sábado, 28 de novembro de 2009

MONTAGEM DA PRELEÇÃO - UMA OPINIÃO SOBRE A MONTAGEM NA SEMANA

O futebol nos responde tudo...se soubermos como perguntar.
Júlio Garganta citado por Prof. Cícero e Rafael
Seminário sobre Periodização Tática

Um dos fatores determinantes na semana de um time é a preleção, e quando falo preleção posso estar sendo conceitualmente errado, pois considero preleção uma junção de informações que o jogador recebe em uma semana de trabalho, que culmina no jogo e inicia na avaliação do jogo anterior, envolvendo diretamente a parte estratégica do jogo e da competição, e levando em primeiro lugar a preocupação com o proprio modelo da equipe.

Para exemplificar, vou colocar um exemplo meu de algumas situações de preleção que faço ou fiz.

Começando, se temos um Modelo de jogo, temos uma avaliação pós-jogo, que chamamos de RELATÓRIO DE JOGO, juntamente com uma AVALIAÇÃO DE GRUPO, que é feita imediatamente após a saída dos jogadores do campo.

São estas, RELATÓRIO E AVALIAÇÃO:

RELATÓRIO DE JOGO



AVALIAÇÃO DA EQUIPE




Lógico que estas avaliações só tem sentido se partirem de uma ideia de jogo, quem vem do modelo, como temos um definido, podemos avaliar de forma qualitativa na comissão e jogadores, o resultado que obtivemos em termos de produção no jogo, se são ou não os que buscamos da equipe.

Após isso, chegamos as conclusões de que princípios temos que melhorar dentro dos momentos, e pelo principio das propensões, montamos a semana de treino, buscando determinado resultado ou crescimento para o próximo jogo.

Mas voltando a semana de treino, para a preleção, após o jogo, iniciada a semana de treino, podemos iniciar a preleção, por exemplo, terça-feira na representação, podemos fazer uma avaliação qualitativa do rendimento, podendo colocar situações quantitativas para auxilio, como passes errados ou número de finalizações no jogo.

Com a interação dos jogadores, o que é fundamental, chega-se ao final da avaliação do jogo anterior. Passamos então a recuperação ativa para o treino de terça, ou alguma aquisição, depende do planejamento da comissão, e para o próximo jogo.

Aqui colocarei um exemplo, de um jogo nosso pela categoria júnior, já pela estreia da 3ª fase, onde haviam apenas 8 equipes, nossos grupo era composto por:


-*CE Aimoré (Não classificou)

-*EC Cruzeiro (Acabou em 5º lugar no geral)

-AE Garibaldi (Acabou em 3º lugar no geral)

-SC Internacional (Acabou sendo o campeão)

*Na fase anterior, estivemos no mesmo grupo do CE Aimoré, onde classificamos em 2º lugar atrás exatamente do CE Aimoré, não classificaram EC Novo Hamburgo e EC São Luiz - Ijuí.


PRELEÇÃO - EC CRUZEIRO X CE AIMORÉ

3ª FASE CAMPEONATO ESTADUAL 2009


TERÇA-FEIRA

Na terça-feira, como se iniciou uma nova fase, podemos colocar novas metas, neste caso as metas foram definidas pela equipe, em conjunto com a comissão técnica. Pode-se colocar imagens do jogo anterior, como erros e acertos de determinaram o resultado, dentro das previsões do modelo de jogo.


QUARTA-FEIRA

Na quarta-feira, podemos colocar em forma de vídeo no projetor com imagens, situações relacionadas ao adversário, como posicionamento, equipe base, sistemas pontos fortes e fracos , de forma rápida e objetiva, como segunda opção pode-se utilizar um quadro magnético grande para realizar isso, ou até mesmo um quadro com folhas, tanto faz, o importante é, que a equipe tenha conhecimento dos setores, sistema e cultura de jogo do adversário. Podendo até mesmo formular opiniões e soluções para determinada situação, levando em conta o modelo de jogo que já existe, o nosso. Ou seja, neste dia definimos como podemos ganhar ou perder o jogo.


OBSERVAÇÃO: No caso deste jogo, tínhamos súmulas que ficam disponíveis no site da FGF e dois vídeos do Aimoré, dos dois jogos anteriores a este contra nós, aos quais em São Leopoldo perdemos por 2x0 e no último jogo da fase, no qual empatamos em Porto Alegre por 2x2, nestes dois jogos minha equipe apresentava um 3.5.2 / 3.6.1, sendo que tentei colocar um 4.4.2 na estreia, mas tive que mudar ainda no primeiro tempo, pois a equipe se encontrava adaptada demais a uma forma de jogar, bem diferente da minha, então modifiquei minha filosofia. A equipe do EC Cruzeiro tinha uma característica de molde ao adversário presente ao seu modelo, com marcação individual e contra-ataques, princípios estes que eu não utilizo, porém me adaptei a situação.


OBSERVAÇÃO: O Slide acima contém dois erros, um a nomenclatura do Meia, que está como 2º volante, e outro o momento, está como O.D. (Organização Defensiva) e era na verdade O. O. (Organização Ofensiva).
OBSERVAÇÃO: Fizemos uma análise do CE Aimoré, baseado em vídeos (02) de jogos contra nossa equipe, e percebemos que eles apresentavam características de comportamento de um modelo de jogo mais rudimentar, era uma equipe com pouca circulação, com muita dificuldade em armação de jogadas pelo meio, porém com bolas laterais/verticais chatas, e descobriu nisso a fórmula de ganhar da nossa equipe, no primeiro jogo já que jogávamos com 3 zagueiros e dois alas (deixando um espaço laterai a zaga) , e de criar muitas situações de finalização no segundo jogo. Além disso tinha bons jogadores no setor ofensivo, em especial o número 10 e 9, jogadores que já estavam na categoria profissional, e que desciam para jogar pelos juniores.

Eles marcavam de forma zona, sem pressão, bem compactados, em um 4.4.2 quadrado, e com a bola em transição passavam para um losango, com o meia virando um 3º atacante. Desta forma nos ganharam na estréia da 2ª fase, e empataram na nossa casa, por 2x2, jogando de forma idêntica, com uma pequena diferença no posicionamento do bloco de marcação, fora de casa era bem defensivo, em casa era médio. Porém por saberem que nossa equipe jogava na maioria das vezes com apenas um atacante, mais lento e centralizado, e assim jogou os dois jogos, eles encaixavam uma marcação dos dois zagueiros e liberavam os dois laterais, já que o jogo dessa equipe era totalmente concentrado pelo lado em que a bola se encontrava, raríssimas vezes um dos volantes fazia uma virada de lado. Ver imagens acima.


Quarta-feira é o primeiro dia aquisitivo, muitos morfociclos indicam um treino de resistência de força, ou força específica neste dia, colocadas por arrasto na divisão dos sub-princípios que se pode treinar, ai é problema da comissão e do treinador achar exercícios para isto. Lembrando que, pode-se formular o exercício que quiser, levando em consideração determinada situação do adversário, JÁ QUE TEMOS O MODELO DE JOGO DO MESMO, OU PELO MENOS PENSAMOS QUE TEMOS.


QUINTA-FEIRA


Quinta-Feira é o melhor dia, temos o maior ganho pois há a globalização da equipe, já que normalmente setorizamos os exercícios na terça, quarta e sexta, pela menor complexidade e exigência mental na resolução de problemas e informações. Neste dia sim, a complexidade do treino é máxima, entramos na composição da própria equipe, e da equipe adversária, utilizando exercícios que proporcionem a situação que julgamos que irá ocorrer no jogo, corrigindo e potencializado nossos pontos fortes em relação ao jogo que esta por vir.


OBSERVAÇÃO: Então neste jogo coloquei minha ideia de sistema, já vínhamos utilizando alguns princípios como manutenção da posse, compactação, abertura, dentre outros, porém alguns princípios eram prejudicados por o sistema em uso não apresentar geometricamente uma estrutura mais adequada a realização dos mesmos em termos de equilíbrio posicional no campo.


Então para este jogo utilizei um 4.5.1 / 4.3.3 e troquei a funções de dois jogadores de ataque, buscando o aproveitamento do espaço que o CE Aimoré dava nas costas dos dois laterais, já que seguindo um pensamento lógico, nosso time jogava com apenas um atacante, e para isso dois zagueiros eram o suficiente, eles então liberavam os dois laterais, e concentravam os ataques por ali. Então decidi que liberaria a marcação dos dois zagueiros do CE Aimoré, e com isso liberei mais um sobra, ou sejá, além de um dos zagueiros que normalmente sobra (Esta equipe era muito dependente da sobra em todos os lances) tínhamos do lado da bola mais um sobra, o lateral. Com a decida quando necessário de um dos atacantes de ponta normalmente tínhamos superioridade numérica no meio e nos lados, detalhe que a dupla de zaga do CE Aimoré não tinha potencial de subida com bola, o que facilitou essa estratégia.


Para a infiltração no espaço que a dupla de laterais deixava, criamos um mecanismo que visava o seguinte: Tínhamos para este jogo um jogador rápido e pequeno (REBOLLO), ao qual posicionei entre os dois zagueiros, o que a princípio parece absurdo, já que este não tem imposição física, e coloquei em uma das pontas, o centroavante, mais lento e alto (JONAS), fazendo que, quando estivéssemos com a posse da bola, o atleta REBOLLO saísse em velocidade para receber a bola em qualquer um dos lados, e JONAS infiltrasse no seu espaço para finalizar, junto com a movimentação dos outros jogadores, dentre eles JORTER que era um meia aberto, que também infiltrava pelo meio.


SEXTA-FEIRA

Na sexta-feira a complexidade é baixa, a oposição também e voltamos a setorização, as vezes treino a bola parada na sexta, sem oposição. Neste jogo nossa preocupação com a bola parada do CE Aimoré era pequena, pois não tinham eles grande eficácia nesse princípio. Más nossa preocupação com nossa própria bola parada era grande, como verão em seguida.

Finalizamos a semana com algumas informações mais detalhadas, quase individuais.







RESUMO DO JOGO:

E.C.CRUZEIRO 3 X 2 C.E.AIMORÉ



Primeiro gol: aos 6 minutos, Rebollo recebe uma bola pelo lado esquerdo do nosso ataque, e sofre falta. Cruzamento no primeiro poste, e Dalmoro devia a marca 1x0.

Segundo gol: Pressão e bola roubada no meio de ataque, bola enfiada dentro da área entre o espaço do zagueiro e lateral, e Jorter marca, 2x0.

Terceiro gol: Bola roubada na nossa lateral esquerda, virada até o meio, circulada cerca de 7 passes até chegar na entrada da área, onde Cleivan finaliza e faz 3x1.

Acredito que, a análise e o planejamento deste adversário tenha sido fundamental para nossa equipe ganhar o jogo.



OS SLIDES ACIMA FORAM APRESENTADOS ANTES DO JOGO, CERCA DE 11:00 DA MANHÃ, ANTES DO ALMOÇO DOS JOGADORES.

OU SEJA, FIZEMOS UMA REVISÃO DE TODA A SEMANA, ANTES DO JOGO. É PRECISO TER CUIDADO COM O EXCESSO DE INFORMAÇÕES E COM O TEMPO!

NESTA MESMA COMPETIÇÃO UTILIZAMOS ALGUMAS VEZES VÍDEOS MOTIVACIONAIS, NÃO SOU MUITO ADEPTO DISSO, MAS ACREDITO QUE EM ALGUNS JOGOS AJUDOU A CONCENTRAR A EQUIPE, DENTRE ELES:

EC NOVO HAMBURGO 0X2 EC CRUZEIRO - JOGO QUE NOS CLASSIFICOU PARA A 3º FASE.

CE AIMORÉ 0 X 4 EC CRUZEIRO - JOGO ESTE QUE DEFINIU A CLASSIFICAÇÃO, SENDO QUE TÍNHAMOS QUE GANHAR POR 3 GOLS DE DIFERENÇA, E TORCER PARA QUE O INTERNACIONAL GANHASSE POR 2 GOLS DO GARIBALDI, INFELIZMENTE GANHAMOS POR 4X0 PORÉM O INTER ACABOU PERDENDO EM CASA POR 1XO, O QUE NOS ELIMINOU POR TABELA, CLASSIFICANDO O GARIBALDI.

EM OUTRO POST COLOCAREI VÍDEOS QUE FORAM MONTADOS EM DIFERENTES PRELEÇÕES. NEM TODAS AS PRELEÇÕES SEGUEM ESTE PROTOCOLO. NESTA MESMA EQUIPE TIVEMOS PRELEÇÕES DIVIDIDAS EM DUAS OU ATÉ TRÊS PARTES, SENDO UMA TÁTICA E OUTRA MOTIVACIONAL, OU UMA TÁTICA, OUTRA MOTIVACIONAL E OUTRA ESTRATÉGICA, DEPENDE DO PLANEJAMENTO DA COMISSÃO.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: SÁBADO E SEGUNDA FOLGAMOS, MAS EM CASO DE TREINO SEGUNDA PODERÍAMOS SEPARAR MELHOR O CONTEÚDO DE INFORMAÇÕES, ISSO NÃO É FIXO VAI DO BOM SENSO DA COMISSÃO EM SENTIR A DISPONIBILIDADE DE CONCENTRAÇÃO DO GRUPO.

Um abraço
Luis Esteves
la_futeboll@hotmail.com

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A RELAÇÃO COMPLEXIDADE X PERIODIZAÇÃO TÁTICA

A contribuição da teoria da complexidade à modelagem de sistemas

Maria Silene Alexandre Leite (UFSC) leite@eps.ufsc.br

Antonio Cesar Bornia(UFSC) cesar@eps.ufsc.br

Christianne Coelho de S. R. Coelho (UFSC) CCSRC@uol.com

Resumo

Este artigo discute algumas questões pertinentes a modelagem de sistemas. Aborda-se diferenças essenciais entre os distintos tipos de sistemas e a intervenção apropriada, diantedas características particulares de cada um. Para isso, descreve-se a abordagem cartesiana,a abordagem holística, a abordagem dos sistemas complicados e a abordagem dos sistemas complexos. O objetivo é evidenciar as diferenças entre as abordagens apresentadas e mostrarque a modelagem aplicada ao sistema deve considerar as peculiaridades de cada abordagem.

Palavras-chave: modelagem, sistema, complexidade.

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1. INTRODUÇÃO

É comum a afirmação de que a sociedade atual possui um funcionamento mais complexo doque as sociedades que a antecederam. A percepção do acelerado aumento de problemas nasrelações individuais, sociais e culturais associado à crescente incerteza do ambiente, leva abusca de novas alternativas de intervenção neste ambiente mais complexo e mutável. As alternativas de intervenção começam pelo seguinte questionamento:

Como o observador percebe o sistema analisado?

O observador é o sujeito que intervêm no sistema, delimitando e determinando-lhe objetivos. Assim, de acordo com sua visão o sistema será modelado.A modelagem, por sua vez, assume, mais freqüentemente, o caráter analítico não respondendo, eficientemente, as necessidades dessa sociedade mais complexa.Os modelos analíticos subdividem os problemas para dominá-los. A modelagem analítica busca explicar os problemas, isolando-os da realidade global. Só assim é possível controlar as interferências externas e conseguir resultados precisos e certos. Esta abordagem proporcionou o desenvolvimento da ciência e possibilitou ao homem avançar seus conhecimentos sobre o funcionamento do universo.

Contudo, os modelos analíticos desconsideram a interferência do global no particular e vice-versa, o que impede o completo entendimento dos mecanismos reguladores e das repercussões alcançadas pelo sistema estudado. Isto reduz a riqueza do sistema a uma visão cartesiana da realidade. Sendo assim, os modelos sistêmicos, da mesma forma que os sistemas analíticos, também subdividem os problemas para estudá-los, mas consideram a parte subdividida integrada aocontexto global da qual foi recortada. A abordagem sistêmica busca compreender o contextodo problema para, a partir disto, criar uma realidade inteligível. Esta abordagem entende que o risco e a incerteza fazem parte do contexto e que a intervenção humana apenas a reduz. É importante ressaltar, que, o mundo civilizado ocidental foi construído a partir de modelos analíticos. Por isso, a própria educação desintegra as áreas da ciência umas das outras, dandoa impressão errônea, de que são separadas e sem comunicação. O objetivo desse artigo é mostrar as diferentes abordagens para modelar um sistema eapresentar a importância da teoria da complexidade neste processo.

2. Breve abordagem da teoria da complexidade

O termo complexidade é de difícil conceituação. Existem muitas definições de complexidade, algumas enfatizam a complexidade do comportamento do sistema, outras enfatizam a estrutura interna do sistema, seu funcionamento. Por outro lado, o conceito complexidade pode ser encontrado em vários campos, desde os sistemas naturais, representados pelos sistemas biológicos, físicos e químicos aos sistemas artificiais, tais como sistemas computacionais e estruturas organizacionais.

Gell-Mann (1996) discute a questão da simplicidade e da complexidade relacionadas respectivamente a complicação e a complexidade. Ele diz que simplicidade se refere à ausência (ou quase ausência) de complexidade. Enquanto a primeira palavra é derivada de uma expressão que significa “que já foi dobrado”, a última vem de uma expressão que significa “trançados juntos”. Nota-se que plic para dobrar e plex para trançado vem da mesma raiz indo-européia plek. A palavra original complexus significa “entrelaçado”, “torcido junto”.

Segundo Heylighen(1988) para ter a complexidade é necessário que o sistema possua:

(1) duas ou maispartes ou elementos diferentes;

(2) que as partes ou elementos sejam conectadas.

Pode-se perceber que a definição básica de complexidade apresenta um aspecto dual, ao mesmo tempo em que apresenta partes diferentes são unidas pelas interações. Os termos teoria da complexidade, teoria do caos, teoria das catástrofes, geometria fractal e a física quântica são chamadas de novas ciências. Elas apresentam em comum o conceito de complexidade como guia de seu funcionamento. São, também, denominadas de novas ciências por considerarem a incerteza e imprevisibilidade que conectam os fenômenos.

Esta abordagem se opõe à visão tradicional do pensamento organizacional, que pressupõe relações lineares de causa e efeito aplicando os conceitos da física de Newton á gestão das empresas. No entanto, o limite entre uma teoria e outra, nem sempre, é apresentado com clareza na literatura. Todas elas estão ligadas, de certa forma, pela essência do conceito de complexidade. A história da teoria da complexidade no decorrer do século XX pode ser descrita, segundo Abraham (2002), pela associação de três campos da ciência: a cibernética, a teoria dos sistemas e os sistemas dinâmicos. A cibernética é um campo interdisciplinar, surgido oficialmente em 1946 em New York, por um grupo de oito cientistas que vinham de áreas diferentes. Da matemática: Norbert Wiener,Jonh Von Neumann, Walter Pitts. Da engenharia: Julian Bigelow e Claude Shannon. Da Neurobiologia: Rafael Lorente de No, Arturo Rosenbluenth e Warren McCulloch. Mais adiante, se juntaram a este grupo antropólogos e cientistas sociais. Alguns dos assuntos estudos pelo grupo foram: redes de feedback, inteligência artificial, comunicação, entre outros.

A teoria geral dos sistemas foi reconhecida, no meio cientifico, como o contraponto europeu ao movimento cibernético americano. Seu surgimento oficial ocorreu em 1956, com a criação por Ludwig Von Bertalanffy da sociedade para a pesquisa do sistema geral, em Stanford. Ele migrou, em 1950, de Vienna para América do Norte, tendo como principais idéias: holismo,organicismo e sistemas abertos. A teoria dos sistemas dinâmicos é um amplo ramo da matemática criado por Isaac Newton eatualizado por Poincaré em 1880. Após 1975, tornou-se conhecida como teoria do Caos, seguindo o impacto da revolução dos computadores e a descoberta dos atratores caóticos. A aplicação da teoria dos sistemas dinâmicos engloba a matemática, a biologia, a medicina e asciências sociais.

Deste o surgimento dos computadores analógicos e digitais, no século XX, sua aplicação se expandiu e ganhou importância. Sua difusão deve-se, principalmente, aostrabalhos de Jay Forrester e seu grupo no M.I.T.Entre os três campos anteriormente descritos, podem existir várias e diferentes conexões deacordo com os objetivos do estudo. As ligações entre as comunidades interdisciplinarescrescem em número e intensidade, difundido a importância de usar as teorias dacomplexidade , como foram denominadas as conexões criadas entre a cibernética, a teoriageral dos sistemas e a teoria dos sistemas dinâmicos, no estudo dos sistema complexos. A teoria da complexidade pode apresentar importante contribuição ao estudo dos sistemas complexos. Ela dispõe de esquemas apropriados à representação de sistemas que convivemcom a dialógica partes distintas - unidas pelas interações.

3. O conceito de Sistema

Definir o termo sistema não é uma tarefa fácil. Existem muitos conceitos e usos do termo.Inicia-se a discussão pela dissertação feita por Morin (1977) a respeito da co-existência dos sistemas. Ele busca disseminar o conceito de sistema, mostrando que o ser humano é um sistema constituído por vários sub-sistemas e integrante de outros sistemas maiores. A maioria das definições de sistema, do século XVII até o surgimento da teoria geral dos sistemas com Von Bertalanffy (1956), reconhecia como características para identificação de um sistema o aspecto global e o aspecto da inter-relação dos elementos. Isto, devido ainfluência recebida dos matemáticos que consideravam o sistema como um conjunto de elementos em interação.

Morin (1977) diz que estes dois aspectos se complementam e se sobrepõem sem jamais realmente se contradizer. Assim, cita-se alguns conceitos de sistemaspara exemplificar.Um sistema “ é um conjunto de partes” (LEIBNIZ,1666 apud MORIN,1977); um sistema “ étodo conjunto definível de componentes” (MATURANA e VARELA, 1997); um sistema “é um conjunto de unidades em inter-relações mútuas”( VON BERTALANFFY, 1968);umsistema “é a unidade resultando das partes em interação mútuas”(ACKOFF,1960 apudMORIN,1977); um sistema “ é um todo que funciona como todo em virtude dos elementosque o constituem” (RAPPORT,1968 apud MORIN,1977). Um sistema “ é um conjunto deelementos em interação.” (THOM,1974). Um sistema “ é uma representação de um recorte darealidade que se possa analisar como uma totalidade organizada, no sentido de ter um funcionamento característico”(GARCÍA,2002).

Observando os conceitos citados anteriormente, pode-se notar que o conceito de organização não aparece em nenhum deles. Morin (1977) diz que a incorporação da organização ao conceito de sistema foi introduzido por Saussure, em 1931, na seguinte definição: “ o sistema é uma totalidade organizada, feita de elementos solidários só podendo ser definidos uns em relação aos outros em função de seu lugar nesta totalidade.”Assim, podemos conceber um sistema como uma unidade global organizada de inter-relaçõesentre elementos, ações e indivíduos. (MORIN,1977) Por outro lado, não basta somente conhecer os conceitos de Sistema é necessário conhecer, também, os tipos de sistemas. Os sistemas lineares foram os mais desenvolvidos e utilizados,dado a sua facilidade de intervenção e o desenvolvimento e difusão dos princípios da ciência clássica, tendo seu apogeu com a física de Newton, da qual derivou todas as metodologias cartesianas, determinísticas e reducionistas. Esses sistemas são baseados em hipóteses reducionistas da realidade, tais como: a previsibilidade, a otimização global e a precisão dos dados.

Já os sistemas dinâmicos representados por equações diferenciais não-lineares são baseados na diversidade, na imprevisibilidade e na incerteza presentes na realidade. ElesConsideram a complexidade existente em todos os sistemas vivos. Assim, segundo Capra(1996) alguns cientistas começaram a perceber que as soluções dadas pelas equações deNewton estavam restritas a fenômenos simples, regulados e complicados, enquanto acomplexidade de várias áreas pareciam esquivar-se de qualquer modelagem mecanicista oureducionista. Para Prigogine (1997) iniciava-se, um questionamento sobre a aplicação damecânica Newtoniana ao desenvolvimento dos seres vivos.A visão Newtoniana do mundo, apesar de suas limitações comprovadas, resiste até hoje dentro de determinados graus de intervenção. Contudo, sabe-se que, diante da incerteza do mercado, da concorrência crescente, do rápido fluxo de informações e das novas formas de organizações empresariais, é preciso incorporar à gestão aspectos como: a incerteza, a imprevisibilidade, a não linearidade e a complexidade inerente aos sistemas. Nesse sentido, a teoria da complexidade pode contribuir com uma base científica mais apropriada às novas tendências organizacionais. As abordagens determinísticas e cartesianas são apropriadas aos sistemas complicados, mas apresentam muitas limitações quando aplicadas aos sistemas complexos.

Segundo Snowden (2003), um sistema complicado é constituído de inúmeros componentes que podem ser identificados e definidos. As relações entre esses componentes também podem ser identificadas e definidas. Dessa forma, as causas e os efeitos podem ser separados e, compreendendo suas ligações, é possível controlar os resultados. O sistema pode ser melhorado pela otimização de suas partes, uma vez que o todo não é mais nem menos que a soma delas. Já os sistemas naturais e humanos são complexos. Um sistema complexo inclui muitos agentes que interagem entre si. Axerold e Cohen (2000) tratam os agentes como sistemas que possuem a habilidade de interagir com seu ambiente, incluindo outros agentes. Um agente pode responder ao que acontece em sua volta e realizar ações com maior ou menor propósito. É natural que, ao se pensar em agente, imagine-se uma pessoa. Contudo, observando esta definição, pode-se perceber que um agente não é necessariamente uma pessoa. A família, os negócios, ou um país inteiro pode, também, ser um agente. Mesmo um computador interagindo com outro pode ser considerado um agente. Nota-se a necessidade de observar o sistema, buscando perceber suas características, suas partes, as propriedades de cada parte e as conexões que as unem. Após, equacionar as peculiaridades do sistema estudado à forma de intervenção mais adequada.

4. Os sistemas, a complexidade e os métodos de modelagem

A complexidade de um sistema é, freqüentemente, relacionada a seu número de componentes,seus relacionamentos e os diversos fatores associados ao observador. Para ser complexo o sistema precisa possuir duas ou mais partes diferentes com conexões entre as partes que dificulte a sua separação. O conceito de sistema complexo traz a dualidade distinto-conexo. Esta dualidade estimulou o estudo dos tipos de intervenções adequadas a sistemas com tais características.

Heylighen (1988) diz que não é possível analisar um sistema complexo separando seus componentes em elementos independentes, sem que este sistema seja destruído. Logo, o método reducionista não pode ser usado para compreender um sistema complexo. O método reducionista não é adequado a modelagem de sistemas complexos por que não considerar as conexões entre os componentes, desconsidera-as para simplificar o problema. Esta constatação conduziu ao desenvolvimento do método holístico, o qual se opõe ao reducionismo, por considerar o sistema complexo como um todo, desconsiderando as partes distintas que o compõe, vendo o sistema como um todo único, sem, portanto diferir em suas partes. A abordagem holista, também não é adequada a modelagem dos sistemas complexos, por desconsiderar uma característica essencial: as partes distintas.

Outras abordagens podem ser citadas como a e Weaver(1948) apud Wu (1999) que identificou três escalas da complexidade: simplicidade organizada, complexidade organizada e complexidade desorganizada que corresponde a classificação de Weinberg’s, de 1975, em sistema com pequeno número de elementos, médio número de elementos e grande número de elementos. A simplicidade organizada caracteriza sistemas com pequeno número de significativos componentes que interagem de forma determinística e podem ser analisados pelos métodos reducionistas, cartesianos. A complexidade desorganizada ocorre quando o sistema possui um grande número de significativos componentes que demonstram alto grau de comportamento aleatório, podendo ser analisados por métodos estatísticos. A complexidade organizada caracteriza sistemas que envolvem muitos componentes, mas somente um limitado número de componentes são significativos ao objetivo do sistema. Para estes sistemas os métodos reducionistas e estatísticos são inadequados à sua análise, no primeiro caso por possuírem mais componentes do que os métodos reducionistas podem analisar, no segundo caso porpossuírem poucos componentes para alimentar os métodos estatísticos e, ainda,comportamento não aleatório impossibilitando o uso de métodos estatísticos tradicionais. A abordagem apresentada por Le Moigne (1977) diz que a complexidade implica imprevisibilidade, a emergência do novo e da mudança no interior do sistema. Para um observador o fenômeno é complexo quando apresenta uma certa imprevisibilidade potencial dos comportamentos. Já a complicação pode ser determinada, prevista e extinta. Snowden(2003) diz que num sistema complicado seus milhares de componentes e relações são passíveis de identificação e definição e podem ser catalogados.

Causa e efeito podem ser separados e, pela compreensão de suas ligações, é possível controlar os resultados. Em um sistema complexo, os componentes e suas interações estão em constante mudança e nunca épossível estabelecê-los completamente. O sistema não pode ser reduzido. Causa e efeito não podem ser separados porque estão fortemente interligados.

Complementando, Iarozinski(2001) diz que um aspecto chave da percepção do complexo reside na diferença entre a variedade do observador e a variedade do fenômeno observado. Se esta diferença é igual a infinito (todo o estado é possível) o fenômeno será percebido como complexo. Se esta diferença é finita (nem todos os estados são conhecidos, mas podem serdescritos) o fenômeno será percebido como complicado. Se ela é igual a zero (o observador conhece todos os estados) o fenômeno será percebido como simples. Pode-se perceber que enquanto os sistemas foram considerados lineares, com relações diretas de causa e efeito os métodos cartesianos de intervenção eram adaptáveis. No momento em que houve a percepção dos diferentes tipos de sistema, observou-se que determinados tipos,os complexos, necessitavam, de um método que considerasse a sua dualidade partes distintas conexões.Para os sistemas complexos é adequado método sistêmico. Apesar, dessa percepção a visão cartesiana dos fenômenos continua se sobrepondo comométodo intelectual de análise e intervenção dos fenômenos. Isto ocorre devido a maior facilidade de intervenção oferecida pelos métodos cartesianos. Eles consideram os problemas como sistemas complicados que podem ser simplificados e explicados. Enquanto as metodologias sistêmicas consideram os problemas como sistemas complexos, sendo modelados e compreendido ao mesmo tempo.

A compreensão ocorre por meio da construção edo conhecimento da inteligibilidade do problema. Os métodos cartesianos são adequados à pesquisa em sistemas complicados, como as máquinas e os computadores, mais insuficientes para pesquisar os sistemas caracterizados pela complexidade, como os sistemas sociais e humanos. Iarozinski (2001) diz que nos sistemas simples ou complicados o controle pode ser total. Estessistemas podem ser controlados a partir de uma base de regras programada, já que a suaevolução é conhecida e previsível. O funcionamento e a evolução destes sistemas estãolimitados pelo grau de sofisticação do sistema de controle.Nesse sentido, Le Moigne (1977) diz que a passagem da complicação à complexidade implica um limiar, uma mudança de método intelectual. Os sistemas que precisam ser representados e operacionalizados, já não são apenas tecidos por redes complicadas que ligam elementos identificáveis. A diferenciação e a diferença estão no mundo real e avariedade dos sistemas a conhecer torna-se incomensurável. Simon (1981) diz que os sistemas complexos apresentam uma estrutura hierárquica em formade caixas-dentro-de-caixas ou de múltiplos níveis. Os níveis são formados por sistemas e subsistemas interligados por interações. Pode-se distinguir as fronteiras do sistema pela intensidade das interações dentro dos subsistemas e entre os subsistemas. Assim, as ligações entre os componentes dos subsistemas são, geralmente, mais fracas que as ligações dentro dos subsistemas. Esta é denominada por Simon como arquitetura quase decomponível.A esse respeito, Snowden (2003) diz que é necessário uma nova ciência para lidar com os sistemas complexos. O paradigma atual do pensamento empresarial tem suas origens nas idéias de Frederick Taylor, que aplicou os conceitos da física de Newton à gestão dasempresas. A atual complexidade das relações e conexões exigem métodos mais apropriados,flexíveis e adaptáveis à realidade.Nessa exposição apresentou-se a necessidade de conhecer a interligação entre as partes do sistema, sua complexidade e sua interações para modelá-lo de forma mais adequada.

5. Conclusão

O argumento inicial deste artigo, foi o de que a sociedade atual apresenta problemas mais complexos do que os problemas das sociedades que o antecederam. A percepção do aumento da complexidade é um bom sinal, para a percepção de que nem todos os problemas podem ser solucionados pelos mesmos métodos. Os sistema podem ser complicados ou complexos. Os complicados podem ser modelados pelos métodos cartesianos, com relações de causa-efeito lineares, pois suas conexões podem ser desconsideradas sem destruir o sistema. Os complexos não podem ser modelados por métodos cartesianos, pois suas relações são dinâmicas e as conexões entre suas diferentes partes, se desativadas, destroem o sistema. Resumidamente, o quadro 5.1 apresenta os principais tipos de sistema e a forma de intervenção adequada a suas características. Apresentou-se, também, outras abordagens consideradas na literatura, tais como: o métodoholístico, a simplicidade organizada, a complexidade desorganizada e a complexida deorganizada. A abordagem holística desconsidera as partes diferentes do sistema por vê osistema como um todo único indissociável. A simplicidade organizada pode ser representadapelos métodos cartesianos, por reduzir o sistema a um pequeno número de componentes. Acomplexidade desorganizada é representada por métodos estatísticos por ser composta degrande número de componentes e possuir comportamento aleatório. A complexidadeorganizada necessita de modelagem sistêmica, por apresentar comportamento não aleatório epossuir partes distintas em conexão.Por fim, buscou-se mostrar a importância da compreensão da complexidade para identificarum sistema complexo e procurar a forma mais adequada de modelagem.

Referências

ABRAHAM, Ralph. The gênesis of Complexity. Advances in Systems Theory, complexity and the humansciences. 2002.

AXELROD, Robert, COHEN, Michael. Harnessing Complexity: organizational implications of a scientificfrontier. New York: 1999.

CAPRA, Fritjot. A teia da vida: uma nova compreensão cientifica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.

GARCÍA, Rolando. O conhecimento em construção. Tradução: Valério Campos. Porto Alegre: Artmed,2002.

GELL-MANN, Murray. O Quark e o Jaguar: as aventuras no simples e no complexo: Tradução: Alexandre Tort.Rio de Janeiro: Rocco, 1996

HEYLIGHEN, Francis. Building a science of complexity. Annual Conference of the Cybernetics society.London,1988.

IAROZINSKI, A. N. Proposta de um modelo conceitual de gestão da produção baseado na teoria dacomplexidade: O modelo IMPLEXE. Monografia, Universidade Católica do Paraná, 2001.

LE MOIGNE, Jean-Louis. La théorie du système general: Théorie de la Modèlisation. Paris, 1977.

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MORIN, Edgar. O Método I: a natureza da natureza. Tradução: Ilana Heineberg. Porto Alegre: Sulina, 1977.

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NOTA PESSOAL:

Este artigo não envolve o futebol, pelo menos não intencionalmente, mas para um bom entendedor, meia palavra basta. É de 2004, mas para quem busca informações sobre a teoria da complexidade, um dos pilares da periodização tática que vê o fenoômeno futebol com a mesma ótica, é bem atual.

Abraço

Luis Esteves

la_futeboll@hotmail.com

domingo, 22 de novembro de 2009

EXERCÍCIO


Abraço
Luis Esteves

terça-feira, 17 de novembro de 2009

EXERCÍCIO ESPECÍFICO

"Não acredito, no futebol de hoje, em equipes bem fisicamente e outras mal. (...) há equipes adaptadas, ou não, a forma de jogar do seu treinador. O que nós procuramos é que a equipe consiga se adaptar ao tipo de esforço que a nossa forma de jogar exige."


José Mourinho
Citado por ROMANO (2007) Página 13


Esqueci de colocar as regras do exercício em espaço longo.

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O objetivo é a circulação qualificada e o jogo apoiado, ou seja com aproximações sem perder a posse, já criando uma mentalidade de recuperação fisica com a posse de bola, variando entre bolas curtas e longas, pois obviamente a circulação curta em um dos quadrados irá por vezes ser contrangida a ponto de ter que acontecer uma virada longa, ai já estaremos a treinar mais um princípio o da abertura, e uma refer~encia de virada, no caso do 4.3.3 os pontas, no caso do 4.4.2 os laterais..ou o jogador que se achar interessante pra isso.

No caso, existem duas goleiras por lado, e apenas 1 goleiro, que tem que defender as duas goleiras, isso também irá gerar uma situação, a de atrair de um lado, para tentar entrar pelo outro... pode-se cortar o campo horizontalmente para efetuar dois tipos de marcação (mas sem desarme, pois o desarme intensifica o desgaste fisiológico) a marcação zona e a pressão com dobras, e as dobras, meu time esta com problema nesse ponto hoje, pressiona em todas as partes, faz faltas próximas a nossa área, pois quer roubar a bola, sendo que entre o jogador e a bola existe o adversário e ele não pode ser encostado para que a bola seja roubada, ai se torna importante a dobra de pressão, que nada mais é do que a pressão vinda do outro lado, portanto é interessante as vezes não pressionar, para haver uma re-organização, seguida de uma pressão bem feita. As linhas definem as zonas em que eles devem realizar cada tipo de marcação.
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Quanto a linha vertical, coloquei ali pelo motivo de, caso se roube a bola (na interceptação apenas, se assim terão que criar linhas de passe ou serão constantemente interceptados) terão que fazer o gol, na goleira contrária ao quadrado que se está, isso obriga a utilização de viradas curtas e longas. Também serve esta linha como guia de compactação em relação a amplitude da equipe, pois é interessante ocupar defensivamente o lado do quadrado em que a equipe está defendendo.
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Ai coloquei 3 times, dá pra fazer até com 4 times, no caso a ideia inicial era que dois times ficassem no campo largo recuperando ativamente, enquanto dois times ficasse, no campo curto em um 5x5, é possível fazer isso também. Fisiologicamente a ideia e estimular a força, colocamos pequenos circuitos de força ao lado dos mini-campos, revezando estímulo específico e estímulo fisiológico, para a recuperação mental e interessante o fisiológico, o campo largo se encarregar-á de recuperar a parte fisiológica depois. Pode-se fazer isso de diferentes formas, ou circula-se as equipes, ou forma-se grupos e ficam certo tempo em cada situação, ver o que é mais interessante.
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NO CAMPO GRANDE, COLOCAR OS PRINCÍPIOS RELATIVOS AO MODELO DE JOGO, ATENÇÃO AO FOCO DO EXERCÍCIO, EM RELAÇÃO AOS TOQUES NA BOLA, EM CAMPO PEQUENO 2 TOQUES (É NECESSÁRIO INTENSIDADE MÁXIMA FISIOLÓGICA NESTA PARTE), NO CAMPO GRANDE LIBERADO, POIS EXISTE A NECESSIDADE DE PENSAR E NÃO É INTERESSANTE USAR A CONCENTRAÇÃO (INTENSIDADE MÁXIMA RELATIVA NOS PRINCÍPIOS) NA CONTAGEM DO NÚMERO DE TOQUES NA BOLA.

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Um abraço
Luis Esteves

domingo, 15 de novembro de 2009

5º CICLO DE PALESTRAS - 2009


Estive no 5º ciclo de palestras no futebol, aliás, estive no 3º e no 4º também. Vale a pena, quem puder vá no próximo.
Alguns palestrantes se repetem, alguns acham isso ruim, eu gosto pois percebemos a evolução da coisas principalmente no processo do treino ví alguns palestrantes a 2 ou 3 anos, e vejo a mudança de concepção na formatação do treino, as coisas estão mudando... bons assuntos, algumas confirmações de pensamento, pra que está no nível baixo, as vezes é bom saber o que pensa quem esta num nível acima.
Embora a concepção analítica do treino continue reinando, alguns palestrantes ja falam da integração das dimensões do jogo, e isso é bom...mecanizar ( não-mecanizar) pedagogia das intenções, momento do desarme, pressão, zona pressionante, resistência geral, cultura, Negrini, Bozano 2007, processo de aprendizagem, cadeia aberta e fechada, hipertrofia na força excêntrica, plataforma de salto....coisas que anotei lá, ainda a coisa é muito física, mas aos poucos vai mudando, e novas ideias vão surgir. Ainda nada de modelo de jogo, muito sobre especificidade, mas num contexto inespecífico, pois esta sem modelo, nada sobre os momentos (não vi nada sobre) nem princípios, este, assunto muito pertinente.
Mas gostei, muito bom, e acessível.
Um abraço
Luis Esteves

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

EXERCÍCIO


Abraço
Luis Esteves

terça-feira, 10 de novembro de 2009

EXERCÍCIO ESPECÍFICO


Repito que o que cansa no futebol, são as transições, no campo, as equipes caso estejam errando, estarão em constantes transições, e isso vai gerar um stress, reclamações, cobranças pela manutenção da posse.
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Fora, haverá uma recuperação mental das duas equipes, e uma delas estará em recuperação fisica, recuperação mental é fundamental para depois ao entrar no campo novamente, exista um ganho em relação a cultura do modelo de jogo, que é não perder a bola, para poder recuperar com ela, porém sem nunca perder o objetivo do gol.
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Este exercício tem como sub-objetivo a resistência específica, ao modelo de jogo, quanto maior for a eficiência da equipe, em relação a manutenção da posse, menos precisará de resistência as transições no jogo.
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Abraço
Luis Esteves

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CONSTRANGIMENTOS DA ACÇÃO À LIBERDADE DE (INTER)ACÇÃO, PARA UM FUTEBOL COM PÉS … E CABEÇA. – JÚLIO GARGANTA (2005)

In O contexto da decisão. A acção táctica no desporto: 179-190.
Duarte Araújo (ed.). Lisboa, Visão e Contextos.

JÚLIO GARGANTA


INTRODUÇÃO

Nas partidas de Futebol, as equipas disputam objectivos comuns, lutando para gerir em proveito próprio, o tempo e o espaço, através da realização de acções de sinal contrário (ataque versus defesa) alicerçadas em relações de oposição e de cooperação Cada equipa comporta-se como um sistema dinâmico que vive da organização, o que quer dizer que depende do compromisso entre a sua identidade e a sua integridade, detenha ou não a posse da bola num dado momento do jogo. Tais cenários, porque se desenvolvem em situações de participação simultânea e espaço comum, propiciam actividades férteis em acontecimentos cuja frequência, ordem cronológica e complexidade não podem ser determinadas antecipadamente. Como consequência, torna-se importante desenvolver competências que transcendam a execução propriamente dita e valorizem as capacidades relacionadas com as estratégias cognitivas que guiam a captação de informação e a tomada de decisão. Parece assim justificar-se que jogo e treino sejam perspectivados como sistemas acontecimentais dinâmicos, a partir do reconhecimento da importância das interacções dos jogadores/equipas para agirem eficazmente em situações de elevada instabilidade e variabilidade.


OS JOGOS DO JOGO DE FUTEBOL


O processo de treino em Futebol visa induzir alterações positivas observáveis na performance dos jogadores e das equipas, pelo que a exteriorização dos comportamentos durante o jogo, deve traduzir o resultado das respectivas adaptações. Por outro lado, sabe-se que a orientação do treino deve ter em conta a informação extraída do jogo, mormente no que se reporta ao tipo de exigências e à actividade exibida pelos jogadores, para lhe dar resposta. No concurso das equipas para um objectivo comum e no seu permanente antagonismo, o jogo de Futebol apresenta-se como uma sequência de situações-problema de cooperação e oposição, a qual gera um fluxo de comportamentos de contornos variáveis. Os colectivos em confronto organizam-se em torno de lógicas particulares, em função deregras, princípios e prescrições, operando em contextos de elevada imprevisibilidade e aleatoriedade. Tal sugere que na aparência simples de uma partida de Futebol se esconde um fenómeno que assenta numa lógica complexa. O jogo existe, portanto, na confluência de uma dimensão mais previsível, induzida pelas leis e princípios do jogo, com outra menos previsível, materializada a partir da autonomia dos jogadores, que introduzem a diversidade e singularidade dos acontecimentos.

Como tal, numa partida de Futebol o quadro do jogo é organizado e conhecido, mas o seu conteúdo é sempre surpreendente. De facto, não é possível prever e estandardizar as sequências de acções, podendo dizer-se que não existem duas situações absolutamente idênticas e que as possibilidades de combinação são inúmeras, o que torna inviável recriá-las no treino. Todavia, parece-nos que para fazerem sentido, as situações devem ser categorizáveis, isto é, reconvertíveis em categorias ou tipos de situações. Aliás, se assim não acontecesse, se não houvesse algo que ligasse o jogo a um território de possíveis previsíveis onde pontificam os designados modelos ou representações, a preparação dos jogadores e das equipas tornar-se-ia obsoleta (Garganta & Cunha e Silva, 2000). Deste modo, o mapeamento do jogo e a construção dos exercícios para o aprender e treinar, passam pela configuração de modelos explicativos e interpretativos, que disponibilizem a representação dos respectivos conteúdo e lógica, a partir das dimensões percebidas como essenciais do fenómeno Diríamos que o treino de jogadores e, sobretudo, a construção de equipas, reclamam um conjunto de competências, de entre as quais se salientam as que se encontram directamente relacionadas com: a) as capacidades de leitura e interpretação do jogo, e com b) a produção e vivência de situações de exercitação que permitam um elevado efeito de transferência, associado a c) consideráveis níveis de autonomia e criatividade. Esta problemática conduz-nos a um conjunto vasto de questões, com claras implicações no quotidiano da preparação desportiva:


→Em que bases sustentam os treinadores, os respectivos modelos de jogo? Como os comunicam aos jogadores/equipa e a que metodologias/estratégias recorrem para fazer com que sejam treinados e assimilados?


→De que modo se processa a transformação de comportamentos e atitudes dos jogadores/equipa, em função do(s) modelo(s) de jogo(s) e das exigências da modalidade?


→Como aferir, controlar e corrigir a performance dos jogadores/equipa relativamente ao mapeamento do jogo, preconizado no(s) modelo(s)?


No artigo que motivou este texto, Luís Júlio e Duarte Araújo oferecem-nos pistas para lidarmos com algumas destas questões Partindo do pressuposto de que o jogo de Futebol é um sistema dinâmico que opera segundo distintos padrões de acção e de que tais padrões evidenciam uma variabilidade interindividual, os autores procuram reflectir acerca da natureza da acção táctica no jogo e colocam-nos perante um desafio: face às crescentes exigências que se colocam no jogo e no treino do Futebol, que preocupações devem sustentar uma prática que garanta maior eficácia?


FUTEBOL É INTERACÇÃO


Considerando que a acção de um jogador desemboca obrigatoriamente na interacção dos demais elementos em jogo, cada uma das equipas que se defrontam comporta-se como uma unidade cujas relações entre os seus elementos se sobrepõem às mais-valias individuais. Porque se trata de uma modalidade situacional, as competências dos jogadores e das equipas de Futebol reportam-se a grandes categorias de problemas, atravessando diferentes níveis de organização, em resposta aos sinais do envolvimento. Por exemplo, o que permite a uma equipa estar equilibrada quando defende tem a ver, não só com a disposição dos jogadores no terreno, mas sobretudo com as possibilidades que existem de ligação entre esses jogadores no sentido de encurtarem distâncias entre si, de diminuírem as distâncias entre linhas (transversais e longitudinais) e, com isso, criarem e transferirem zonas de pressão junto da bola. Mais do que centrar a atenção nas acções de jogo, importa então deslocar o olhar para as interacções dos actores, na sua relação com o envolvimento. É nas articulações do sistema que este tece a sua identidade e é também nelas, e através delas, que cria condições para a manter ou alterar, em função das circunstâncias e das respectivas debilidades e mais valias dos intervenientes.


Advogando uma abordagem predominantemente qualitativa do jogo, os referidos autores não rejeitam, contudo, a análise quantitativa, referindo que a mesma pode ver acrescida a sua relevância se estiver associada a metodologias que abordem a dinâmica inerente à coordenação das acções dos jogadores ao longo do jogo Nesta linha de raciocínio, acrescentaríamos que na busca da identificação e interpretação dos comportamentos críticos do jogo, se destaca a utilidade do registo e interpretação, não tanto das quantidades per se, mas sobretudo das quantidades da qualidade. Por isso, temos vindo a chamar à atenção para a relevância do estudo do “enredo” do jogo, i.e., do respectivo fluxo histórico, mais do que do comportamento pontual e avulso dos seus actores. O enredo, estando mais voltado para o processo do que para o produto, vive das interacções dos comportamentos, condensadas na dinâmica auto-organizacional das equipas.


Sem menosprezar o objectivo que guia as equipas quando jogam Futebol – obter golo (s) e impedir que o adversário o faça – destacamos a importância de se centrar a atenção, não apenas nas fases terminais das sequências de jogo, mas também, e principalmente, nos processos que geram determinados efeitos ou प्रोदुतोस O Futebol, enquanto disciplina desportiva dependente do factor tempo (time-dependent, cf। Franks & McGarry, 1996), é interactivo e tende a integrar cadeias de acontecimentos descontínuos, implicitamente relacionados, não apenas com os acontecimentos antecedentes, mas também com as probabilidades de ocorrência de acontecimentos subsequentes, considerada a respectiva aleatoriedade (Garganta, 1997). Neste domínio, a denominada Análise Sequencial (Anguera, 1999) constitui um instrumento precioso, dado que permite perceber o que induz ou inibe determinados comportamentos-critério, considerando a cadeia acontecimental do jogo. Nesta metodologia as probabilidades de ocorrência dos diferentes comportamentos resultam das avaliações retrospectiva e prospectiva das sequências de eventos do jogo.


O conceito de sistema exprime o fluxo do jogo, permitindo enquadrar as opções tácticas dos jogadores e das equipas. Para além disso, valoriza o carácter organizacional e sequencial do jogo, dado que é a organização que produz a unidade global do sistema, sendo ela que transforma, produz, relaciona e mantém o sistema, concedendo características distintas e próprias ao colectivo.


MEMÓRIA, CONHECIMENTO E ACÇÃO


Cada sujeito percebe o jogo, as suas configurações, em função das aquisições anteriores e do estado presente। Perante o fenómeno jogo, o observador constrói uma paisagem de observação, entendida como um conjunto de estímulos organizados face ao “ponto de vista” que ele possui sobre o fenómeno. Ou seja, retém o que se lhe afigura pertinente, interpreta os dados dispersos e organiza-os conferindo-lhes um sentido próprio, o que quer dizer que o sentido do jogo é construído e depende de um modelo de referência (Garganta, 1997). Em contextos de elevada incidência estratégico-táctica as capacidades desenvolvem-se a partir de blocos de informação integrados, conhecimentos tácitos que o jogador percebe como conjuntos de possibilidades. Quando dizemos que os jogadores têm "sentido da jogada", "cheiram o golo", têm "capacidade de antecipação", estamos a referir um conjunto de “dons” que, como refere Marina (1995), mais não são do que modos eficazes de lidar com grandes blocos de informação.


Para Temprado (1991) os conhecimentos que estão na base do pensamento táctico estão organizados sob a forma de cenários, de acordo com um conjunto de indicadores, de objectivos a alcançar e de efeitos a produzir। Deste modo, os conhecimentos de que um jogador dispõe permitem-lhe orientar-se, prioritariamente, para certas sequências de acção, em detrimento de outras. Mas a discussão em torno desta ideia está longe de gerar consenso, assistindo-se a um debate entre os partidários de um entendimento cognitivista, conotado com os programas motores e as representações mentais, e os cultores da Psicologia Ecológica e da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, estes mais comprometidos com as variáveis que governam a percepção e a produção de padrões.


O artigo de Júlio e Araújo inscreve-se nesta segunda perspectiva. Nele, os autores referem que ao assumir-se que o conhecimento dos jogadores de maior perícia está sempre disponível na sua memória, se experimenta dificuldade em explicar, por exemplo, as variações do rendimento desportivo quando os jogadores defrontam diferentes adversários em distintos enquadramentos competitivos. Acrescentam que talvez esta seja uma das muitas questões que levam cada vez mais autores a apontar para a necessidade de se considerar a dinâmica da interacção jogador-envolvimento para compreender a tomada de decisão no desporto. De facto, porque actuam num contexto de oposição e cooperação de alta variabilidade contextual, as equipas de Futebol podem ser consideradas sistemas especializados e fortemente dominados pelas competências estratégias e heurísticas. Contudo, neste domínio está por esclarecer a importância da memória e das relações que esta assume com a aprendizagem e o conhecimento. Estes aspectos são determinantes para a orientação e direccionamento do processo de treino e para a condução e controlo das interacções produzidas durante o jogo.

A SUSTENTÁVEL JUSTEZA DO COLECTIVO


Escorados na tese de que as acções desportivas são reguladas por indução perceptiva e viabilizadas através das denominadas estruturas coordenativas, Júlio e Araújo, referem e adoptam a estruturação em três categorias preconizada por Karl Newell, para os constrangimentos que determinam as acções e que interagem para a produção de um padrão de coordenação, a saber: 1) os específicos do jogador; 2) os da tarefa; e 3) os do envolvimento, para além do jogo propriamente dito। Diga-se, todavia, que esta tipologia não enfatiza a importância da dimensão essencial do sistema, isto é, da faceta colectiva enquanto totalidade organizada que procura afirmar a sua identidade e preservar a respectiva integridade funcional. O jogo de Futebol, porque decorre da natureza do confronto entre dois sistemas dinâmicos complexos – as equipas – caracteriza-se pela sucessiva alternância de estados de ordem e desordem, estabilidade e instabilidade, uniformidade e variedade. Dado que se trata de situações de mudança de final aberto, o raciocínio eficaz parece estar mais relacionado com a descoberta de novos significados e o desenvolvimento de novas perspectivas. Sobretudo a partir dos anos noventa, vários autores têm salientado a necessidade de abrir novas vias de reflexão e de deixar pistas para a renovação das práticas de ensino e treino do Futebol (e.g., Gréhaigne, 1992; Garganta, 1997; Mateus, 1997; 2003; Garganta & Gréhaigne, 1999; Garganta & Cunha e Silva, 2000; Araújo, 2003; Davids et al., 2004).


O enfoque do jogo de Futebol, segundo a perspectiva de abordagem dos sistemas dinâmicos, afigura-se como uma estratégia a privilegiar। Porque se centra no estudo de múltiplas variáveis interdependentes, parece revelar-se mais consentâneo com a natureza do fenómeno em causa. Deste modo, oferece a possibilidade de identificar e regular interacções nas sequências de jogo que se afiguram representativas da dinâmica das partidas, bem como organizar e sintetizar os conhecimentos para induzir uma superior eficácia na acção.


DA MANIPULAÇÃO DE CONSTRANGIMENTOS À LIBERDADE DE (INTER)ACÇÃO


Concordamos com Júlio e Araújo, quando referem que se torna necessário identificar e manipular os constrangimentos mais relevantes para que as acções e decisões tenham maior eficácia. Os sistemas complexos e dinâmicos, como as equipas de Futebol, só se mantêm auto-organizados pela (inter)acção, pela mudança. A sua identidade, ou a sua invariância, não provém da inalterabilidade dos seus componentes, mas da estabilidade da sua forma e (auto)organização face aos fluxos acontecimentais que os atravessam. Através do treino em Futebol procura-se transmitir/assimilar, activamente, uma cultura de jogo, materializada num conjunto de regras de acção e princípios de gestão em relação com os diferentes cenários acontecimentais e, sobretudo, com as respectivas probabilidades de evolução. Do nosso ponto de vista, o processo de treino em Futebol consiste, por um lado, em criar respostas adaptativas a constrangimentos, e, por outro, em desenvolver condições para que os jogadores e a equipa possam constranger o adversário.
Pode dizer-se que o comportamento dos jogadores, num jogo, se situa numa tensão permanente entre conhecimento e acção। Considerando que o confronto desportivo ocorre em contextos de participação simultânea e de espaço comum, qualquer comportamento é fortemente condicionado do ponto de vista estratégico-táctico, portanto com claras implicações no domínio cognitivo.


CONHECER PARA (INTER) AGIR; (INTER) AGIR PARA CONHECER


Nos últimos anos, a literatura tem sugerido insistentemente que ao nível dos processos de ensino-aprendizagem e treino do Futebol, grande destaque deve ser dado ao desenvolvimento dos processos cognitivos, enquanto indutores de eficácia do rendimento desportivo.


Como sugerem Williams e Davids (1995), o conhecimento específico do jogo repousa em pressupostos cognitivos, Por outro lado, o domínio dos pressupostos cognitivos para realizar as acções de jogo, não implica automaticamente o domínio das condições motoras para as operacionalizar. Ou seja, saber quando e como executar não significa saber executar as acções em jogo, porquanto a capacidade de execução não se esgota na dimensão cognitiva, mas tem que ser viabilizada por outras dimensões, nomeadamente a energética e a coordenativa. Acresce que a perspectiva ecológica tem alertado para a necessidade de se enfatizar o papel das propriedades do envolvimento, pelo facto destas constituírem um sistema de constrangimentos e de possibilidades de acção (as affordances de J.J. Gibson, 1966), com significativas implicações no condicionamento das respostas do observador/actor.


Nesta perspectiva, o comportamento justifica-se mais pelas competências perceptivas do indivíduo, do que pela sua capacidade de armazenar soluções padronizadas na memória. Esta problemática torna-se ainda mais complexa quando se procura tratar simultaneamente as principais exigências da acção desportiva – “o que fazer” e “como e quando fazer” – na medida em que se sabe, por exemplo, que a capacidade para executar uma habilidade técnica influencia a tendência para a eleger como opção táctica na situação de jogo (French et al., 1996). Contudo, a informação disponível e a experiência conduzem-nos à ideia de que dificilmente poderemos conceber a existência de efeito de treino, ou de transfer, sem representações armazenadas na memória dos executantes. Os trabalhos do neurobiologista António Damásio constituem um importante contributo para a clarificação das relações entre conhecimento, memória, percepção e aprendizagem, nomeadamente no que se reporta às denominadas imagens mentais, conceito explanado em alguns dos seus livros, entre os quais O sentimento de si (2002). Segundo este autor, a percepção ajuda-nos a construir padrões que cartografam a interacção do organismo com o meio, os quais são edificados de acordo com as convenções do cérebro. Neste sentido, Damásio sustenta que as imagens que se criam nas nossas mentes não são facsimiles de nenhum objecto ou evento específico, mas antes imagens das interacções de cada um de nós com essas “realidades”. O que existe, de facto, não é nenhuma imagem a ser transferida do objecto para a retina e da retina para o cérebro, mas um conjunto de correspondências entre as características físicas do objecto e os modos de resposta do organismo.

Este entendimento conduz-nos à ideia de que, ao pretender explicar-se o comportamento como produto da relação directa entre percepção e a acção, se subalterniza, o papel das representações e da memória, e se descura a pertinência do raciocínio por analogia, tão importante para agir em ambientes abertos de oposição directa e participação simultânea, como é o caso do jogo de Futebol. Cabe aqui uma referência especial à relação entre o comportamento criativo e os denominados automatismos. Sabe-se que estes consistem em hábitos construídos a partir da repetição de determinadas respostas e que esta forma de funcionamento, cujo objectivo principal é economizar tempo e energia, só funciona quando o organismo já experimentou uma exposição a contextos idênticos e os registou na memória. Neste âmbito, a abordagem dinâmica da acção táctica, pode fornecer referências importantes para o esclarecimento do modo como se conjugam o vínculo às regras e princípios, e a possibilidade de se criar novas acções e interacções, isto é, de se criar e inventar novos cenários no seio do jogo.

O QUE TEM DE NOVO, E DE ÚTIL, A ABORDAGEM DINÂMICA DA ACÇÃO TÁCTICA NO JOGO DE FUTEBOL?

O jogo de Futebol é uma construção activa, na medida em que o seu desenvolvimentodecorre da afirmação e actualização das escolhas e decisões dos jogadores, realizadas num ambiente de diversos constrangimentos e possibilidades. Face a uma situação de jogo, cada jogador privilegia determinadas acções em detrimento de outras, estabelecendo uma hierarquia de relações de exclusão e de preferência, com implicações no comportamento da equipa enquanto sistema. Os elementos duma equipa funcionam numa perspectiva teleológica, na medida em que as actividades que contribuem para o êxito do processo, são organizadas em função dum fim, que pode ser alcançado a partir de diferentes condições de trabalho. Não obstante, impõe-se a necessidade de detecção e interpretação de invariantes, bem como de variações significativas.
Estas variações, por induzirem desequilíbrios importantes, constituem-se como transições de fase ou fases críticas do jogo, cuja importância é fundamental para a eficácia da dinâmica do jogo, nomeadamente no que se refere às transições defesa/ataque e ataque/defesa. Não se trata, todavia, de reduzir o jogo a uma noção abstracta de sistema, mas de procurar inteligir princípios que orientem o comportamento e definam a organização dos sistemas implicados. Tal pode ser feito através da identificação de regras de gestão e de funcionamento dos jogadores e das equipas, e da descrição acontecimental das regularidades e variações que ocorrem nas acções de jogo. As equipas, enquanto sistemas complexos, revelam propriedades cujo conhecimento nos permite desenvolver um processo de treino mais específico, e, portanto, mais ajustado às exigências da modalidade e às características do(s) modelo(s) de jogo e dos jogadores que o(s) procuram interpretar.

De tais propriedades sobressaem determinados traços, com claras implicações no mapeamento do(s) jogo(s) e, portanto, na construção de exercícios para lhe corresponder. Referimo-nos a três princípios que consideramos vertebradores da dinâmica organizacional: (1) a não-linearidade, relacionada com o facto da identidade dos sistemas em jogo não resultar de uma sobreposição de efeitos ou de comportamentos elementares; (2) a interdependência, isto é, a característica que faz com que qualquer comportamento de um dos elementos dos sistemas tenha repercussões no comportamento dos demais; (3) e a emergência, que decorre da criação de propriedades colectivas qualitativamente diferentes das competências e atribuições de cada jogador.
Os exemplos que a seguir apresentamos visam ilustrar a manifestação destes princípios no âmbito específico do Futebol:

(1) NÃO-LINEARIDADE

Por vezes paira a ideia de que, no Futebol, para se conseguir eficácia do ponto de vista ofensivo é aconselhável jogar rápida e directamente a bola para a baliza adversária, tentando lá chegar o mais depressa possível. Contudo, pode constatar-se que grande parte das vezes se consegue mais êxito quando se opta por caminhos que, embora mais longos metricamente, se tornam mais acessíveis porque não apresentam tantos, nem tão difíceis, constrangimentos. O mais importante não é, portanto, a distância métrica, mas sim a dificuldade que se experimenta para vencê-la, até se chegar à baliza adversária.

(2) INTERDEPENDÊNCIA

O tipo de organização defensiva adoptado por uma equipa pode ser determinante para a forma como esta ataca a baliza adversária e para o resultado final. Dado que o jogo é continuidade, é fluidez, não parece viável que uma equipa possa estar muito ligada a atacar, se não estiver também ligada na procura da bola. Tome-se como exemplo a noção de «encaixe», tão propalada para garantir eficácia defensiva em Futebol. De acordo com um entendimento sistémico e dinâmico do jogo, tal estratégia afigura-se negativa, pelo facto de a equipa, ao «encaixar», estar a submeter-se à vontade do adversário. Em vez de agir, apenas reage. Uma das grandes vantagens das equipas eficazes, quando não têm a posse da bola, é a permanência duma estrutura dinâmica, em equilíbrio, aspecto que garante a coordenação dos jogadores e o funcionamento em bloco. As referências defensivas são áreas, superfícies, zonas e não tanto os adversários, perspectivados pontualmente.

Conseguir uma defesa mais equilibrada, mais eficaz, que permita tirar melhor partido das mais valias do conjunto, tem a ver com o facto dos jogadores não estarem centrados em fazer a marcação a pontos físicos, mas com a marcação de espaços e da bola, partindo do pressuposto de que se valoriza mais uns espaços do que outros. Marcação é jogador, espaço, bola, tempo e, portanto, leitura da situação. Mais do que uma marcação física, ela está relacionada com um sentido que se atribui à situação em função das linhas de força e das probabilidades de evolução do jogo, considerando a respectiva interdependência, de acordo com os diferentes momentos.

(3) EMERGÊNCIA

A indução de convulsões no fluxo do jogo do oponente, afigura-se fundamental para se conseguir maior fluidez no próprio jogo e para com isso estar mais perto de concretizar do que o adversário. De acordo com os princípios específicos de jogo, quando uma equipa perde a posse da bola, deve procurar tornar o campo mais pequeno e retirar fluidez ao jogo, exactamente o contrário daquilo que a equipa adversária pretende, que é ampliar o espaço de jogo efectivo e de garantir fluidez, continuidade, no sentido de trocar a bola e criar espaços favoráveis.

Do denominado jogo “escuro” para o jogo “claro” há como que uma alteração brusca no fluxo da corrente. Quem melhor se adaptar, melhor conseguirá impor o seu jogo, o que é facilmente verificável em algumas equipas de topo. Um dos pressupostos para se jogar eficazmente tem muito a ver com a questão do primeiro tempo defensivo, i.e., logo após a perda da posse da bola. Esse tempo é fundamental, sabendo-se que não é aconselhável que os jogadores saiam ao adversário directo individualmente e por ondas. Neste caso, torna-se conveniente dispor de um ou dois jogadores, que estando mais próximos do local onde se perdeu a posse da bola, imediatamente sustenham o ataque do adversário e permitam um reagrupamento dos colegas.
Quer isto dizer que um comportamento aparentemente individual pode induzir as consequentes coberturas defensivas e o fechamento das linhas de passe mais importantes, o equilíbrio e a concentração espacial, criando-se uma dinâmica emergente que sirva os propósitos da organização colectiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A grande vantagem das melhores equipas e dos melhores treinadores passa pela capacidade de gerir o detalhe sem perder de vista o Jogo como sistema dinâmico. Por vezes, quando se procura atender ao detalhe descura-se os nexos do sistema, o que origina que na maior parte das vezes o efeito de treino não vá desaguar no “mar” que pretendemos, ou seja, não tem transfere positivo para os comportamentos e atitudes na competição. A experiência tem demonstrado que a qualidade do jogo não pode vingar com base na aplicação mecânica de combinações tácticas aprendidas e repetidas no treino. Os jogadores devem, sobretudo, confrontar-se com a evolução das configurações do ataque, da defesa e das transições, considerando os distintos níveis de organização, do 1x0 ao 11x11. Consequentemente, o recurso ao raciocínio baseado na perspectiva dos sistemas dinâmicos parece constituir o caminho mais ajustado para tratar eficazmente os problemas postos pela interacção específica das duas equipas.

Ao afinar pelo diapasão da abordagem dinâmica da acção táctica é possível enfatizar a importância do treino específico, a partir da oposição e da imprevisibilidade, enquanto factores de evolução. Tal entendimento vem conduzindo a que no treino do Futebol faça cada vez mais sentido o recurso a exercícios que provoquem uma mobilização importante das capacidades perceptiva e decisional, em contextos de diversificados constrangimentos e possibilidades. Esta estratégia de intervenção induz o desenvolvimento de comportamentos mais versáteis, permite alargar o espectro de respostas e prepara os jogadores para lidarem com situações não convencionais. É um tipo de enfoque que, ao privilegiar a oposição e a gestão da imprevisibilidade como fonte de evolução, reabilita o jogo como elemento fundamental de aprendizagem e possibilita perspectivar o treino enquanto espaço de autonomia. Em síntese, permite "devolver o jogo aos jogadores".

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Abraço
Luis Esteves