedido, fará sentido nós querermo-nos assemelhar aos outros naquilo que eles são melhores e em que partem em vantagem?!

Acho que é muito pertinente essa referência a alguns jogadores, a eles podemos juntar os maiores craques de todos os tempos. Em 100 dos maiores talentos mundiais, 1 deve perfazer o morfotipo apreguado por quem sugere a inevitabilidade de se fazer musculação no futebol. Quem o faz não percebe as implicações que isso tem a nível biomecânico, e muito menos pondera a história do Corpo. Parte do pressuposto, errado, que o músculo é exclusivamente um órgão efector de movimento, mas não, o músculo (e tudo o que lhe dá vida) tem inteligência, sensibilidade e como tal ao sofrer alterações no sentido de haver mais músculo, haverá ali uma parte nova que é estranha que como tal necessita de ser educada. Há perda de proprioceptividade sobretudo no que se refere à manifestação de uma actividade específica (o futebol) sobretudo porque essas mudanças se fizeram tendo por base uma estimulação que em nada se assemelha ao que depois será exigido. Por tudo isto, pelo desfasamento na forma de adquirir, pelo desfasamento entre o corpo e o cérebro (corpo não tomou consciência das alterações) a propensão para lesões e descoordenação é muito maior. É comum jogadores que em poucos meses verificaram incrementos significativos, manifestarem perda de fluidez de movimentos, maior descoordenação com a bola, e nalguns casos um acentuar significativo do número de lesões.

Alterar o morfotipo de um jogador de futebol, para que pretensamente ele seja melhor sucedido em determinadas situações em jogo, é acreditar que podemos em meses mudar, sem estorvo um Corpo que tem um história de anos e que se desenvolveu em função dessa história e suportado nesse Corpo. Em Portugal diz-se que «não se engorda um peru para o Natal em quinze dias». E acho muito válido para estes casos. Eu tenho que perceber que fruto do desenvolvimento e crescimento de cada jogador, ficou marcado no Corpo de cada um, um conjunto de vivências e de mecanismos ou estratégias que em jogo, lhes foram permitindo ser bem-sucedidos perante aquilo que á partida eram adversidades decorrentes das aparentes desvantagens morfológicas que apresentavam. E isso até me parece não ser muito difícil de detectar, basta estar atento. Por exemplo no último mundial de futebol, na África do Sul, a generalidade das equipas africanas tinha jogadores que mais pareciam ser porteiros de discoteca, mas jogar futebol nada, e nos duelos então eram os mais facilmente ultrapassados. Outro exemplo, na final da Liga dos Campeões Europeus entre o Barcelona e o Manchester United, vimos jogadores como o Messi e o Villa a utilizarem o Corpo em disputas e a conseguirem derrubar jogadores claramente muito mais atléticos que eles!

A hipertrofia que se sugere aos jogadores pode ter implicações muito profundas sobre os jogadores, relembro a história das mochilas das crianças, e reforço a ideia de que deve ser muito desconfortável para um organismo, habituado durante anos a um determinado, num curto espaço de tempo ver-se com ganhos de massa muscular que representam aumentos de peso que podem chegar às dezenas de quilos. Imagine-se só, o impacto e desregulação que tal pode implicar a nível das articulações, e ao nível dos fusos neuromusculares e dos órgãos tendinosos de golgi. Não somente o impacto necessário a suportar é muito maior, como a qualidade de informação dos estados corporais vivenciados requer um reacerto, que inicialmente não existe. Face a isto percebe-se que o risco de lesão pode estar substancialmente aumentado. Mas além disso, geralmente associada à hipertrofia, aumento do volume das células, tem a hiperplasia, isto é, aumento do número de células por tecido. Um incremento que representa necessariamente uma maior necessidade energética, e também um maior dispêndio em exercitação e maior necessidade de recuperação, porque tenho mais células para alimentar e posteriormente para regenerar. Se juntarmos isso ao que referi antes, nota-se que a propensão para a ocorrência de lesões está claramente acentuada. Além disso, contraria aquela que é uma das principais preocupações da Periodização Táctica, o não acentuar dos índices de fadiga.

Para terminar, e referindo-me em concreto ao Brasil, penso que deveria haver uma reflexão profunda no sentido de tentar perceber o que fez e faz do Brasil um país com tão bons jogadores. Noto que as academias que agora se constroem no Brasil são Top, e ainda mais as salas de musculação que têm, mas quanto dos jogadores TOPTOP do passado brasileiro tiveram essas condições? E será que o Brasil no futuro continuará a ser o país no mundo onde reconhecidamente emergiam os melhores talentos? E será que ainda o é no presente? Eu penso que o segredo do futebol passa por recuperar o que se fazia na rua, nas praias em qualquer lado, mas jogando sempre futebol e experimentando um conjunto de vivências paralelas que desenvolviam muito do potencial de cada talento, acho que esse foi o segredo dos grandes craques da história.

28. Luis Esteves: Qual a importância do alongamento? Como define a utilização dos mesmos nas sessões de treino? Diferencia a utilização do alongamento nos diferentes dias da semana?

Jorge Maciel: O alongamento é uma parte importante do processo de treino, porque eu tenho que reconhecer que a vivenciação continuada de um jogar, em treino e em competição, tem implicações e repercussões anatómicas muito significativas, e que tendem a induzir em cada jogador uma determinada adaptabilidade, que se pode paradoxalmente constituir como um estorvo à manifestação da Adaptabilidade intencionalizada que eu quero manifestar como regularidade. Por vezes as pessoas quando falam de Periodização Táctica dizem muito erradamente que “físico não existe na Periodização Táctica” Isso é uma aberração, claro que existe, não do modo convencional mas existe e eu tenho de saber, não somente que existe, como que ao existir tem implicações no modo como eu faço a gestão do processo. Eu tenho de ter consciência que o facto de os meus jogadores estarem constantemente sujeitos a um determinado padrão de actividade tem sobre eles determinadas implicações a nível anatómico e funcional. Esse tipo de repercussões, por exemplo decorrentes do encurtamento das massas musculares mais solicitadas e implicadas na vivenciação do meu jogar pode ser contraproducente e nalguns casos até mesmo constituir-se como patológico. E aí o alongamento assume um papel determinante no sentido de atenuar, minimizar e se possível evitar ou contrariar essa adaptabilidade, encurtamento, que sendo resultante da vivenciação continuada do jogar se constitui como um estorvo à sua manifestação qualitativa.

O alongamento é uma ferramenta muito importante, diria mesmo fundamental para evitar o encurtamento das massas musculares, para possibilitar a uma maior agilização do Corpo em movimento e em interacção com o que o rodeia. Do mesmo modo que não há princípios sem pessoas, também não existe possibilidade de os concretizar e dar vida se o Corpo e a gestualidade que os manifestam ou tentam não o permitem, porque não estou ágil, nem flexível e não consigo concretizar ou concretizo sem eficácia determinadas acções ditas técnicas porque a minha amplitude articular não o permite.

Quanto ao modo de levar a efeito os alongamentos, eu identifico os grupos musculares mais implicados no nosso jogar e não vario de sessão para sessão os músculos a alongar. Sei quais os grupos musculares dominantemente e continuadamente implicados e alongo-os sempre, até por uma questão de habituação da parte dos jogadores. Dos poucos aspectos que pondero e isso vai da sensibilidade de cada um, é evitar que se sentem, levantem e voltem a sentar. Para além disso não tenho muitas mais preocupações, até porque as necessárias, me são salvaguardadas pela própria configuração fraccionada das sessões de treino. Isto é, sei que em determinadas unidades de treino, pela sua configuração padrão, tenho mais necessidade de alongar. No entanto, e por isso é que a Periodização Táctica está tão bem engendrada, as sessões em que mais necessito de alongar são também aquelas que mais me permitem fazê-lo, pois são as mais fraccionadas.

29. Luis Esteves: Como o professor vê a Fadiga física e Mental, e quais as suas particularidades?

Jorge Maciel: Eu vejo a fadiga como um todo. Apesar de convencionalmente se falar em fadiga central e periférica, eu entendo que ainda que uma possa ter mais predominância do que outra em determinados momentos, uma vez que elas estão mutuamente implicadas não as considero isoladamente, até porque quando recupero também não o faço. Estou fatigado, quando o meu Corpo está fatigado e para mim o Corpo é tudo. Esclarecida esta minha perspectiva, entendo que a fadiga é dos aspectos mais relevantes a ter em conta no processo de treino. E sem dúvida que a Periodização Táctica tem como grande preocupação a fadiga, ou mais precisamente a possibilidade de através de um lógica de desempenho recuperação possibilitar que a fadiga não se instale nem se perpetue numa equipa, sem que esta perca possibilidade de adquirir e evoluir, mas salvaguardando a sua frescura nos momentos de competição. Gestão complexa que só é possível através da adequada operacionalização do Morfociclo. Infelizmente o que se observa por norma, é que a lógica de não alternância dos processos de treino não permite que as equipas se encontrem frescas no momento de competição. As equipas preocupam-se em treinar bastante durante a semana e descansar ao fim de semana, facto que só não é mais evidente porque por norma jogam em pé de igualdade. Aliás penso que esse fenómeno é muito evidente no Brasil por alturas dos estaduais, quando a densidade competitiva é grande e nem todas as equipas têm as mesmas condições temporais para treinar, ou fruto de serem estruturas com dimensão diferente não têm a mesma possibilidade de treinar. Então o que é que se verifica, verifica-se que equipas com orçamentos muito mais reduzidos, e com menos meios (mas talvez os necessarios) para treinar e disponibilidade de tempo, acabem por antes dos jogos treinarem menos que equipas com maiores orçamentos e com maiores aspirações, no entanto, apesar de tudo aparentar serem desvantagens quando em confronto acontecem surpresas, especulo eu que devido á maior frescura das equipas ditas mais modestas. Porquê?! Porque treinaram menos e não se cansaram durante a semana.

Mas voltando à resposta e salientando a importância da fadiga no processo de treino, importa referir que a fadiga é uma necessidade para a potenciação e maximização dos desempenhos. No entanto, tem de ser circunstancial. A necessidade de induzir fadiga é reconhecida como fundamental pela generalidade das metodologias de treino e aqui a Periodização Táctica não é excepção, contudo, também aqui ela se revela transgressora, porque reconhecendo-a como fundamental equaciona-a de forma diferente. E é diferente porque tem como preocupação a não perpetuação da fadiga e a não exercitação em condições de fadiga acumulada e acentuada. Além disso, aquilo que a motiva, que motiva a fadiga, são estímulos relativos aos desempenhos relativos a um jogar, e não as ditas “cargas” físicas.

Na Periodização Táctica entende-se que a adaptabilidade decorre da vivenciação continuada, ainda que em diferentes escalas, de um jogar. Uma vivenciação que devendo ser qualitativa deverá necessariamente induzir fadiga, caso contrário seria um estímulo irrelevante do ponto de vista aquisitivo. Para quem pensa o treino deste modo, deve conceber o Corpo como uma estrutura dissipativa, ou seja, como uma realidade complexa que carece de ser constantemente e continuadamente levado aos limites do possível para que se transcenda e possa atingir estados de complexidade sucessivamente mais complexos e maximizados. Portanto, para que se observe tal transcendência o organismo, no caso em interacção induzida pelo treino, tem de ser levado aos limites, para que nele se instale uma desestruturação, que possibilite posteriormente a sua regeneração ou reestruturação passível de alcançar níveis de adaptabilidade superiores. Sendo isto relevante, ou reconhecendo-se que isso de facto acontece, importa equacionar de que modo o organismo ou o Corpo após ser submetido a um estímulo que o levou aos limites, a todos os níveis, pode reorganizar-se sem deixar de respeitar o que era, mas fazendo-o de forma exponenciada. Considero este processo como um processo de resiliência orgânica ou Corpórea, no qual o organismo sofre um estímulo que não é nem deve ser inócuo, desestruturando-o, mas que depois de superar esse conflito se revela reorganizado e potenciado sem perda de identidade. No entanto, entendemos que para o Corpo ser capaz de ser resiliente, carece de tempo para se repor do abalo a que foi submetido, somente desse modo a reorganização se torna possível. Ora isto implica que após eu submeter o organismo a um estímulo de treino, o qual lhe induziu fadiga considerável, eu só devo fazê-lo novamente depois de proporcionar o tempo necessário para que a fadiga não esteja presente no organismo, ou esteja de forma muito residual.

Quanto ao modo como a fadiga se pode manifestar ele pode ser muito diverso, e é muito importante que eu enquanto treinador saiba identificar e detectar quando os jogadores estão fatigados, para evitar entrar num processo corrosivo de degradação permanente de performance quando o que pretendo é o contrário. A fadiga pode por exemplo manifestar-se na concretização da gestualidade, mas também no critério que a suporta e nos timings de manifestação, quando a fadiga se instala observa-se como que um prolongar que leva a que a coisa não saia tão fluida. Sabe-se, embora ainda muito pouca gente, que o ATP tem dupla função o que é mais uma prova que ambos os tipos de fadiga se implicam mutuamente. E este é um aspecto muito importante para o treino e para a qualidade do processo de treino. O ATP além de se constituir como elemento fundamental no mecanismo de contracção, conforme se sabe generalizadamente, é também um elemento determinante no controlo e comando do movimento. Trata-se portanto de uma molécula determinante para a proprioceptividade e para a sua manifestação qualitativa, pois auxilia nas tarefas de informação sobre os diferentes estados que o corpo experimenta a cada momento. Daqui se depreende que a sua depleção ou não ressintese, devido à sua utilização anterior e nalguns casos sobreutilização, terá implicações muito significativas na qualidade da gestualidade, tanto ao nivel da sua concretização como na sua componente informacional, a possibilidade de antecipar será certamente muito menor por exemplo, porque o Corpo está letárgico adormecido, ou melhor dizendo desinformado. Será um Corpo cego e sem inteligência. Este aspecto reforça ainda o que referi antes, ou seja, a necessidade de dar tempo para que o organismo retome a sua funcionalidade normal, no caso para permitir a ressintese de ATP, antes de ser submetido a novo estimulo. O que contraria muito do que é postulado nas lógicas de treino convencionais, nas quais o propósito é induzir fadiga, mas de forma continuada, para que através da sua perpetuação, acreditam eles cheio de boas intenções, o organismo consiga responder melhor em condições de fadiga. Ora o que se persegue na Periodização Táctica não é nada disso, pois reconhece-se que tais intentos contrariam a possibilidade de fazer emergir a adaptabilidade desejada, hipotecando por exemplo, a possibilidade do padrão metabólico dominante ter como suporte fundamental e predominante o metabolismo anaeróbico aláctico, aquele que torna possível ir á fronteira do caos e por conseguinte elevar o Corpo para patamares de desempenho continuadamente superiores.

30. Luis Esteves: Quais métodos utiliza no processo de recuperação fora os exercícios?

Jorge Maciel: Na verdade não são métodos são instrumentos utilizados por quem operacionaliza o processo de acordo como uma Metodologia, a Periodização Táctica. O Professor Vítor Frade designa-os de “afinar porcas e parafusos” numa analogia aos carros de fórmula 1. É que tal como os carros de fórmula 1, também os jogadores pela vivenciação do processo de treino e competição, fazendo-o como desejado nos limites do possível, se vêem obrigados a constantes afinações, conforme salientei numa resposta anterior. Não é um preciosismo dizer que não são métodos, a Periodização Táctica é una, não tem nem precisa de complementos, e quem entender ou disser que isso são complementos não percebe a essência do que se está aqui a tratar, porque não compreende nem reconhece os diferentes níveis que o jogar comporta. Por vezes fala-se em fractais mas esquecemo-nos que um fractal deve ser um fractal de tudo, se não, não o é, e a necessidade de recuperar e salvaguardar a funcionalidade das estruturas que concretizam a gestualidade implicada no jogar tem de ser entendida como uma parte do nosso jogar e com a qual devemos ter especial preocupação. A Periodização Táctica requer que o processo de treino tenha qualidade, logo intensidade, e seja capaz de envolver os jogadores no sentido de os levar aos limites do possível, relativizando-se isto em função da configuração de cada sessão. É da qualidade do processo que emerge a manifestação exponenciada da Especificidade que desejo, e para isso é fundamental que os jogadores experimentem constantes estados de adaptabilidade melhorada, o que implica que eu os desafie e os estimule no sentido de andarem constantemente nos limites do possível, que deste modo desejo que seja um constante estado de transição. Para que haja uma evolução a nível individual e colectivo torna-se fundamental que os estímulos induzam nos jogadores, e consequentemente na equipa, a necessidade de reestruturação permanente, sem que se verifique a perda de integridade. Estamos portanto perante um dos grandes desafios do treino, o doseamento e o ajustamento. Como estimular aquisitivamente sem induzir um estado de desregulação tal que não hipoteque a evolução e assimilação contínua da aquisição. Isto implica perceber o processo e a adaptabilidade induzida em cada jogador como uma espécie de estrutura dissipativa, que através de um processo de resiliência corpórea experimenta, uma desestruturação momentânea, para posteriormente ascender ou fazer emergir um nível de complexidade superior. Não obstante o que referi, isto só se torna possível se a recuperação o permitir. A necessidade de recuperar é fundamental, e deve ser equacionada a vários níveis, entre jogos, entre treinos e no próprio treino, para que o processo tenha qualidade. Pelo facto da recuperação e das “ferramentas” de que me socorro para a levar a efeito serem uma dimensão do nosso processo, não as posso conceber como uma metodologia ou metodologias auxiliares e à parte. É muito simples, de que me adianta ter uma determinada concepção de jogo, treiná-la, mas não atender ao desgaste que ela provoca?! É uma especificidade canhestra, uma espécie de holismo balofo. Eu tenho de ter consciência que o Jogo, e de modo particular o meu jogar têm implicações biológicas, isto é, a todos os níveis, cognitivos, metabólicos, musculares… e na relação altamente complexa entre tudo isto, e se não atender a isso no meu processo de treino nada feito. A Especificidade só emerge do processo se eu tiver Intensidade na vivenciação do meu processo e para isso importa respeitá-lo em todas as suas dimensões. Se não o fizer estarei a hipotecar a possibilidade de vivenciar e expressar com regularidade e com o grau de desempenho desejado (em treino e competição) aquilo que pretendo como identificador do meu jogar. O não respeito por isso hipoteca a Especificidade, daí que não sejam metodos per si, mas ferramentas de uma metodologia que é única e que se preocupa com tudo o que está relacionado com o fazer emergir uma forma de jogar.

Dos aspectos mais relevantes na configuração de cada sessão de treino que compõem o Morfociclo Padrão são a intermitência da sessão e os tempos de exercitação e não menos importante de repouso. E por vezes parece-me que são entendidos como aspectos irrelevantes. Muito pelo contrário são determinantes, pois são o que me garante, em conformidade com o regime dominante no treino, que os exercícios tenham a intensidade pretendida, que a aquisição tenha momentos de aquisição verdadeiramente aquisitivos, que se verifiquem períodos para a estabilização de tais aquisições, que o padrão metabólico dominante que quero implicado na vivenciação seja assegurado e que me permite que não se instale na equipa um estado de fadiga permanente e perpetuado. O modo como rentabilizo os momentos de pausa é determinante em tão complexa gestão. E eu rentabilizo-os com as tais “ferramentas” que me ajudam a salvaguardar a funcionalidade de cada jogador. Recupero no próprio treino através de momentos de extensibilidade, alongamentos portanto, através da realização de abdominais. E posso fazê-lo estando a falar sobre os desempenhos verificados nos exercícios anteriores, falando sobre a relevância de determinando aspecto, sobre a articulação disto com aquilo. São momentos do treino em que eu posso aproveitar para recuperar através da realização de alongamentos, hidratação, abdominais, e simultaneamente de forma mais formal identificar e sintonizar os jogadores com o que se fez, se tem feito e a relação disso com o que se perspectiva vir a fazer.

Anteriormente já falei sobre a importância dos alongamentos, mas penso ser igualmente importante salientar a importância da realização de exercícios abdominais, e fundamentalmente elucidar o porquê de tal necessidade, o que penso a generalidade desconhece. Eu não faço abdominais para os jogadores ficarem bonitos na praia. A maior parte das vezes quando se fala na realização de abdominais as pessoas referem a necessidade de os tonificar. Eu acho que está muito para além disso. A zona da bacia é uma zona que devido à aquisição do bipedismo sofreu várias alterações, que no entanto nos colocam alguns entraves quando, como no caso do futebol, se observa uma sobreestimulação das estruturas que aí se inserem. Fundamentalmente tenho de perceber que naquela zona do nosso corpo se inserem várias porções musculares, as quais se “digladiam” por espaço, o que não abunda dada a elevada densidade de fibras musculares que ali existem. Verifica-se portanto uma incompatibilidade anatómica decorrente do facto de ter muito para meter em pouco espaço. É como se tivéssemos uma mala para viajar e o que nela queremos colocar se não for devidamente acomodado e devidamente dobrado não poderá ir dentro, ou se for corremos o risco de rebentar com os fechos. E naquela zona temos este problema, que quando não devidamente equacionado e operacionalizado pode resultar em lesões, que na realidade são a expressão do não reconhecimento das exigências funcionais que a vivenciação continuada de um jogar implica. Ou seja, resulta do não reconhecimento dos vários níveis de especificidade que permitem o emergir da nossa Especificidade. O caso mais evidente deste quadro de “desrespeito”, e também de “desrespeito” pelo binómio EsforçoRecuperação é a pubalgia. A pubalgia é uma consequência da amplificação do desequilíbrio muscular que se observa ao nível da parede abdominal. Sendo consequência da alteração de equilíbrio que deve verificar-se entre os músculos abdominais e as massas musculares dos membros inferiores que se inserem na zona pélvica. Devemos ter consciência que no futebol, acções como o remate, salto, deslocamento lateral, travagens, mudanças de direcção… assumem uma grande relevância na alteração de tal equilíbrio, contribuindo consequentemente para a sua disfuncionalidade. Por norma observa-se que nos jogadores de futebol há um sobredesenvolvimento dos músculos adutores e um subdesenvolvimento dos músculos abdominais. Podemos evitar que tal desequilíbrio se instale, e se salvaguarde a funcionalidade harmónica desta região anatómica tão implicada e tão importante no futebol se controlarmos bem o doseamento necessário nas sessões de treino e se nos momentos de pausa aproveitarmos para estimular a região abdominal e respectivo alongamento assim como para alongar as massas musculares dominantemente implicadas durante a exercitação, entre as quais os músculos adutores e o psoas ilíaco, “para que todos caibam na mala”, sem se digladiarem. Importa por isso referir que mais do que tonificar a região abdominal, o relevante é a sua agilização. Por esse motivo o alongamento desta região é também muito importante para a fluidez da gestualidade e para a prevenção de lesões. Sendo o meu objectivo a agilização desta zona, não faz sentido que eu a estimule em isometria, por exemplo. Mas também não os devo estimular de forma dinâmica de modo indiferenciado. Muitas vezes observo que grande parte dos exercícios abdominais que se realizam são desajustados, ou quando não o são não são devidamente realizados, nem há intervenção no sentido de os corrigir. Não raras vezes aquando da realização de exercícios abdominais existe uma solicitação parasita de músculos já sobresolicitados pela vivenciação do jogar, nomeadamente o psoas ilíaco, o recto anterior, tensor da fáscia lata e também os adutores. Como diria o professor Vítor Frade fazê-lo é como dar sal a alguém que é hipertenso. A sobresolicitação destes músculos hipersolicitados na prática de futebol, contribuirá de forma muito negativa para o desequilíbrio, cada vez maior entre os músculos da parede abdominal, enfraquecidos, e os da perna, geralmente muito desenvolvidos. É por isso que devemos ter muito critério na escolha dos exercícios abdominais, fugir do desejo de inventar coisas diferentes e assegurar que temos um controlo qualitativo do modo como os jogadores os realizam. É por tudo isto que treinar é altamente complexo, mas não menos desafiante.

31. Luis Esteves: Como vê a crioterapia no dia a dia de uma equipe?

Jorge Maciel: O recurso à crioterapia vejo-o como vejo o recurso a outros meios que tentam acelerar a recuperação dos jogadores, seja através de suplementação vitamínica, seja através de massagem ou de qualquer outra forma. Ou seja, entendo que se o que se pretende com o treino é uma determinada Adaptabilidade, a um referencial colectivo e ao processo que lhe dá vida, mas que se deve instalar em cada um dos organismos intervenientes no processo, o recurso a tais meios poderá constituir-se como um estorvo e até de certa forma como uma dependência por parte do organismo em relação àquele que é um dos meus objectivos com o treino. O Professor Vítor Frade tem uma expressão muito boa relativamente ao que tento referir, quando diz que recorrer a esses meios consiste em “dar muletas ao corpo”. E de facto é, eu comparo-o às mulheres girafa de algumas tribos africanas e asiáticas, ao longo de um processo de desenvolvimento e crescimento vão-lhes sendo colocadas argolas em torno do pescoço, o que além de o tornar maior também lhe serve de suporte, por isso a musculatura daquela zona acaba por atrofiar e perder sensibilidade, a tal ponto que se as argolas forem retiradas a cabeça tomba sobre o tronco e elas morrem. Pode parecer uma visão excessivamente Lamarckiana, mas não me choca e eu acredito que o mesmo suceda com os jogadores quando lhes damos tais muletas. “A função faz o órgão”, por isso se treina, para criar uma adaptabilidade que se constitui em várias alterações a nível orgânico, e não para que fique tudo na mesma. Se o que pretendo é induzir uma adaptabilidade a um determinado padrão de esforçar recuperar, Morfociclo Padrão, e se reconheço que o processo e as entidades Biológicas que lhe dão vida são altamente complexas, e por isso mesmo extremamente sensíveis às condições iniciais qualquer pormenor, e sobretudo no inicio do processo, pode ter repercussões inesperadas sobre o que se deseja.

Agora entendo que há aspectos que devemos ponderar, mas por princípio no início da época parece-me desaconselhado, lá está, porque quero que seja o organismo por si a ter que revelar resiliência orgânica e crie uma adaptabilidade ao processo sem intervenção de meios exógenos, porque isso iria induzir a nível metabólico uma certa dependência e uma adaptabilidade condicionada e regulada também externamente.

Entre os aspectos que nos podem fazer ponderar sobre o uso ou não de tais meios, a densidade competitiva pode ser talvez o mais relevante. Quando a densidade competitiva se adensa, a necessidade de acelerar a recuperação é o aspecto mais fundamental, não para os cansar em treino como sucede na generalidade dos casos, mas antes para que a equipa possa estar o mais fresca possível nos momentos de competição. Quando temos na continuidade muitos jogos em curto espaço de tempo pode fazer sentido recorrer a tais meios. Mas repare-se, se eu o fizer quando de facto necessito o efeito será mais proveitoso, se pelo contrário ao longo da época e desde inicio os jogadores foram se socorrendo de tais meios, que acrescento eles poderão constituir em tais momentos que mais preciso?! Se não habituei o organismo a esses meios e pelo motivo apontado vejo que naquele momento se torna pertinente, aí sim vou tirar grande rentabilidade, vou conseguir potenciar o efeito que desejo com o recurso àquele meio, porque até então, e como o organismo não tem necessidade do que desconhece e daquilo que não se instala como necessidade, passa a contemplar aquele meio como um acrescento diferenciador.

Outro aspecto importante a ter em consideração é os hábitos e as crenças dos jogadores. Há jogadores que têm uma história, e cada qual tem a sua por isso é tão complexo e interessante treinar, que passa pela utilização continuada de meios como a crioterapia, a massagem, banhos ou suplementação vitamínica e isso tem um peso enorme sobre eles. Aí é fundamental ter sensibilidade para perceber as motivações dos jogadores quando recorrem a tais meios, e ter muita sensibilidade para tentar lhes fazer perceber o que referi em cima, ainda que com outra linguagem. Os jogadores são muito inteligentes e têm muita sensibilidade para estes aspectos, desde que saibamos mostrar que o que lhes estamos a dizer faz sentido. Por exemplo eu posso dizer no inicio da época que será melhor ele não recorrer ao que quer que seja, justifico e explico os motivos, e dou-lhe até ao inicio da competição para ele experimentar, porque aí o lado da superstição e da crença não é tão relevante, pelo menos em termos de resultado, depois se ele não se sentir confortável a partir daí ok, acordamos ele continuar a fazer o que fazia até então em termos de ajudas exógenas. E este período o que é que me permite?! Desde logo, permitiu que num período importante e considerável de tempo, em que eu desejo uma adaptabilidade a um processo e a um padrão de desempenho recuperação, que ele vivenciasse tal processo sem estorvos externos e como que fosse o organismo a adaptar-se. E além disso pode até resultar e abolir por completo a crença que tinha. Aliás a propensão para isso será, parece-me, muito maior com a Periodização Táctica do que com outras metodologias, porque o sentimento de desconforto e de extenuação sentido nas ditas pré épocas não se verifica de forma tão marcada como nas outras metodologias. Logo, o jogador mesmo crente que precisa, o processo requisita menos tal necessidade porque a reacção do organismo é menos violenta. Penso mesmo que o recurso a tais meios, sobretudo em momentos precoces das épocas resulta disso mesmo, da enfâse que é dada à dita dimensão física na generalidade dos processos de treino, e nesses casos talvez seja de facto uma necessidade e até inevitabilidade, pois há quem faça coisas completamente desumanas, as quais induzem no organismo um desconforto terrível e uma enorme desregulação.

32. Luis Esteves: Feedback e Feedfoward são dois pontos importantes na facilitação do entendimento das informações, gostaria de saber do professor que importância atribui a cada um deles, e em que momento utiliza-os?

Jorge Maciel: De facto, tanto o feedback como o feedfoward são dois aspectos, ou estratégias de intervenção determinantes para o alcance ou concretização daquela que é uma das grandes pretensões da Periodização Táctica, e que passa pelo desenvolvimento concomitante do saber fazer com o saber sobre esse saber fazer. Também aqui mais importante do que conhecer e pronunciar os conceitos importa reconhecer o seu potencial operativo e ainda mais, importa que os saibamos utilizar de forma adequada e contextualizada. São por isso ambos de extrema importância se devidamente operacionalizados, não consigo estabelecer um grau de relevância de um em relação ao outro porque de facto ambos são determinantes para a identificação, esclarecimento, sintonização e concretização da intencionalidade colectiva desejada e vivenciada. Trata-se portanto de uma questão, não de grau de relevância mas antes de uma questão de ajustamento, de critério relativo aos instantes em que nos socorremos de cada um e ao modo como o fazemos. Não obstante deve se reconhecer que o feedback tende a ser mais favorecedor de uma aprendizagem por recepção, enquanto que o feedfoward vai mais de encontro a um processo de descoberta. Compete por isso ao treinador perceber quando recorrer a cada um deles, ou se assim o entender a geri-los inclusive de forma conjunta. Para isso tem de perceber a realidade envolvente, o que tem para transmitir, quem tem para receber tal transmissão e em que circunstâncias isso acontece. Por exemplo no caso da nossa situação na Líbia tínhamos de pesar muito bem estes aspectos, porque estando com ou sem tradutor sentíamos que a comunicação em termos de linguagem não era a ideal e nesse sentido, a consciencialização em relação ao que queríamos que fizessem ficava mais dificultada e por vezes era mesmo impossibilitada. Reconheço que idealmente, num mundo sem circunstâncias, e portanto num mundo irreal, seria preferível a dominância estar no lado do feedfoward, mas a realidade obriga-nos a ter que reconhecer que aquilo que é didaticamente ideal, na prática, num determinado contexto pode não o ser. O que quero com isto dizer é que face às circunstâncias tudo tem de ser ponderado parcimoniosamente, ainda que aparentemente e paradoxalmente não raras vezes intuitivamente, para que a intervenção seja contextualizada, pois só essa me permite chegar de facto onde quero, isto é, ao fazer emergir uma determinada Especificidade. Por exemplo, enquanto treinador temos de perceber que muitos aspectos, habituação dos jogadores, incapacidade dos jogadores para descobrir o caminho ou incapacidade do treinador para lhe dar as pistas certas para o encontrar, urgência de resultados, falta de tempo para construir um processo assente dominantemente na descoberta guiada… entre muitos outros, podem condicionar o meu desejo de os levar a tomar consciência, pela descoberta, daquilo que se deseja adquirir. Quando assim sucede mais vale reforçar as respostas que eles nos vão dando no fazer e a partir daí identifica-los como o queremos e trazê-los para a esfera do saber sobre esse saber fazer. Mas devemos ter consciência que no primado está a acção, ou se quisermos a interacção. E sobretudo aquilo que eles à partida já manifestam como sendo a representatividade de determinada acção. Com base nisso, no que eles fazem tentamos identificá-los com o que desejamos, descomplexificamos o processo por vezes dando pistas que são quase soluções e reforçando, positiva ou negativamente, o que eles vão concretizando ao longo do processo e sempre que possível torná-los envolvidos na construção do processo. Portanto, paradoxalmente a ideia, que é inicialmente do treinador, tem de ser transmitida partindo fundamentalmente de quem a vai receber e incorporar, os jogadores. E é à medida que ela vai sendo assimilada e tornando-se cada vez mais dos jogadores que o treinador deve a fazer convergir, de forma mais “forçada”, com aquilo que são as suas ideias. Isto é, inicialmente os contornos gerais da ideia devem ser transmitidos partindo daquilo que é o grupo de jogadores em questão, daquelas que são as suas crenças, habituação… e a partir daí, quando a crença e adesão ao esboço da ideia se vai tornando cada vez mais consolidado é que o treinador deve modelar a ideia nos seus contornos em função do que pensa ser relevante para a potenciação do esboço inicial. Ainda que tal potenciação deva respeitar a ideia inicial, ou intenção prévia do treinador, ela não pode ser autista, daí ter de considerar se de facto os contornos que o treinador quer dar à “coisa” fazem sentido ou são exequíveis perante aquele contexto e grupo de jogadores. Concretizando eu tenho que os identificar com o que quero, reforçar quando o fazem e á medida que o processo se desenrola torná-los conscientes da profundidade daquilo que fazem. Por exemplo, se eu tenho uma equipa que tem uma habituação de anos em que as referências defensivas de marcação são individuais eu vou ter muito trabalho e necessariamente terei de ter muita sensibilidade para lhes transmitir e fazê-los incorporar aquilo que é um desejo meu. Terei de partir deles para perceber como desmontar tal habituação, terei que os identificar com o que quero, levá-los a fazer e estar muito atento na intervenção para intervir em conformidade e reforçar o que vai acontecendo e sendo por eles manifesta, ao longo de todos este processo vou tentar que eles sintam e percebam porque o devem fazer e que implicações tal funcionalidade tem, em cada um e no colectivo. Não é fácil, e sobretudo temos de ter perfeita noção que não há receitas, apela fundamentalmente ao Sentido da Divina Proporção, daí que não faça sentido estabelecer momentos para a utilização tanto do feedback ou do feedfoward. E esse é o lado engraçado e desafiador do processo, não há receitas, tem de haver arte na gestão de tudo isto. Eu penso inclusive que muita da robotização manifesta por muitos jogares resulta da renúncia da parte dos treinadores ao lado intuitivo da gestão dos processos de treino. Parece que parte da pergunta feita, “em que momentos utiliza-os” espelha uma tendência generalizada nos treinadores, e que quanto a mim radica na não capacidade de lidarem com a complexidade e com o que esta implica, nomeadamente a necessidade de estarmos perante uma realidade que não é à partida totalmente conhecida. Quando lidamos com uma realidade como o treino e o jogo temos de ter consciência que, apesar de estarmos a lidar com uma realidade que queremos no global sobredeterminada pelos nosso intentos, na verdade não passa de uma realidade em parte, ao nível do pormenor, imprevisível. E isto cria receio nos treinadores, que na verdade desejam ser verdadeiros deuses de Laplace e ter um controlo total sobre tudo, o que é impossível. E reconhecer isto é quanto a mim um passo muito importante para melhor lidar com o desconforto que é lidar com o desconhecido. Se assim encararmos o treino esse desconforto adrenalinico torna-se muito estimulante e desafiador, é de facto o que nos dá pica.

33. Luis Esteves: Qual o conceito do professor sobre a Intensidade máxima relativa?

Jorge Maciel: Quando se fala em intensidade máxima relativa, devemos considerar que tem a ver com a necessidade de se perceber o que é um valor alvo, ou seja, trata-se de um problema de escolha e de critério face aos condicionalismos circunstanciais que o contexto me coloca. Tem portanto que ver com o ajustamento. Por exemplo eu posso ter uma velocidade de deslocamento máxima bastante grande, mas não fazer dela o melhor uso, ou seja, não a aproveitar em conformidade com o que o jogo me requisita. O Messi não é mais rápido que o Walcott, mas tem muito mais critério no uso que faz da velocidade, tem timings mais ajustados, acelerações, travagens e mudanças de direcção em conformidade com o que lhe vai sendo necessário, por isso joga regularmente em intensidades máximas relativas, porque face ao contexto ela ajusta para lhe responder com o desempenho mais eficaz e eficiente. Isto no que se refere à intensidade relativa ao nível do desempenho de um jogador, ainda que como se torna evidente em interacção cooperante ou de oposição. Mas podemos também falar noutro tipo de intensidade máxima relativa, a que se reporta ao grau de intensidade ou complexidade requerido em cada dia do Morfociclo. O que se pretende na Periodização Táctica é que a intensidade na vivenciação de um jogar seja sempre máxima, entendendo-se a intensidade associada à concentração e também à qualidade do desempenho, o tal problema do ajustamento que salientei. Contudo, como a configuração padronizada de cada dia difere, também a intensidade implicada nas várias unidades de treino difere. Há portanto que relativizar a noção de intensidade máxima. O treino de quarta-feira tem nos exercícios menos elementos em interacção que o de quinta-feira, o que faz com que a intensidade de quinta seja “mais intensa”, pela maior complexidade que comporta, que a de quarta-feira que no entanto, para aquele padrão de desempenho tem de ser máxima. O mesmo sucede com os restantes dias do Morfociclo padrão, as intensidades têm de ser relativizadas em função do padrão de exercitação e de aquisição implicados na respectiva sessão, sendo que a intensidade máxima em cada dia emerge da qualidade dos desempenhos manifestos, ou seja, do modo como os jogadores se ajustam e reajustam aos estímulos que sobredeterminam as suas acções nos contextos de exercitação.

34. Luis Esteves: A concentração é fundamental na intensidade, porém na sua visão como ocorre o processo de evolução da continuidade da concentração?

Jorge Maciel: Na Periodização Táctica a intensidade está necessariamente associada à concentração, e a sua evolução ocorre do mesmo modo, ou de forma análoga ao que sucede com a evolução do jogar. Isto é, acontece fundamentalmente fazendo. E claro, eu entendo que há um aspecto determinante para que o processo tenha intensidade, que é a capacidade que o treinador tem para liderar o processo. Só sabendo liderar, independentemente do modo, se pode exigir dos jogadores, ou melhor, se eu for de facto líder consigo catalisar os jogadores no sentido de se implicarem activamente, e necessariamente concentrados, na vivenciação do processo, ou seja, liderar é fundamental para ter qualidade e como tal intensidade nos desempenhos e somente desse modo emergirá uma Especificidade de qualidade. Depois claro está, há também outros aspectos como a necessidade de alimentar a concentração em função daqueles que são os estados que a equipa vai manifestando ao longo do processo, e aí além da liderança os próprios conteúdos de treino e o ajustamento ás circunstâncias de determinado período ou circunstâncias que a equipa está a viver são aspecto relevantes. De uma forma geral temos de ter consciência que a evolução da complexidade vai de encontro ao Princípio da Progressão Complexa, do menos para o mais complexo e sabendo que isso não é linear, e que além disso em determinadas alturas menos é mais. Um aspecto interessante é que, em termos ideais, eu não imponho concentração devo antes levá-los a estarem concentrados pelo fazer, pelo perceber e por gostarem de fazer e perceber, nesse sentido é também uma emergência do processo. Se o meu processo é desmotivante, não evolui involui, regride, se for estimulante passa a instalar-se como hábito e como tal acontece espontaneamente. E aqui eu penso que a Periodização Táctica apresenta várias vantagens relativamente às restantes metodologias, desde logo permite que os jogadores adquiram algo em concreto fazendo o que gostam, isto é, jogando, e além disso pela tentativa de desenvolvimento concomitante do saber fazer com o saber sobre esse saber fazer faz com que os jogadores se sintam mais implicados e activos na construção do jogar, logo também à partida mais motivados para o fazer, pois sentem esse jogar como parte sua.

35. Luis Esteves: Como o professor vê a questão da organização em uma equipe de futebol? A organização deve ser rígida ou seja, partindo de uma ordem, ou deve ser flexível partindo de uma desordem?

Jorge Maciel: Olhemos por exemplo para o futebol de rua, o futebol de rua é organizado, porque há algo de organizativo que emerge do facto de estarem em interacção, no entanto, o modo como essa organização se manifesta é o que desejamos?! A vantagem do treino é precisamente essa, permitir dar um sentido ao que emerge, e aí o treinador assume-se como mentor, mas também e não menos importante como catalisador, pois é ele o responsável máximo do processo que vai permitir dar vida ao que inicialmente era apenas uma intenção colectiva sua, se possível complexa e capaz de aspirar a um jogar de qualidade. Para que assim seja devo reconhecer que a riqueza de uma determinada realidade resulta da sua complexidade, a qual é tanto mais rica quanto mais permitir que organização e caos se expressem sem um estar à revelia da outra. A organização deve possibilitar aquilo que o Professor Vítor Frade diz ser o “máximo de regularidade em concomitância com a máxima variabilidade”, portanto admite-se que a desordem é de facto um aspecto essencial para o emergir de uma ordem complexa. Se a minha organização contemplar esta necessidade, sem perda de identidade e funcionalidade, ela estará mais preparada para dar respostas aos contextos altamente instáveis que caracterizam a essência do jogo de futebol, ainda que o façam suportadas num referencial organizativo que procura sobredeterminar tal imprevisibilidade. O jogar de qualidade tem a ver com a necessidade de eu permitir que o caos seja determinístico, e isso só é possível se a desordem ou caos for circunstancial, manifesto a nivel de pormenor sendo por isso necessariamente sobredeterminado pela ordem global do sistema. O jogar de qualidade tem de ser o suficientemente permeável para contemplar o novo e a diferença, pois só assim o sistema evolui qualitativamente, mas tem que simultaneamente ser selectivo nessa permeabilidade. E é tanto mais selectivo nessa permeabilidade quanto mais coerente e consistente forem os pilares que suportam a organização colectiva e o processo que lhe permite manifestar-se. Ou seja, subjacente à desordem aparente manifesta por um jogar tem de haver uma ordem “escondida” como diria o Stacey. Uma espécie de pano de fundo ou de plataforma em torno do qual tudo o resto se deve manifestar, e que é composto por princípios simples mas de expressão regular capazes de conferir consistência ao sistema e de potenciar a possibilidade de emergência de irregularidades, que se assumem como acrescentos qualitativos por estarem sobretdeterminados por essa ordem mais global. O caos que cada jogar abarca, deve apenas representar um modelo de desordem ao nivel do pormenor, o qual emerge ou deve emergir dentro de uma ordem global assente em princípios simples que se manifestam como regularidades. Importa salientar que também a este nível eu devo ter em consideração o contexto, e ponderar os graus de liberdade que o meu jogar e o processo que lhe dá vida deve ter. Eu tenho de perceber que numa determinada realidade, pela qualidade e inteligência dos jogadores eu deixo a coisa andar com interferências mínimas e com identificação com os princípios gerais e a coisa cresce e cresce bem. Nesses casos os princípios são de facto princípios, um referencial geral de base que depois eles concretizam de forma autónoma respeitando o devido critério que este contempla. No entanto, há casos em que os princípios poderão ter que ser mais fechados ao nivel do pormenor, quanto maior a necessidade que eu vou tendo para os fechar ao nível dos níveis menores, mais determinístico se tornará o jogar, mas por vezes esse poderá ser um mal menor. Não obstante, eu devo partir sempre do pressuposto que os jogadores são capazes de tudo, ou seja, me permitem que partindo do que eles manifestam a minha concepção pode ser concretizada. Quando reparo que não é bem assim, aí tenho que fechar, mas nunca o devo fazer à partida, porque se o fizer poderei perder coisas úteis que à partida desconhecia e não estava à espera, mas que naquele contexto são muito úteis e se justificam. Em suma, parto sempre para o processo em que o princípio é isso mesmo, um ponto de partida, mas tenho de ter sensibilidade para perceber se ele pode, na continuidade ser nutrido por esse pressuposto sem que eu perca o rumo que quero, ou se pelo contrário o princípio passa a ter que ser um fim para que eu não perca o rumo. E há vários aspectos que motivam a necessidade do princípio, a nível de pormenor, passar a ser um fim, por exemplo a não capacidade, pela habituação, dos jogadores se orientarem por determinados referenciais posicionais ou de interacção, a não existência de tempo e simultânea necessidade de vencer. Por exemplo se chego a uma equipa onde os referenciais de marcação são individuais e eu quero que eles joguem num padrão defensivo zonal, inicialmente os princípios vão ter que ser muito mais fins, porque eu tenho que lhes dizer com pormenor o que quero e não raras vezes como quero, posteriormente quando a identificação com o que quero é maior, ou em casos em que a equipa já tem uma habituação a jogar dessa forma, os princípios são-no de facto e eu já não digo como quero, pois é suficiente dar-lhes pistas sobre como quero e eles chegam lá.

O futebol de rua é organizado, porque há algo de organizativo que emerge do facto de estarem em interacção, mas a vantagem do treino é permitir dar um sentido ao que emerge, e aí o treinador assume-se como mentor, mas também e não menos importante como catalisador, pois é ele o responsável máximo do processo que vai permitir dar vida ao que inicialmente era apenas uma intenção colectiva sua.

Continua.
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Grande abraço
Luis Esteves